Juanjo Pereira e as feridas abertas do Paraguai
ENTREVISTA: Juanjo Pereira, cineasta
Cineasta paraguaio premiado na Berlinale e elogiado no Festival de San Sebastián de 2025 abre o Filmambiente no Rio: ‘O arquivo é um território que deixa rastros’
O passado político da América Latina encontra suas cicatrizes ambientais quando o 15º Filmambiente abrir sua programação nesta quarta-feira, dia 23, às 21h, no Estação Claro Rio, em Botafogo. Escolhido pela curadora Suzana Amado para inaugurar a edição de 2026, “Sob as Bandeiras, o Sol” (2025), do paraguaio Juanjo Pereira, constrói a partir de imagens de arquivo uma anatomia da ditadura de Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai entre 1954 e 1989, expondo os mecanismos de propaganda, controle da memória e exercício do poder daquele regime. A produção foi um dos destaques de San Sebastián, em 2025.
Não é a primeira passagem do longa pelo Brasil. Exibido na competição internacional do É Tudo Verdade em 2025, já com o título nacional “Sob as Bandeiras, o Sol”, o documentário chega agora ao Rio num contexto que amplia suas possibilidades de leitura. Ao investigar como poder político, território e ideia de progresso se entrelaçam, Pereira chega também à construção da hidrelétrica de Itaipu e às consequências ambientais de grandes projetos desenvolvimentistas. A relação entre arquivo, terra e resistência aproxima o filme do eixo deste ano do Filmambiente, “Ações e Consequências”.
Com 60 filmes brasileiros e estrangeiros e sessões gratuitas, o festival idealizado em 2011 e hoje curado por Suzana Amado segue até 2 de outubro. O Estação Claro Rio concentra a programação principal, que se espalha ainda pela Biblioteca Parque Centro, Cinemateca do MAM e INES, no Rio, e pelo Cine Arte UFF, em Niterói. Na abertura, “Sob as Bandeiras, o Sol” será antecedido pela apresentação da historiadora Ynaê Lopes dos Santos, curadora dos painéis do festival.
Ao Correio da Manhã, Pereira fala do florescimento do cinema paraguaio (hoje bem representado em San Sebastián, com "Narciso", de Marcelo Martinessi), da herança das ditaduras e de como recuperar imagens esquecidas pode constituir, em si, um ato de resistência.
O cinema paraguaio vive um momento de crescente visibilidade internacional. O que tornou possível essa expansão e o que o Paraguai pode acrescentar hoje à cartografia do cinema latino-americano?
JUANJO PEREIRA — O cinema paraguaio vive um grande momento graças à criação da Lei do Cinema no Paraguai, oficialmente chamada Lei nº 6.106, de Fomento ao Audiovisual. A partir daí, tornou-se possível começar a pensar em fazer cinema de maneira mais profissional. Culturalmente, acredito que este país seja um lugar de enorme força narrativa. São muitos anos de repressão que agora começam a vir à luz. No entanto, não é a primeira vez que o Paraguai aparece no cenário latino-americano. Graças ao trabalho dos primeiros realizadores do nosso cinema, hoje os novos cineastas também podemos ocupar outros espaços, tanto nacional quanto internacionalmente. Acredito ainda que a presença de filmes paraguaios no panorama latino-americano venha a preencher uma peça que faltava no quebra-cabeça da nossa região.
O Paraguai ocupa uma posição geopolítica muito particular, sem saída para o mar, atravessado por grandes rios e fronteiras e marcado por guerras, ditaduras e disputas territoriais. De que maneira essa geografia interfere na estrutura de “Sob as Bandeiras, o Sol”?
JUANJO PEREIRA - Esse conjunto de elementos é justamente o que torna esse território tão particular. Somos marcados por uma tradição militar incutida em nossa educação e em nossa cultura de maneira totalitária. Estar encerrado nessa espécie de ilha de terra atravessa nossa narrativa, não apenas no cinema, mas também em outras artes. Durante muito tempo, o contato com o exterior, fossem os países vizinhos ou o restante do mundo, foi um obstáculo. Isso mudou nos últimos anos. Evidentemente, tudo isso construiu, afetou e contaminou a estrutura de “Sob as Bandeiras, o Sol”. Cresci atravessado pela memória das guerras do Paraguai, pela ditadura, e minha herança cultural está completamente ligada à figura do poder. Mas havia outra coisa que sempre me chamou muito a atenção: o absurdo. Esses foram os ingredientes que tornaram possível a estrutura do filme. Era preciso compreender que estivemos sob o jugo de um poder militar ridículo e absurdo. Foi isso que quis levar para a tela.
Num documentário, um território pode transformar-se em arquivo, memória e personagem. Como a paisagem paraguaia revela relações de poder que documentos oficiais ou discursos políticos procuram esconder?
JUANJO PEREIRA - Para mim, o arquivo é um território que deixa rastros. É como um pedaço de terra encontrado, sobretudo num país onde quase tudo está escondido ou perdido e deixou poucos vestígios. Nesse sentido, trabalhar com arquivos audiovisuais, procurá-los, tratá-los e compreendê-los é um ato de resistência, uma espécie de preservação ecológica. A paisagem paraguaia está ligada à presença e ao exercício do poder. Isso aparece em alguns dos arquivos presentes no filme. Um dos exemplos mais claros é a criação da Hidrelétrica de Itaipu, que compartilhamos com o Brasil e que, em nome do progresso, afetou tremendamente o ecossistema que dividimos.
Uma nova geração de filmes paraguaios começa a tornar internacionalmente visível um território cinematográfico antes pouco representado. Essa força vem também da possibilidade de olhar o Paraguai de dentro para fora?
JUANJO PEREIRA - Hoje existe uma nova geração de cineastas realizando trabalhos em todo o território nacional, filmes que procuram olhar para dentro e não apenas pertencer a formas narrativas feitas para exportação. Ainda é difícil nos desprendermos de gêneros e modelos preestabelecidos. Como o Paraguai não possui uma cinefilia ou uma filmoografia tão vasta, ainda estamos encontrando o nosso caminho. E talvez essa seja justamente a coisa mais bonita do momento que vivemos: pensar que, em 2026, somos um país que está florescendo cinematograficamente.