'Mulher Desconhecida'... e premiada

Única mulher na disputa pelo Leão de Ouro, a realizadora dinamarquesa May el-Toukhy leva o prêmio numa celebração à resiliência feminina

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Mathilde Arcel conquista a Copa Volpi de Melhor Atriz por 'Woman Unknown'

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Até sábado, quando "Woman Unknown" ("Kvinde Ukendt"), da dinamarquesa de origem egípcia May el-Toukhy, foi anunciado como o ganhador do Leão de Ouro de Veneza, o placar dos grandes festivais da Europa registrava uma onipresença masculina. Devon Delmar e Jason Jacobs venceram Roterdã com "Variations on a Theme", pela África do Sul. A Berlinale fez do turco-alemão Ilker Çatak seu vencedor, com "Yellow Letters". Cannes foi do romeno Cristian Mungiu e seu devastador "Fjord". E em agosto, o Leopardo de Ouro de Locarno rugiu para Florin Serban, também da Romênia, e seu "You Don't Belong Here". Mais do que bagunçar um cenário cheio de testosterona, a consagração de May despontou como um gesto político... e bem afinado às lutas feministas.

O seu filme era o único da competição veneziana em 2026 a ter uma mulher na realização. A cineasta, conhecida por "Rainha de Copas" (2019), celebrou ainda uma láurea de peso dada à sua protagonista, Mathilde Arcel: a estatueta de Melhor Atriz.

No passado, quem ganhava o Leão não podia receber mais nenhum mimo do júri oficial. Não por acaso, quando Darren Aronofsky ganhou o cobiçado felino por "The Wrestler - O Lutador", em 2008, o presidente do júri, Wim Wenders, determinou que o prêmio deveria ser repartido entre o cineasta vencedor e seu astro-rei, Mickey Rourke, pois foi o ator quem levou o longa à consagração. Este ano, o cenário na terra das gôndolas foi outro. Os tempos mudaram. Quem guiou a mudança foi a atriz e diretora Maggie Gyllenhaal. Ela anunciou a premiação, que definiu em sintonia com a esquadra de juradas e jurados da qual era a comandante. Ao lado dela, nas deliberações, estavam quatro cineastas (a tunisiana Kaouther Ben Hania, o francês Xavier Giannoli, a afegã Shahrbanoo Sadat e o diretor de Hong Kong Johnnie To), o compositor britânico Daniel Blumberg e o pesquisador italiano Francesco Casetti.

A aposta dessa turma, "Mulher Desconhecida" ("Woman Unknown" em tradução livre), é uma coprodução entre a Dinamarca, a Suécia e a Letônia. O enredo filmado por May se passa em solo dinamarquês imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, mais precisamente no clima explosivo da libertação de maio de 1945. Marie (Mathilde Arcel) é uma jovem babá e empregada doméstica prestes a se casar com Christian (Carsten Bjørnlund), o rico e mais velho viúvo para quem trabalha. O casamento promete não apenas segurança, mas uma brutal mudança de classe social: de criada, Marie poderá transformar-se na senhora da casa. Só que existe um passado que ela precisa esconder. Durante a ocupação nazista da Dinamarca, Marie manteve uma relação íntima com um soldado alemão. Quando a guerra termina, o entusiasmo popular com a libertação rapidamente assume também a forma de vingança.

"O que está em questão aqui é o corpo feminino", disse a realizadora, com o Leão em punho.

Antes de May fazer História, Maggie outorgou o Grande Prêmio do Júri ao longa que era tratado como "o" favorito — e ainda levou o Prêmio da Crítica FIPRESCI: "Amor Possível" ("Possible Love"). Programado para estrear na Netflix no dia 6 de novembro, o exercício narrativo mais recente do artesão autoral sul-coreano Lee Chang-dong acompanha as relações entre dois casais que seguem caminhos sociais distintos e precisam lidar com desejos até então ocultos. Mi-ok (Jeon Do-yeon) leva uma vida modesta ao lado do marido desempregado, Ho-seok (Sul Kyung-gu), e do filho pequeno, Cheol. Um funeral, porém, coloca a família no caminho de Ye-ji (Cho Yeo-jeong), documentarista dedicada a registrar a realidade de trabalhadores demitidos, e de seu marido, Sang-woo (Zo In-sung), cuja vida abastada contrasta radicalmente com a deles. Quando Mi-ok aceita participar das filmagens do documentário, aproxima-se de Ye-ji e começa também a sentir uma desconfortável atração pelo indecifrável Sang-woo. Os mundos dos dois casais começam a se misturar, expondo fissuras afetivas.

Ganhadores do Oscar por "Sem Chão" (2024), Rachel Szor e Yuval Abraham uniram forças novamente para escancarar as dores da Palestina em "Naza", que assegurou à dupla o Prêmio Especial do Júri de Veneza, uma espécie de medalha de bronze. Filmado à noite, dos telhados de Tel Aviv, este documentário investigativo examina as vítimas civis das operações militares de Israel em Gaza e os sistemas por trás dos assassinatos seletivos de palestinos.

Depois de premiar a atuação de Mathilde Arcel, Maggie & Cia. dedicaram todo o simbolismo de excelência da Copa Volpi de Melhor Ator a coroar o veterano John Malkovich. Ele estava no Canadá na hora em que seu nome foi ovacionado no palco de Veneza. Malkovich venceu por "Cavalo Selvagem Nove", no papel de um veterano agente da CIA enviado ao Chile de Salvador Allende, em 1973. Fala-se já em Oscar para ele.

O cinema russo não foi esquecido por Maggie. Ilya Khrzhanovsky, um cineasta dedicado a inventariar as cicatrizes da URSS, voltou à ribalta com "DAU" e saiu coroado com o troféu de Melhor Realização. Dedicou a conquista à coragem e à resiliência do povo da Ucrânia. A ação de seu filme, apelidado de "O 'Oppenheimer da Rússia' se desenrola, em grande parte, dentro de um instituto soviético de pesquisa fechado, onde a hierarquia científica, os privilégios e a vigilância constante determinam a existência cotidiana. A narrativa vai de 1928 a 1968.

No terreno do Melhor Roteiro, ganhou "Un Bon Petit Soldat". Nele, o diretor Stéphane Brizé, coautor do script, põe a plateia nos calcanhares de Carla Moretti, uma executiva de 43 anos, recém-recrutada como gerente de RH de uma seguradora, encarregada de reconstruir sua marca em um ambiente corporativo onde a vulnerabilidade não é um ativo.

Na seção paralela Horizontes, venceu "Un Détour Par Diane", de Ann Sirot e Raphaël Balboni, um drama belga sobre a relação de uma jovem e sua mãe em meio à memória de um estupro. Na Semana da Crítica veneziana, a Settimana Internazionale della Critica, houve uma láurea simbólica para o Brasil: o Queer Lion, um troféu que combate a homofobia e a transfobia, foi confiado ao sinestésico longa gaúcho "London", de Victor Di Marco e Márcio Picoli.

Identificado pela sociedade como PCD, por ter problemas com a produção de dopamina, o jovem London (vivido por Di Marco) passa por uma fase de tormenta. Um exame médico lhe oferece a possibilidade de descobrir a origem e o destino de sua deficiência.

Paralelamente aos feitos de Veneza, desde a quinta-feira passada, as atenções do planisfério cinéfilo estão de butuca ligada no TIFF, o Festival de Toronto, onde há Brasil, representado por "Vicentina Pede Desculpas", do mineiro Gabriel Martins, o Gabito, conhecido por "Marte Um" (2022). O longa de Minas se habilita, na sequência de sua passagem pelo Canadá, a disputar os prêmios do Festival de San Sebastián, no norte da Espanha, que abre suas atividades nesta sexta-feira. Alice Braga está no júri oficial da disputa pela Concha de Ouro.