O suspense que veio do frio

Um mês depois de sua avassaladora passagem pelo Destival de Gramado, 'Antártida', superprodução dos Estúdios Globo em forma de longa-metragem, leva tensão, mistério e sororidade às telonas

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Amparada pelas colegas Rose (Marina Sena) e Marina (Leandra Leal), a cientista Inês (Marina Ruy Barbosa) sofre violência na Antártida

Avalanche... essa é a melhor forma de descrever o impacto de "Antártida" sobre o Palácio dos Festivais de Gramado, onde foi exibido, no dia 14 de agosto, na abertura da caçada ao troféu Kikito, em uma projeção que rachou opiniões num ame-o ou odeio-o perfeito para esquentar a estreia comercial de uma ave rara em nossa forma de fazer thriller. Neste fim de semana, ele se lança ao público de todo o país. Neve assegura um mar de (aparente) alvura à produção de metragem longa mais audaciosa dos Estúdios Globo.

Escrito pela cineasta Claudia Jouvin (de "Um Homem Só"), idealizadora do projeto dirigido por Bruno Safadi (de "Meu Nome É Dindi"), esse suspense se passa nos confins gelados da Terras, mas suas locações são cariocas da gema.

Sua narrativa foi construída em um espaço estimado em 1.500 m², localizado no Rio de Janeiro, que conta com câmeras autotracking de alta precisão, recursos de Inteligência Artificial e Realidade Aumentada e cerca de 300 m² de telas de LED, o que permitiu imersão na paisagem congelante - mesmo no calor carioca. A produção possibilitou a união do mundo real e do virtual de forma fluida, utilizando, além da tecnologia, imagens captadas na Patagônia através de câmeras 360 e cenários físicos.

Numa posição estratégica em seu estelar elenco vem Andrea Beltrão. Cabe a ela interpretar a subcomandante Elisabeth. Na Estação Comandante Diniz, na Antártida, a cientista especialista em Glaciologia Inês (Marina Ruy Barbosa) é vítima de um crime brutal. Isolados pelo frio extremo e sem possibilidade de resgate imediato, todos os homens da base se tornam suspeitos - inclusive as patentes mais altas, Comandante Barros (Antonio Calloni, brilhante em cena) e o Capitão Vicente (Lázaro Ramos). Elisabeth (Andrea) assume ali a difícil missão de investigar o ocorrido, enquanto as demais mulheres da estação - Inês, Marina (Leandra Leal) e Rose (Mariana Sena) - se sentem acuadas e precisam se unir para enfrentar o medo, o silêncio e a violência. Ainda em cena estão Renan Monteiro, Gero Camilo, João Vitor Silva, Adélio Lima, Marcos de Andrade e Henrique Barreira.

Fabio Rocha/Globo Filmes - Comandante Barros (Antonio Calloni) tem atuação visceral em 'Antártida

"Este é um filme sobre a união de quatro mulheres. Apesar de viverem debaixo do mesmo teto, não têm, a princípio, uma relação de amizade, mas, perante um crime que poderia ter acontecido com qualquer uma delas, unem-se para se protegerem e investigarem o que aconteceu com Inês", diz Claudia Jouvin, ao Correio, explicando que a premissa de "Antártida" partiu da notícia sobre o incêndio na estação brasileira em 2012, que a fez se perguntar como nosso povo lidou com o ocorrido.

Nessa amostragem de brasilidade, ela abre espaço para escancarar o câncer do sexismo: "Ainda vemos muitas mulheres com dificuldade em solidarizarem-se umas com as outras, mas vejo um grande movimento de mulheres que se sentem cada vez mais fortalecidas e protegidas quando estão juntas. Eu própria me sinto assim. O que acontece a uma mulher me toca diretamente", disse Jouvin, uma das responsáveis do que pode ser o próximo sucesso nacional de bilheteria, agora que "Minha Melhor Amiga" cruzou a marca de 2 milhões de tíquetes vendidos.

Betina Paulon, produtora-executiva do Núcleo de Filmes dos Estúdios Globo, define o longa dirigido por Safadi como um divisor de águas na emissora: "'Antártida' simboliza um marco dos Estúdios Globo na produção de longas-metragens. Mantendo o compromisso de contar boas histórias brasileiras para diferentes plataformas, o filme reúne ambição criativa, inovação tecnológica e, pela primeira vez, um lançamento cinematográfico em larga escala, nas salas de todo o país. É um feito que reforça a presença da Globo no cinema e demonstra a maturidade do Núcleo de Filmes em projetos de grande alcance".

Hoje um dos maiores distribuidores da América Latina, Marcio Fraccaroli, diretor geral da Paris Filmes, lança o longa sob os melhores augúrios. "Pra mim, 'Antártica' representa uma tentativa de procurar um gênero que não tenho na minha carteira de lançamentos. A Globo é uma grande parceira nessa busca por gêneros novos para o cinema. Quando falamos Globo, estamos falando do Estúdio Globo, de uma estrutura que também está disposta a correr riscos e fazer coisas não óbvias", explica Fraccaroli. "Hoje, não existe lugar seguro no mundo. O que funciona são histórias que param de pé e conectam o público".

Num momento climático de "Antártida", o quadro fotografado por Mauro Pinheiro Jr, com base na moldura estética de Safadi, é tomado pelo olhar perplexo da oficial Elisabeth, ao fitar uma base de pesquisa numa mirada similar àquela do "Anjo da História", de "Angelus Novus", quadro de Paul Klee (1879-1940). Esse poema plástico pintado pelo artista suíço-alemão traz o rosto assombrado de um querubim. Sua face sintetiza nos olhos amedrontados a sensação de desterro diante de um mundo profissionalizado no ofício do ódio. O voo desse ente celeste de Klee, com suas asas curtas, é uma expressão de tolerância esgotada: a capacidade que o Homem tem de brutalizar o próximo só cresce... é progressão aritmética de uma conta de exclusão que não fecha. O anjo de Klee não tem nada mais para dizer. A diferença entre ele e Elisabeth reside aí. Ela, que só fala com muita parcimônia, promete soltar o verbo numa hora crucial do longa como uma cartografia de sororidades em tempos (e em terrenos) de arame farpado. Nem adianta perguntar que hora é essa. Vá a um cinema perto de você conferir.

Uma excelência - a habilidade de gerar debate, em especial sobre a violência contra entes femininos - é indisfarçável no rol das virtudes desse exercício raro de nosso cinema pelos flancos do suspense investigativo (qual um bom "CSI"), numa genealogia onde se destaca o febril "Terra Selvagem" (2017), de Taylor Sheridan. A neve da superprodução nacional é algo que poucas vezes um filme nosso usou... e bem, fora "Soundtrack" (2017), do coletivo 300 ML (filmado no Polo de Jacarepaguá). Igualmente forte é a forma de Marina Ruy Barbosa jogar com o silêncio, apoiada na máscara trágica que seu resfolego diante da câmera produz. É uma atriz no gerúndio de sua potência, aqui testada sob vetores eletrizantes.