Ricardo Alves Jr: 'O cinema mineiro conquistou uma autonomia e uma força muito particulares'
Semanas depois de vencer Gramado com "Nosso Segredo", dirigido pela atriz Grace Passô e hoje em cartaz no Rio, no Cine Santa, o produtor e diretor mineiro Ricardo Alves Jr. prepara as malas para desbravar os Horizontes Latinos de San Sebastián. Seu novo longa-metragem como realizador, "A Professora de Francês", que tem Grace no elenco, vai disputar na seção anual do festival espanhol dedicada apenas a nuestros hermanos, representando o Brasil. De 1° a 11 de outubro, o filme vai disputar o troféu Redentor no Festival do Rio 2026.
Na trama produzida por Thiago Macêdo Correia, Justin Pechberty e Damien Megherbi, Grace é Graça, que sobrevive dando aulas particulares de francês em Belo Horizonte, onde mora com a namorada francesa. Após uma emergência de saúde do pai, retorna à casa onde cresceu, no subúrbio da cidade. Acolhida por vizinhos que lideram uma seita na comunidade, ela passa a ser envolvida por um fanatismo que tenta devolvê-la "ao seu lugar". Aos poucos, sua realidade assume os contornos de um inquietante pesadelo.
Além de Grace, o elenco de "A Professora de Francês" reúne a artista francesa Jehnny Beth (de "Anatomia de uma Queda") interpretando Clara, que namora a protagonista. Estão em cena ainda Elisa Lucinda, Bárbara Colen, Rômulo Braga, Eduardo Moreira, Italo Laureano, Rodger Rogério (no papel do pai de Graça) e Pedro Goifman, intérprete do jovem e enigmático Tomás, uma das figuras centrais da seita. O roteiro é de Germano Melo, baseado em argumento escrito por ele em parceria com o diretor.
Na conversa a seguir, Ricardo, mundialmente respeitado na direção por filmes como "Russa" (2018) e "Elon Não Acredita Na Morte" (2016), fala da "mineiridade" e da "universalidade" de sua investigação das veredas da tensão.
De que maneira - após a presença do filme de Grace Passô na Berlinale e no Bafici e com a ida de "A Professora de Francês" a San Sebastián - a sua carreira como produtor se expande este ano?
Ricardo Alves Jr - Acho que este ano representa a continuidade de um trabalho que vem sendo desenvolvido pela EntreFilmes ao longo dos últimos anos. Já estivemos duas vezes em Cannes, com "A Flor do Buriti" e "Chuva É Cantoria Na Aldeia dos Mortos" - filmes de Renee Nader e João Salaviza. Esta é a terceira vez que participamos da Berlinale, além de "Elon Não Acredita Na Morte" também sido exibido no Bafici. O ótimo percurso internacional do "Nosso Segredo" de Grace Passô e agora "A Professora de Francês", em San Sebastián, reforçam uma circulação internacional que vem sendo construída de forma gradual, pensando cada filme e a sua forma de produção e circulação.
Nesse espaço da sua produção onde entra Minas? De que forma seu cinema se articula com a produção mineira atual?
Minas Gerais são muitas. Meus filmes, em particular, têm a cidade de Belo Horizonte como cenário. É um espaço que conheço profundamente, com suas contradições, sua arquitetura, seus afetos e também suas formas particulares de violência e de conservadorismo. Existe algo muito mineiro na tensão entre o espaço doméstico, a intimidade, a religiosidade e também em determinadas estruturas conservadoras que atravessam a vida cotidiana. Trabalho isso em "A Professora de Francês". Também me sinto parte de um momento muito interessante da produção mineira. Temos hoje uma geração de realizadores, produtores, atores e técnicos que vem construindo uma cinematografia muito diversa e, ao mesmo tempo, muito conectada com o território. Tenho a sensação de que o cinema mineiro conquistou uma autonomia e uma força muito particulares, conseguindo dialogar com o cinema brasileiro e com o circuito internacional sem precisar abrir mão de suas especificidades. Meu cinema está profundamente ligado a essa cena. A própria parceria com Germano Melo em "A Professora de Francês", assim como o trabalho com Grace Passô e tantos outros artistas mineiros, faz parte dessa construção coletiva. Acho que existe uma potência muito grande quando conseguimos pensar o cinema a partir de Minas, não como uma produção periférica em relação ao eixo Rio São Paulo, mas como um lugar de criação com uma identidade própria, capaz de produzir outras formas de imaginar o Brasil.
De que forma "A Professora de Francês" se articula com a linhagem narrativa da tua obra, do "Elon Não Acredita Na Morte" em diante?
Existe uma continuidade entre "A Professora de Francês" e o "Elon Não Acredita na Morte". Em "Elon", eu trabalhava a partir do thriller psicológico, interessado principalmente na experiência subjetiva do personagem, na tensão, na paranoia e na maneira como a realidade vai se tornando cada vez mais instável. Em "A Professora de Francês", retomo ao thriller, mas procuro aprofundá-la e, ao mesmo tempo, adensar a construção do gênero. Esse processo também nasce da minha parceria com o roteirista Germano Melo, buscando justamente ampliar essa dimensão do gênero e encontrar uma forma narrativa que pudesse incorporar o terror à experiência muito concreta da nossa realidade. O suspense deixa de estar apenas ligado à experiência individual e passa a ser atravessado por uma dimensão social e coletiva. É nesse movimento que o filme se aproxima do terror social. Nos interessa pensar como o medo pode ser produzido e utilizado como instrumento de poder, e como determinadas estruturas sociais, como a intolerância, o patriarcado e o fundamentalismo religioso, podem produzir uma experiência de terror muito concreta. Se em "Elon" o medo nasce sobretudo de uma dimensão psicológica e subjetiva, em "A Professora de Francês", ele ganha uma dimensão coletiva. O terror se torna uma maneira de olhar para a realidade e revelar aquilo que já existe de forma assustadora no nosso cotidiano.
Quais sãos próximos projetos de vocês?
Não temos planos para próximos projetos, estamos agora cuidando da circulação do "Nosso Segredo", que está nos cinemas e ainda segue sua carreira internacional. "A Professora de Francês" estreia esse mês e ainda terá um longo percurso de distribuição.