'La Perra', mascote chilena e brasileira, late por mundo

Premiado em Cannes, aclamado em Gramado, filme de Dominga Sotomayor, em disputa nos Horizontes Latinos em Donostia reúne as latinidades de Manuela Oyarzún e Selton Mello

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Produção da brasileira RT Features, 'La Perra' ganhou a Palm Dog em Cannes e fechou Gramado

Foi com a conquista do Palm Dog em Cannes, onde brilhou na Quinzena dos Cineastas, que "La Perra", de Dominga Sotomayor, começou a construir uma carreira internacional que agora se aproxima do Brasil. Depois de encerrar as atividades do 54º Festival de Gramado, o longa-metragem chileno, coproduzido pela paulistana RT Features, desembarca no Festival do Rio, agendado de 1º a 11 de outubro. Antes, porém, tenta a sorte na Horizontes Latinos do Festival de San Sebastián, onde seus dois astros mais conhecidos, a chilena Manuela Oyarzún e o brasileiro Selton Mello, conversaram com o Correio da Manhã.

Aos 53 anos, Selton chega a Donostia num período de múltiplas frentes. Enquanto brilha no Globoplay com "Sessão de Terapia", aguarda a engenharia financeira necessária para levantar, via Conspiração, uma adaptação de "O Alienista", clássico de Machado de Assis (1839-1908) que pretende dirigir. É um projeto grande, caro e complexo, ainda sem filmagem imediata. Sua inquietação como cineasta, contudo, não vai esperar.

"Dirigir é uma responsabilidade maior, porque você coloca ali um ponto de vista sobre o mundo e sobre um sentimento. 'O Alienista' não vai acontecer tão rapidamente. É caro, é difícil, e a Conspiração está trabalhando para fazer tudo acontecer no momento certo. Mas tenho uma inquietação como cineasta de fazer algo mais urgente. Acho que vou realizar em breve um trabalho pequenininho em escala, com dinheiro mínimo e equipe mínima, mas nascido de alguma coisa que preciso falar. Vou poder contar mais nos próximos dias", adianta Selton, ao Correio da Manhã.

Em "La Perra", Manuela abre caminhos para a expiação de muitas angústias. Ela vive Silvia, uma mulher solitária numa ilha remota do sul do Chile que encontra uma cachorrinha e a batiza de Yuri, nome que daria à filha que nunca teve. O afeto pelo animal rompe uma espécie de anestesia emocional, mas também faz emergir feridas soterradas.

"Vejo o trauma como um acontecimento capaz de produzir contradições e emoções muito diferentes. Silvia é uma mulher sem expectativa diante da vida, quase adormecida emocionalmente. Quando essa cachorra aparece, surge uma possibilidade de amor, como se alguma coisa se abrisse nela e permitisse o começo de outra vida. Só que existe um trauma não tratado. O amor transforma-se em apego, e esse apego adoece", explica Manuela, ao lado do mineiro de Passos, em Donostia.

O trauma de que fala cruza diretamente o personagem de Selton, presença breve na metragem, mas determinante na trajetória de Silvia. O brasileiro aceitou o convite sem se preocupar com o tamanho do papel. Já conhecia a filmografia de Dominga, consagrada em Locarno por "Tarde para Morrer Jovem" (2018) e responsável também por "Limpia" (2025), hoje disponível na Netflix.

Rodrigo Fonseca - Manuela Oyarzún e o brasileiro Selton Mello, destaques do elenco de 'La Perra'

"Eu já era fã da Dominga. Quando Rodrigo Teixeira me disse que ela tinha gostado de 'Ainda Estou Aqui', mas estava com vergonha de me chamar porque o papel era pequeno, respondi: 'Fala com ela agora'. Não importa se é pequeno ou grande, eu queria ter essa experiência. E não é uma participação pequena dramaticamente: o personagem está ligado ao trauma principal dessa mulher", diz Selton.

Para Manuela, o movimento decisivo de Silvia não está numa solução exterior, mas numa alteração íntima, quase espiritual. "Sempre me obcecou a ideia de que o arco de uma personagem precisa ter alguma evolução espiritual. Isso não significa que ela vá terminar feliz. Silvia passa praticamente a vida inteira sem conseguir soltar aquilo que carrega. Quando finalmente se permite chorar, dentro da caverna, há um aprendizado. Para um corpo traumatizado como aquele, permitir-se viver a dor já é um avanço. É o que pode possibilitar que ela siga adiante e assuma a própria vida como ela é".

Há também uma delicada discussão de classe costurando a tragédia. Selton viu em seu personagem uma síntese da cordialidade que desaparece quando as estruturas sociais são colocadas sob pressão. "Existe uma hipocrisia de classe muito interessante. Enquanto está tudo bem, comemos juntos, cantamos, confraternizamos. Quando vem a tragédia, a classe social aparece. Aquela figura aparentemente afetuosa passa a ser também uma peça decisiva na dor da protagonista", diz o ator.

O vínculo entre Brasil e Chile ainda ganhou música durante a filmagem. Numa sequência de confraternização, Selton contou a Dominga que tocava violão. A diretora, criada numa casa atravessada também pelas telenovelas brasileiras, incorporou essa habilidade à cena e recuperou uma canção de José Augusto, "Aguenta, Coração". O gesto ajudou a construir uma relação inicialmente calorosa entre as personagens, com trocas entre português e espanhol, antes que a narrativa revele as rachaduras daquele convívio. A liberdade de Sotomayor foi igualmente determinante para Manuela. "Trabalhar com Dominga é muito agradável porque desde o início se estabelece um diálogo. Ela permite perguntas, inquietações e uma criação conjunta. É extremamente intuitiva e sabe escutar os atores e toda a equipe. Observa e faz um ajuste, mas esse ajuste procura sempre algo muito sutil. Não está apenas preocupada com a execução da cena: procura uma atmosfera, um sentimento, uma emoção que não é tangível. Nosso trabalho era encontrar uma forma de fazer esse intangível aparecer diante da câmera".

Essa busca exigiu até uma estratégia para aproximar atriz e animal. Durante as filmagens, a equipe recebeu a orientação de não encarar Yuri diretamente nos olhos, preservando Manuela como principal referência afetiva da cachorra. "Havia esse código: ninguém deveria olhar nos olhos dela, apenas eu. Isso ajudava a criar a nossa ligação", recorda a atriz. A natureza que cerca as duas, porém, não funciona como cenário decorativo. "A paisagem é uma personagem e nós também fazemos parte dela."

A 74ª edição do Festival de San Sebastián termina no dia 26 de setembro com a entrega de prêmios.