Reflexões sobre memória e família

Movido pelo afeto e saudade, primeiro longa de Fernanda Salgado, a animação 'Ana, en Passant' faz suas estreia nas telas do Festival de Brasília

Por Reynaldo Rodrigues

O filme combina animação 2D, rotoscopia, colagem e stop-motion

A memória, as relações familiares e os espaços deixados pelas ausências conduziram a narrativa de Ana, en passant, primeiro longa-metragem da diretora Fernanda Salgado, exibido na Competição do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme acompanhou Ana, uma jovem mulher negra franco-brasileira que deixou Paris e viajou para Belo Horizonte em busca de informações sobre o passado de sua família.

A história começou após a morte da avó brasileira de Ana, com quem ela vivia em Paris. Antes de morrer, a avó deixou para a neta uma caixa com uma carta, objetos, duas chaves e um endereço em Belo Horizonte. A partir dessas pistas, a personagem decidiu viajar ao Brasil para investigar uma parte de sua própria história que desconhecia.

Na capital mineira, Ana encontrou Alice, que morava no antigo apartamento de sua avó. O encontro levou as duas a percorrer uma espécie de cartografia afetiva da cidade, marcada por lembranças, conexões ancestrais e descobertas sobre identidade e pertencimento. O luto da protagonista também atravessou a narrativa, à medida que ela se aproximou de memórias que até então permaneciam distantes.

Divulgação - O projeto acompanha Fernanda Salgado há mais de uma década

Para construir essa trajetória, Fernanda Salgado combinou animação 2D, rotoscopia, colagem e stop-motion. As diferentes técnicas ajudaram a representar as camadas da memória e a criar uma narrativa que transitou entre experiências do presente, lembranças e ausências.

O projeto do longa acompanhou a trajetória profissional da diretora por mais de uma década. Em 2012, o roteiro de Ana, en passant foi selecionado para o Script Station, programa de desenvolvimento do Berlinale Talent Campus. O filme chegou às telas em 2026, com exibição na competição do Festival de Brasília.

Natural de Belo Horizonte, Fernanda Salgado atua como cineasta, pesquisadora, roteirista, produtora e diretora desde 2005. A diretora também é cofundadora do Apiário Estúdio Criativo e desenvolve pesquisa em cinema de animação. Atualmente, realiza doutorado na área em Montreal, no Canadá.

O elenco de Ana, en passant reuniu Jéssica Pierina, responsável pela voz da protagonista, além de Zezé Motta, Carlos Francisco, FLIP, Odilon Esteves e Felipe Oládélè. Ao tratar a memória como elemento ligado à construção da identidade, o filme colocou a busca pelas origens familiares no centro da jornada de Ana.