Naëmi Ada na cadência de corpos (e almas) de Donostia

Por Rodrigo Fonseca

Naëmi Ada é uma das concorrentes da seção New Directors de San Sebastián, em 2026

A solidão de uma mulher que precisa reaprender a existir depois de uma relação abusiva ganha contornos físicos em “Body of Glass”, produção franco-alemã de 90 minutos apresentada no Festival de San Sebastián. Dirigido por Naëmi Ada, o longa acompanha Tian, bailarina que foge da vida que levava em Marselha com o controlador Felix após um episódio de violência. Em busca de afeto, ela se infiltra no círculo de luto de um jovem que nunca conheceu, enquanto mantém escondido um segredo capaz de desmontar a nova existência que construiu.

Para Ada, a solidão que cerca Tian não pode ser dissociada da violência doméstica. “A solidão é uma experiência inerente tanto à violência doméstica quanto ao luto, pelo menos na nossa maneira ocidental europeia de viver a perda, na qual não temos necessariamente um luto coletivo tradicional”, explica a cineasta. A personagem encontra no grupo uma espécie de espelho: pessoas unidas por uma “solidão solidária”, enquanto ela própria já perdeu a capacidade de dividir sua verdade com os outros.

“Ela praticamente esqueceu como ser verdadeira, como ser genuína com outras pessoas, e assim criou também uma enorme solidão”, diz Naëmi. A performance passa, então, a funcionar como armadura. Tian é bailarina, portanto vive profissionalmente da representação, mas representar tornou-se também uma maneira de sobreviver às emoções, ao isolamento e às consequências de suas escolhas.

Essa construção encontrou uma parceira decisiva em Soma Pysall, atriz alemã de origem iraquiana escolhida para viver Tian. A preparação começou quase um ano antes das filmagens. “No primeiro teste, nós dançamos juntas. Eu precisava estar perto dela e perceber como seu corpo reagia para saber até onde poderíamos ir. Imediatamente percebi que poderíamos fazer qualquer coisa juntas”, conta a diretora.

Em vez de desenvolver a personagem por meio de longas discussões psicológicas, diretora e atriz procuraram descobrir onde cada trauma poderia alojar-se fisicamente. “Tentávamos entender onde cada emoção estava no corpo: no pescoço, nos ombros, se o medo estava entre as omoplatas, se ela se escondia, se segurava alguma coisa. Era uma abordagem muito física porque ela é uma personagem física”, explica Naëmi.

O resultado faz de “Body of Glass” um estudo sobre uma mulher para quem atuar deixou de ser apenas profissão e passou a ser defesa. A dança deixa de funcionar como adorno narrativo e torna-se uma chave para entender Tian: antes de explicar aquilo que sofreu, seu corpo já o revelou.

A 74ª edição do Festival de San Sebastián termina no dia 26 de setembro com a entrega de prêmios.