Mais e melhores telas para a(s) África(s)

Na reta final da mostra Cinemas Africanos no CCBB, longas do Senegal, da Nigéria do Chade e do Quênia desbravam espaço nos streamings brasileiros

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

'Timpi Tampa' é a pedida desta quarta no encerramento da mostra Cinemas Africanos no CCBB

Há um continente inteiro... e dos mais plurais... a África... a ser conhecido pelos brasileiros não apenas em sua geografia, mas em sua tradução em imagens cinematográficas — e uma breve consulta aos streamings ao nosso alcance mede tanto o avanço quanto o tamanho da nossa lacuna em torno dos filmes feitos por lá. Enquanto a Mostra de Cinemas Africanos ocupa o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) até quarta (dia 16), com entrada gratuita, Netflix e MUBI oferecem caminhos muito desiguais para quem deseja conhecer cinematografias da África negra.

Quênia e Senegal conseguem furar o bloqueio digital; Angola e Moçambique continuam bem mais difíceis de encontrar nos grandes serviços. É nesse descompasso entre a efervescência dos festivais e a oferta doméstica que a nona edição da mostra ganha importância política.

A pedida desta quarta na mostra do CCBB, com sessão às 14h, é "Timpi Tampa", de Adama Bineta Sow. Nesse exercício autoral senegalês, o jovem Khalilou se disfarça de mulher para participar de um concurso de beleza que privilegia peles claras e, no papel de Leila, desafia os padrões impostos pela competição. Na sequência, às 16h rola o curta "A Cabra" ("Goat"), de Judy Kibinge, do Quênia, que evoca traumas seculares. É um tocante estudo sobre reparação histórica envolvendo disputas territoriais, construído com ecos fabulares. Quando o noivo da jovem Suki leva sua amada a uma quinta isolada, a fim de comprar uma cabra, ela quer sair dali imediatamente, sem entender a razão do desconforto. No entanto, depressa se apercebe de que a antiga árvore Mugumo está a exigir que ela salde uma dívida da qual nem sequer sabia que tinha.

Divulgação - 'Nairobi Half Life' pôs o Quênia ao alcance do streaming

Criada há nove anos, a Mostra Africana tornou-se uma plataforma continuada de difusão do audiovisual contemporâneo africano no Brasil. Em sua trajetória, passou por sete cidades, realizou 22 edições, exibiu mais de 400 filmes, recebeu mais de 65 convidados e promoveu 45 atividades de formação, alcançando um público superior a 350 mil pessoas. Nesta passagem pelo Rio, uma das apostas está justamente na possibilidade de desmontar a velha associação entre cinema africano e um registro exclusivamente social ou realista. Uma de suas iguarias, "O Pescador" ("The Fisherman"), de Zoey Martinson, vindo de Gana, lotou salas na Mostra de São Paulo, em 2025, e deve agora mobilizar cariocas. Eis uma aula de realismo mágico que rendeu à sua diretora uma láurea da Unesco no Festival de Veneza. Seu protagonista, um pescador ganês, estava afastado do ofício, mas embarca numa jornada inusitada, ao lado de um peixe falante (e sarcástico!), em busca do sonho de ter um barco. Na jornada, ele aprende a se adaptar ao mundo moderno.

Divulgação - 'Dahomey', o Urso de Ouro de Berlim, pode ser visto no Mubi

No terreno da streaminguesfera, na Netflix brasileira, a busca encontra uma seção específica dedicada a filmes e séries africanos, mas boa parte da vitrine é dominada pela musculatura industrial da África do Sul e da Nigéria. O Quênia consegue espaço com títulos como "Nairobi Half Life", drama de David "Tosh" Gitonga sobre um jovem que deixa o interior para tentar a vida de ator na capital, além de "Chaguo" e "The Dreams of Elibidi". O Senegal tem um representante de enorme peso autoral: "Atlantique", de Mati Diop, Grande Prêmio do Júri em Cannes em 2019. Nas buscas realizadas no catálogo brasileiro, não foi possível confirmar oferta atual equivalente de longas de produção angolana ou moçambicana.

A MUBI abre mais o mapa. "Rafiki", de Wanuri Kahiu, produção do Quênia com a África do Sul e primeiro filme queniano apresentado em Cannes, está disponível no serviço. Do Senegal vêm peças fundamentais como "Touki Bouki - A Viagem da Hiena", de Djibril Diop Mambéty, e "Dahomey", de Mati Diop, vencedor do Urso de Ouro da Berlinale. Angola aparece com "Monangambééé", curta de Sarah Maldoror sobre a violência colonial portuguesa. Há uma novidade fora das duas gigantes que reforça a possibilidade de se construir uma cinemateca africana em casa. A FILMICCA dedica as sextas de setembro ao senegalês Ousmane Sembène (1923-2007), chamado de "pai do cinema africano": "Emitaï" entrou no catálogo no dia 4; "Xala" chegou na sexta (11); "Ceddo", no dia 18; e "Moolaadé", no dia 25. O percurso vai da resistência ao colonialismo francês à denúncia das contradições das elites pós-independência e da mutilação genital feminina.

Divulgação - Mame Bineta Sane estrela 'Atlantique', hoje na Netflix

Esse movimento online se articula com um tempo de considerável fricção para a África em eventos audiovisuais. Um de seus (muitos) expoentes é Mahamat-Saleh Haroun, que já fez o Chade brilhar em Cannes ao conquistar o Prêmio do Júri de 2010 com "Un Homme qui Crie" e voltou à competição francesa com "Grigris", em 2013, e "Lingui", em 2021. Em fevereiro deste ano, o realizador levou "Soumsoum, La Nuit des Astres" à competição da 76ª Berlinale e saiu de lá com o Prêmio da Crítica, votado pela FIPRESCI, a Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica.

No CCBB na reta final da mostra africana, essa imaginação ganha muitas nacionalidades. A programação passa por Senegal, Quênia, Nigéria, Burkina Faso, Sudão, Chade, Gana, Benin, Ruanda e República Democrática do Congo, entre outros territórios. Um dos achados de sua grade é "Crocodilo", parceria entre Nigéria e Nova Zelândia, parte da experiência do coletivo The Critics, jovens de Kaduna que fizeram do quintal de casa um estúdio de efeitos e aventuras futuristas. Voltando a grade desta quarta no CCBB, no encerramento da programação, tem "Independência Hoje", de Abdou Lahat Fall, feito numa dobradinha do Senegal com Benin, às 18h. sua narrativa vai a Dakar, onde quatro militantes de um movimento revolucionário atravessam os anos finais de um governo opressor, entre mobilizações políticas.

Em relação ao Oscar, nota-se outra medida de desigualdade. A corrida pelo prêmio de Melhor Filme Internacional de 2027 ainda está longe de fechada: o prazo para os países enviarem seus representantes termina em 30 de setembro. Até o fechamento desta edição, os levantamentos disponíveis não registravam ainda um candidato oficialmente anunciado da África subsaariana. Nigéria e África do Sul abriram seus processos de escolha, enquanto países como Senegal e Uganda permaneciam sem filme confirmado nas listas em atualização. Do continente africano, Marrocos já anunciou "La Más Dulce", de Laïla Marrakchi. A shortlist de 15 concorrentes será conhecida em 15 de dezembro; as cinco indicações, em 21 de janeiro; e a cerimônia acontece em 14 de março de 2027.