Pipa empinada na direção de Hollywood

Longa dirigido por Allan Deberton, o comovente 'Feito Pipa' foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para ser o representante oficial do país no sonho de uma vaga na disputa do Oscar

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Gugu (Yuri Gomes) vive uma relação difícil com seu pai vivido por Láraro Ramos em 'Feito Pipa'

E o Oscar de Melhor Filme Internacional de 2027 pode ir para "Feito Pipa", de Alan Deberton, uma vez que essa produção egressa do Ceará, rodada em Quixadá, foi escolhida como a nossa representante oficial do Brasil na corrida pela estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, nesta quarta-feira. No exterior, seu título será "Gugu's World". Sua carreira começou em fevereiro, na Berlinale, na Alemanha, onde recebeu o Urso de Cristal na mostra Generation.

Previsto para estrear comercialmente só em 5 de novembro, com distribuição da Paris Filmes, esse tocante longa-metragem de orientação queer superou outros cinco finalistas - "100 Dias", "A Fabulosa Máquina do Tempo", "A Natureza das Coisas Invisíveis", "Nosso Segredo" e "Vicentina Pede Desculpas" - na votação organizada pela Academia Brasileira de Cinema e passa agora a disputar espaço numa corrida que já reúne 60 países. Cada dia, uma nação divulga o filme que vai lhe representar.

"O Brasil precisa se conectar com ele mesmo", diz Deberton, ao Correio da Manhã, ostentando em sua estante o Kikito de Melhor Realização conquistado por "Feito Pipa", em Gramado, de onde saiu ainda com o troféu de Júri Popular.

No roteiro filmado por Derberton (antes conhecido por "Pacarrete"), o audiovisual se encanta com a saga do pequeno Gugu, vivido pelo baiano Yuri Gomes. Na trilha para adolescer, Gugu, moleque bom de bola como poucos, cresceu sem mãe, sob a cumplicidade da avó, Dilma (Teca Pereira, num quindim de atuação), que não tá nem aí para o fato de o guri se identificar com a cultura queer. Ama-o seja lá sob que bandeira ele estiver. Já o pai do guri, Batista (Lázaro Ramos), encasqueta com os modos do filho, quando precisa tomar conta dele, ao notar que a guardiã da criança está com sinais de demência. Com ela, Deberton cria um "Don Quixote" mirim, ciente de que seu Cavaleiro da Alegre Figura sonha com um Nordeste de tolerâncias.

Jamille Queiroz/Divulgação - Feito Pipa' tem desempenhos marcantes de Teca Pereira e do menino Yuri Gomes

"A razão de flanar pelo imaginário queer aqui era falar menos de rótulo e mais de possibilidade. É sobre permitir que uma criança exista com liberdade, sem ser corrigida o tempo inteiro pelo olhar do mundo. O filme não quer explicar o Gugu, mas acompanhar o jeito natural dele, sua imaginação e sensibilidade. O problema é de quem não o compreende. O que há de mais inclusivo nisso é justamente a recusa em simplificar os estereótipos", defende Deberton.

Agendada para 14 de março de 2027, no Dolby Theatre, em Los Angeles, a 99ª cerimônia do Oscar encontra o Brasil numa posição inédita de prestígio. "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, deu ao país sua primeira vitória como Melhor Filme Internacional em 2025 e, no ano seguinte, "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, chegou à cerimônia com quatro indicações, entre elas a da categoria internacional e a de Melhor Filme. A produção pernambucana acabou superada por "Valor Sentimental", do norueguês Joachim Trier. Ao todo, o Brasil já enviou oficialmente 55 filmes à Academia desde "A Morte Comanda o Cangaço", em 1960/61, e seis deles chegaram à relação dos cinco indicados.

A disputa internacional deste ano, porém, tem uma novidade capaz de alterar a geopolítica do Oscar. Além dos representantes escolhidos pelos países, a Academia passou a admitir diretamente filmes vencedores de prêmios qualificatórios em seis festivais: Berlim, Busan, Cannes, Sundance, Toronto e Veneza. Com isso, já estão habilitados, entre outros, o Urso de Ouro "Yellow Letters", do teuto-turco Ilker Çatak; "Shame and Money", do kosovar Visar Morina, premiado em Sundance; e a Palma de Ouro "Fjord", do romeno Cristian Mungiu.

Entre os pretendentes estrangeiros já anunciados, algumas das ameaças mais fortes vêm da Ásia e da Europa. A Coreia do Sul aposta em "Possible Love", de Lee Chang-dong; o Japão escolheu "All of a Sudden", de Ryusuke Hamaguchi; a Bélgica vai de "Coward", de Lukas Dhont; a Áustria escalou "Rose", de Markus Schleinzer; e a Romênia reforçou o peso de "Fjord" ao escolhê-lo também como seu representante oficial. A Irlanda entrou na corrida com "Aontas", de Damian McCann, enquanto a Austrália anunciou "First Light", de James J. Robinson, primeiro longa falado em tagalo apresentado pelo país ao Oscar.

A América Latina também começa a montar seu pelotão. O México escolheu "On the Road", de David Pablos; a República Dominicana, "Melodrama", de Andrés Farías; a Colômbia, "Rains Over Babel", de Gala del Sol; e o Chile colocou na disputa "El Deshielo", de Manuela Martelli. Outros pesos pesados do continente ainda definirão seus representantes.

A Academia vai reduzir esse planisfério a 15 semifinalistas em 15 de dezembro. Os cinco indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional serão conhecidos em 21 de janeiro de 2027, e a estatueta será entregue em Los Angeles em 14 de março.

Arte CM - Os filmes escolhidos neste século pela Academia Brasleira de Cinema para representar o país no Oscar