Convicções queo tempo muda
Documentário 'Tudo é Tempo', de Marcos Guttman, traça mosaico da vida política brasileira nos últimos 20 anos
O documentário "Tudo é Tempo", dirigido, roteirizado e produzido por Marcos Guttmann, estreou na Mostra Competitiva do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O diretor participou da sessão ao lado do montador Arthur Frazão, responsável pela edição do longa. O filme foi rodado ao longo de 20 anos, entre 2002 e 2022, período que reúne a primeira e a terceira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República.
A produção acompanha quatro brasileiros que têm em comum o fato de votarem na mesma seção eleitoral, no Rio de Janeiro: Carlos Eduardo Ibrahim, Fernando Pereira, Heber Cunha e Cristiane Magalhães Rosa. Ao longo de duas décadas, o diretor registra mudanças nas vidas dos personagens e observa como o passar dos anos interfere em escolhas, convicções e relações com o mundo.
O filme também coloca Guttmann como personagem. O diretor aparece como narrador e, em alguns momentos, diante da câmera, acompanhando a trajetória dos quatro participantes e as transformações do país. A proposta inicial era registrar o período político iniciado em 2002, quando a eleição de Lula representava, para o cineasta, a expectativa de mudanças no Brasil. Com o desenvolvimento do projeto, a política passou a ocupar o papel de pano de fundo para uma abordagem centrada nas experiências pessoais.
Segundo Guttmann, a revisão do material em 2025 fez com que ele identificasse no amadurecimento e nas contradições dos personagens o principal eixo da obra. O documentário passou, então, a tratar o tempo como elemento narrativo e a observar como ele reorganiza prioridades e modifica convicções. Após duas décadas de acompanhamento, o cineasta também passou a integrar esse processo de transformação registrado pelo filme.
Carlos Eduardo Ibrahim é filho de José Ibrahim, fundador do PT que se afastou politicamente de Lula. Seguindo a posição política do pai, Carlos votou no PSDB até 2014. Atualmente, trabalha como corretor de imóveis, é divorciado e pai de um filho com autismo.
A trajetória dos quatro personagens é apresentada no filme tendo as três eleições de Lula como referência temporal. O documentário registra as mudanças individuais sem deixar de acompanhar o contexto político brasileiro. Para Guttmann, o resultado é um registro de como duas décadas podem alterar a maneira como as pessoas interpretam a própria história e o ambiente em que vivem.
Produzido pela Solar Filmes, "Tudo é Tempo" recebeu investimentos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e da Agência Nacional do Cinema (ANCINE), administrados pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), com apoio da EBC. O longa tem 85 minutos de duração.
Guttmann é diretor, roteirista e produtor carioca e tem 30 anos de carreira. Três de seus curtas-metragens foram exibidos no Festival de Brasília. Em 1992, "Lapso" recebeu os prêmios de Melhor Diretor e Especial do Júri. Seus trabalhos também foram exibidos em festivais como Rotterdam, Locarno, Montreal e Clermont-Ferrand. O cineasta dirigiu "Maresia", premiado como Melhor Direção no Cine Ceará. Em 2026, lança "Tudo é Tempo" e finaliza "Viver de Vento", sobre Lars Grael, com previsão de lançamento para 2027.