Leão de Ouro vai para 'Woman Unknown', da diretora May el-Toukhy
Único competidor da disputa oficial do Festival de Veneza de 2026 a ter uma mulher na direção, “Woman Unknown” (“Kvinde Ukendt”), de May el-Toukhy, cineasta dinamarquesa de descendência egípcia, venceu o Leão de Ouro na tarde deste sábado. O longa-metragem já havia sido anunciado quando foram entregues os troféus de atuação, chamados Copa Volpi, pois o de melhor atuação feminina ficou com Mathilde Arcel, a protagonista da delicada recriação histórica de May. Ambientado no período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial, o filme acompanha uma jovem babá que se prepara para se casar com seu rico patrão enquanto guarda um segredo.
O colegiado votante responsável pelas escolhas, presidido pela atriz e diretora americana Maggie Gyllenhaal, contou com o compositor britânico Daniel Blumberg, o pesquisador italiano Francesco Casetti e mais quatro cineastas: a tunisiana Kaouther Ben Hania, o francês Xavier Giannoli, a afegã Shahrbanoo Sadat e o diretor de Hong Kong Johnnie To. Essa turma confiou o segundo troféu mais badalado do certame, o Grande Prêmio do Júri, a “Amor Possível” (“Possible Love”), de Lee Chang-dong, que também recebeu o Prêmio da Crítica.
Programado para estrear na Netflix no dia 6 de novembro, “Amor Possível” acompanha as relações entre dois casais que seguem caminhos sociais distintos e precisam lidar com desejos até então ocultos. Mi-ok (Jeon Do-yeon) leva uma vida modesta ao lado do marido desempregado, Ho-seok (Sul Kyung-gu), e do filho pequeno, Cheol. Um funeral, porém, coloca a família no caminho de Ye-ji (Cho Yeo-jeong), documentarista dedicada a registrar a realidade de trabalhadores demitidos, e de seu marido, Sang-woo (Zo In-sung), cuja vida abastada contrasta radicalmente com a deles. Quando Mi-ok aceita participar das filmagens do documentário, aproxima-se de Ye-ji e começa também a sentir uma desconfortável atração pelo indecifrável Sang-woo. À medida que os mundos dos dois casais se misturam, fissuras começam a aparecer no cotidiano de ambos, expondo diferença financeira, frustrações conjugais e desejos que permaneciam reprimidos.
Se o Grande Prêmio do Júri é uma espécie de medalha de prata, o bronze de Veneza se chama só Prêmio do Júri. Maggie confiou-o a “Naza”, de Rachel Szor e Yuval Abraham. Ganhadores do Oscar por “Sem Chão” (2024), Rachel Szor e Yuval Abraham uniram forças novamente para escancarar as dores da Palestina. Filmado à noite dos telhados de Tel Aviv, este documentário investigativo examina as vítimas civis das operações militares de Israel em Gaza.
Ovacionado no palco, mesmo sem estar presente, envolvido em um trabalho no Canadá, John Malkovich venceu a Copa Volpi de Melhor Ator por “Cavalo Selvagem Nove” (“Wild Horse Nine”), no papel de um veterano agente da CIA, enviado ao Chile de Salvador Allende, em 1973. Seu nome vem sendo tratado como aposta para o Oscar de 2027.
Na escolha do Melhor Realizador, o nome de Ilya Khrzhanovsky foi cercado de aplausos ao ser anunciado, dado o barulho em torno de seu polêmico “DAU”. O longa foi chamado de “o ‘Oppenheimer’ eslavo”. A ação desenrola-se, em grande parte, dentro de um instituto soviético de pesquisa fechado, onde a hierarquia científica, os privilégios e a vigilância constante determinam a existência cotidiana. À medida que seu espaço para agir com independência se estreita, Dau busca uma válvula de escape numa sucessão de casos extraconjugais, comportamento que, aos poucos, lhe custa seus vínculos afetivos e a própria noção de identidade. A narrativa percorre quatro décadas, de 1928 a 1968.
Na praia da dramaturgia, o troféu de Melhor Roteiro (láurea que a própria Maggie ganhou, há cinco anos, ao concorrer com “A Filha Pedida”) foi concedida, no sábado, a “Un Bon Petit Soldat”. No filme, seu diretor Stéphane Brizé (coautor do roteiro) nos põe nos calcanhares de Carla Moretti, uma executiva de alto desempenho de 43 anos, recém-recrutada como gerente de RH de uma grande seguradora, é encarregada de reconstruir sua marca num ambiente corporativo onde a vulnerabilidade não é um ativo.
Na seção paralela Horizontes, venceu “Un Détour Par Diane”, de Ann Sirot e Raphaël Balboni, um drama belga sobre a relação de uma jovem e sua mãe em meio à memória de um estupro. Na Semana da Crítica veneziana, a Settimana Internazionale della Critica, houve uma láurea simbólica para o Brasil: o Queer Lion, um troféu que combate a homofobia e a transfobia, foi confiado ao sinestésico longa gaúcho “London”, de Victor Di Marco e Márcio Picoli.
Identificado (pela sociedade) como PCD, por ter problemas com a produção de dopamina, o jovem London (vivido por DiMarco) passa por uma fase de tormenta quando um exame médico lhe oferece a possibilidade de descobrir a origem e o possível destino de sua deficiência. Muitos dilemas eclodem daí, em especial a percepção de que um diagnóstico seja capaz de determinar o porvir de sua vida.
Paralelamente aos feitos de Veneza, na quinta-feira passada, as atenções do planisfério cinéfilo estão de butuca ligada no TIFF, o Festival de Toronto, onde há Brasil, representado por “Vicentina Pede Desculpas”, do mineiro Gabriel Martins, o Gabito, conhecido por “Marte Um” (2022). O longa de Minas se habilita, na sequência de sua passagem pelo Canadá, a disputar os prêmios do Festival de San Sebastián, no norte da Espanha, que abre suas atividades nesta sexta. Alice Braga está no júri oficial, pela Concha de Ouro.
Premiação de Veneza em 2026
Leão de Ouro: “Woman Unknown” (“Kvinde Ukendt”), de May el-Toukhy
Grande Prêmio do Júri: “Amor Possível”, de Lee Chang-dong
Prêmio Especial do Júri: “Naza”, de Rachel Szor e Yuval Abraham
Prêmio de Direção: Ilya Khrzhanovsky, por “DAU”
Copa Volpi de Melhor Atriz: Mathilde Arcel, por “Woman Unknown”
Copa Volpi de Melhor Ator: John Malkovich, por “Cavalo Selvagem Nove”
Prêmio Marcello Mastroianni de Intérprete Revelação: Malou Khebizi, por “15/18”
Melhor Roteiro: Coralie Amedeo, Stéphane Brizé e Olivier Gorce, por “Un Bon Petit Soldat”
Prêmio da Crítica Fipresci: “Amor Possível”, de Lee Chang-dong
Prêmio mostra Horizontes: “Un Détour Par Diane”, de Ann Sirot e Raphaël Balboni
Prêmio Luigi DeLaurentiis de Melhor Filme de Estreia: “La Maison du Vent”, de Bernard Auguste Kouemo Yanghu