Albert Serra: 'O cinema do futuro fará você acreditar no impossível'
Xodó do momento da crítica internacional, sobretudo da revista "Cahiers du Cinéma", Albert Serra está de volta ao Festival de San Sebastián, dois anos depois de ter conquistado a Concha de Ouro com "Tarde de Solidão" ("Tardes de Soledad", hoje na plataforma MUBI), a fim de inundar as telas da Espanha com a sinestesia de "Seize Moments De Ma Vie". Este ensaio documental musical se desenha a partir de performances canoras da diva alemã Ingrid Caven, musa do cinema de Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), diante da banda Molforts, de Banyoles, numa apresentação de dimensão catártica e anárquica. Aos 86 anos na época da filmagem, Caven (hoje com 88) oferece ao catalão um corpo atravessado pelo tempo, mas filmado sem qualquer intenção de embalsamá-lo. Avesso às fórmulas do cinema espanhol contemporâneo e pouco interessado em reivindicar filiações, Serra atravessa um momento de projeção internacional ampliada por sucesso de seu "Pacification" (2022). Neste papo com o Correio da Manhã, o realizador antecipa detalhes de sua nova ficção, "Out of This World", com Riley Keough e F. Murray Abraham, e analisa o porvir da linguagem cinematográfica.
Existe uma espécie de casamento artístico entre seu olhar e o de Artur Tort, seu fotógrafo assinatura. Como essa conexão funciona na prática?
ALBERT SERRA - Oitenta por cento, talvez 90%, ou mais, das pessoas com que trabalho fizeram seu primeiro longa-metragem comigo. Isso é muito diferente do que acontece com a maioria dos diretores, que trabalham com profissionais que já fizeram filmes com outras pessoas. Os meus começaram comigo. Eu também comecei com eles. Tenho uma maneira de fazer cinema bastante peculiar, muito pessoal, e eles se formaram dentro desse contexto. Com Artur, isso acontece de uma forma ainda mais intensa. Talvez seja a pessoa com quem tive uma relação pessoal mais profunda no processo criativo. Desde o início, ele fez comigo não apenas fotografia, mas também montagem. Portanto, compreendeu uma questão que hoje considero essencial: um diretor de fotografia que não entende de montagem serve para muito pouco. A luz, no futuro, até a inteligência artificial poderá preparar. Você poderá pedir referências dos grandes, como Vilmos Zsigmond, Gordon Willis, Conrad Hall, Jack Cardiff, e a IA vai te dar. Mas o importante é: o que você está filmando e por quê? Artur compreendeu isso desde o início. Por isso entende o cinema de maneira diferente, um pouco mais profunda. Nem precisamos conversar muito. Não gosto de falar demais com as pessoas no set. É como Clint Eastwood trabalhando sempre com a mesma equipe: cada um já sabe o que precisa fazer. Isso cria uma autoconfiança muito grande e a sensação de que estamos imbuídos de uma missão artística.
O corpo já era central em "Tardes de Soledad", tanto o dos touros quanto o do toureiro Reinaldo Roca Rey. Em "Seize Moments De Ma Vie", existe o corpo de Ingrid Caven, uma mulher de 86 anos diante da câmera. Como filmar uma diva como ela?
É um processo que envolve dialogar com algo inevitável: a passagem do tempo. Quando rodamos, Ingrid tinha 86 anos; agora tem 88. Queira ou não, isso pairava sobre todos nós, sobretudo sobre ela e sobre mim. Existe alguma coisa de crepuscular, de fim de uma era. Isso me interessava, mas, ao mesmo tempo, eu não queria cair na nostalgia de um corpo passado ou de uma vida passada. Queria destruir um pouco essa nostalgia. Por isso, a música que preparei para Ingrid, feita pelos músicos que sempre trabalharam comigo, é mais vanguardista. Uma etapa termina, mas outra começa. Ela está começando uma carreira nova. Logo, o que me interessa, a partir dela, é pensar o futuro... o futuro desse corpo. Quando você pensa assim, filma de outra maneira. Não há fetichismo nem nostalgia. Há algo novo.
O cinema também parece viver uma espécie de momento crepuscular. Mas seus filmes não olham para ele com nostalgia. Onde está o futuro do cinema?
Há um aspecto que as pessoas valorizam pouco e que, com o meu sistema, percebi ser fundamental: a direção de atores. Com o cinema digital e com a minha maneira de construir a mise-en-scène, podemos trabalhar com atores de forma muito original. Gosto de levar ao extremo uma contradição: quero que os atores sejam o mais artificiais possível e, simultaneamente, o mais orgânicos possível. O artificial estaria ligado à fantasia, enquanto o orgânico estaria associado ao realismo, quase ao hiper-realismo. O cinema do futuro fará você acreditar no impossível... e o fará por meio de atores de enorme precisão.
Foi isso que procurou com Reinaldo Roca Rey em "Tardes de Soledad"?
Sim. A tauromaquia já possui essa característica. É extremamente codificada, artificial, estilizada, mas, ao mesmo tempo, profundamente orgânica porque existe o perigo da morte.
Você parece uma ave rara no cinema contemporâneo. Sente-se pertencente a alguma genealogia cinematográfica?
Existe a genealogia daqueles que não têm genealogia. Buñuel, por exemplo. Quem influenciou Buñuel? Ninguém. E quem conseguiu realmente copiá-lo? Ninguém. São personalidades únicas, muito difíceis de imitar. Essa é a minha genealogia: fazer um cinema muito pessoal, que, quando você olha de perto, percebe que não tem uma influência direta e que também não pode influenciar facilmente outras pessoas, porque não é possível copiar o que faço. É particular demais. As minhas influências são mais de atitude do que de conteúdo. O cinema dos anos 1960 me influencia porque gosto do espírito daquela década. Havia mais desejo de vanguarda, mais iconoclastia. Fui influenciado pela atitude dos artistas autênticos, não por uma filiação cinematográfica concreta. Na prática, a literatura me influencia muito mais.
Quando veremos "Out of This World", sua nova ficção?
Termino a montagem em 15 de novembro, depois de um processo particularmente complexo diante da quantidade e heterogeneidade do material rodado. O filme está ambientado no princípio da guerra da Ucrânia. É sobre os Estados Unidos e a Rússia num conflito econômico. Posso dizer que a atuação de F. Murray Abraham é das melhores de sua carreira.