Nem Milei detém a glória de 'Glaxo'
Produzido pela brasileira RT Features e rodado em solo gaúcho, o novo longa de Benjamín Naishtat pode dar a Concha de Ouro a 'nuestros hermanos' apoiado em mais uma atuação imopecável de Marcelo Subiotto
Rodada no Rio Grande do Sul, sob a produção da RT Features de Rodrigo Teixeira (grife por trás de "Ainda Estou Aqui"), o misto de thriller e drama geracional "Glaxo" tem fortes chances de dar ao argentino Benjamín Naishtat a Concha de Ouro do 74º Festival de San Sebastián num momento onde toda vitória em prol do cinema de sua pátria representa uma afronta ao método Javier Milei de silenciar uma cultura. Cultura essa que ganhou duaz vezes o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (com "A História Oficial" e "O Segredo Dos Seus Olhos") e segue firme na luta contra a destruição da porção mais famosa indústria audiovisual.
Sua consagração, por um roteiro artebatador, que se baseia na prosa de Hernán Ronsino, passa por uma recriação da década de 1950, numa fase de jugo ditatorial (em 1957) na qual um policial corrupto até a medula, apoiado num estado conservador, abusa da inocência de um adolescente. Esse ser desprezível, Ramón Folcada, que se tornou "O" personagem, em meio à fauna de tipos do evento espanhol, amplia o prestígio internacional de seu intérprete, o ator Marcelo Subiotto, uma espécie de novo Ricardo Darín, que evoca Gene Hackman em seu jeito de compor a Maldade.
"Ele é mau como Lady Macbeth, mas não é um tipo específico do nosso tempo", disse Subiotto ao Correio da Manhã em San Sebastián, onde saiu laureado em 2023 por sua atuação em "Puan", também de Naishtat. "A criação de Folcada contou com a sugestão de Benji de recorrer ao cinema noir".
Fotografado por Pedro Sotero (de "O Som ao Redor"), "Glaxo" começa em 1984, com dois amigos numa sala de projeção de Chivilcoy, uma província argentina, vendo "Exterminador do Futuro", sem entender o enredo sci-fi filmado por James Cameron. Num papo entre ele, abre-se a prerrogativa de imersão em lembranças antigas, dos anos 1950, com a mácula de uma traição. É onde entra Folcada e suas presepadas.
"Cresci com a cinefilia do VHS dos anos 1980 e sou fanático pelo Exterminador. O que mais me surpreende é notar que consegui ter imagens desse cult num filme argentino. No romance de Ronsino, as pessoas assistem a um faroeste. Mas, quando eu fui rodar o longa, pesquisei o que se passava no cine que havia em Chivilcoy, na metade da década de 80, e encontrei o longa de Cameron", disse Naishtat, ao Correio da Manhã.
Em 2017, "Vermelho Sol" ("Rojo") deu a ele o troféu de Melhor Direção em San Sebastián, além de ter valido um prêmio para Sotero. "Glaxo" pode repetir esse placar e, quiçá, dar uma láurea extra a Subiotto. A ruindade de Folcada, capaz de evocar a bestialidade do xerife Little Bill de Gene Hackman em "Os Imperdoáveis" (1992), chega a seu apogeu de toxicidade no momento em que ele manipula o jovem Miguelito Barrios (Joaquin Bonadeo). Seu interesse é fazer com o rapaz vigie sua esposa, Miranda (Lali Espósito, em firme interpretação). Só não podia esperar que o garoto viesse a se apaixonar por ela.
Essa problemática, que ajuda a revisitar a História da América do Sul sob a ótica de nuestros hermanos de Argentina encantou o Festival de Toronto, aonde a RT levou "Glaxo" antes de se deixar aplaudir em San Sebastián.
"É importante nos relacionarmos com a América Hispânica, pois também somos latinos, apesar de falar outra língua", diz Rodrigo Teixeira, que destaca o papel de Naishtat no rol de diretores que produziu, onde figuram James Gray, Dominga Sotomayor, Noah Baumbach, Robert Eggers e Walter Salles. "Benjamín é um cinéfilo e eu aprendo muito com ele".
O único dos concorrentes à Concha de Ouro mais badalado do que "Glaxo" é o sombrio resgate de época meio alemão, meio polonês "Krux", centrado numa onda de suicídios em um vilarejo germânico em meio à II Guerra Mundial. A premiação de San Sebastián será anunciada neste sábado, a partir de deliberações de um júri presidido pelo cineasta Ira Sachs, com Alice Braga de jurada.