'O cinema conserva a memória da História e transmite a recordação para outras gerações'
Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Premiada nos palcos, onde aposta em espetáculos de viço estético como "Finlândia" e "A Noite Mais Fria Do Ano", Paula Cohen cruzou o Atlântico, até a terra das gôndolas, para acompanhar a passagem pelo 83° Festival de Veneza do filme que tem tudo para render o Leão de Ouro pro Brasil (numa interseção com a Itália): "Retorno a Buenos Aires". Marco Bechis, diretor chileno descendente de italianos, pilota essa narrativa, parcialmente rodada em Porto Alegre, feita em regime de coprodução internacional, com foco nos traumas da ditadura de nuestros hermanos.
Sua primeira projeção no Lido, a sede do evento, será nesta sexta. Paulista, mas filha de mãe e pai uruguaios, a atriz, que cresceu ouvindo (e falando) Espanhol em casa, apropria-se desse idioma para viver uma das personagens centrais da trama de Bechis: a juíza Desideria Losada. É ela a responsável por conduzir um julgamento que obriga sobreviventes da repressão argentina a encarar novamente seus algozes, agora noutra posição. A língua, em si, já serviria para Paula forjar uma ponte afetiva com o universo retratado pelo longa. Mas, para além dele, o DNA sul-americano em suas veias tem calor forte o suficiente pra ferver o caldo histórico de indignação em relação aos crimes dos governos de farda. "O cinema conserva a memória da história e transmite o vivido para outras gerações, num alerta", diz essa bamba da atuação.
Aplaudida nas telas por sua forma meticulosa de atuar, comprovada em "O Silêncio do Céu" (2016), "Uma Espécie de Família" (2017) e "Serial Kelly" (2022), Paula vai integrar o elenco da esperada "Habeas Corpus", série da Netflix prevista pro próximo dia 23. Antes, sábado agora, vai conferir como Bechis, antes conhecido por "Garagem Olimpo" (1999) e "Terra Vermelha" (2008), passa pelo crivo do júri de Veneza, carregando o Brasil consigo.
Sua trajetória profissional ocupa espaço considerável no teatro, mas o cinema parece ganhar cada vez mais espaço nas suas escolhas. Como ele entra na arquitetura da sua carreira?
Paula Cohen - O primeiro filme que fiz na vida foi em 1998, quando tinha acabado de sair da Escola de Arte Dramática. E é curioso porque agora estou estreando uma série do Luiz Villaça, que foi justamente com quem fiz aquele primeiro filme. Cinema sempre foi um desejo. Sou uma atriz muito formada pelos filmes que vi. No teatro, sou mais proponente, mais dona das minhas escolhas: compro o texto que quero, produzo aquilo que faço. No cinema é mais difícil produzir, então as coisas vão chegando. E fico cada vez mais feliz de poder contar histórias brasileiras e latino-americanas. Agora estou aqui em Veneza numa coprodução que junta Itália, Argentina e Brasil. É um momento muito rico, com o cinema brasileiro voando.
"Retorno a Buenos Aires" reúne um diretor chileno de ascendência italiana (Bechis), uma atriz brasileira filha de uruguaios (você) interpretando uma argentina e uma coprodução que atravessa continentes. Mas Chile, Uruguai, Argentina e Brasil compartilham também a cicatriz das ditaduras. O que o longa acrescenta à discussão dessa memória?
Fico muito feliz em ver que, ultimamente, o Brasil está falando mais sobre esse período que tem muito a ser resolvido. Lembro que, na dramaturgia, no teatro, eu via Argentina e Uruguai trazendo esse tema muito mais do que nós. Eu sempre dizia: "A gente tem que falar mais sobre esse trauma". O cinema está fazendo isso. E o cinema tem uma coisa maravilhosa: ele conserva a memória da História e transmite essa recordação para outras gerações, faz com que as pessoas vejam os fatos numa outra ótica e num outro tempo. A memória dói. Voltar a falar diante dos seus torturadores é terrível. Nesse sentido, estou contando uma história argentina, mas também uma história brasileira. Essa cicatriz é nossa.
O que Marco Bechis te oferece de mais profundo nesse espaço da memória?
Este filme fala especialmente das consequências para um sobrevivente. Não apenas dos horrores ocorridos durante a ditadura, mas daquilo que uma pessoa leva consigo para o resto da vida: culpas, medos, traumas. Marco viveu tudo isso. Foi sequestrado, torturado. Estou absolutamente feliz com esse encontro porque ele é um homem de cinema impressionante e traz uma vivência muito forte. Para fazer o filme, mergulhei na ditadura argentina, que tem particularidades diferentes da brasileira, e mergulhei também na história dele. Li seu livro, "A Solidão do Subversivo", no qual conta a própria experiência.
Você já trabalhou em espanhol em "O Silêncio do Céu" e "Uma Espécie de Família". Agora interpreta uma argentina em "Retorno a Buenos Aires". Como se dá a intimidade com o idioma e com a cultura do Rio da Prata, a partir das suas vivências familiares?
Minha mãe veio grávida do Uruguai para o Brasil. Ela e meu pai são imigrantes, então, dentro de casa, minha primeira língua foi o espanhol. Ele faz parte da minha formação profunda, e não estou falando apenas do idioma, mas da cultura rioplatense. Incluo aí Uruguai e Argentina, porque também tenho família lá e transito muito por esses lugares. Tenho essa fluidez e me sinto preparada não só linguisticamente, mas pela estrutura cultural.
Mesmo quando interpreta personagens definidas por uma função — uma delegada, uma juíza — você procura retirá-las desse rótulo profissional. Quem é Desideria para você?
Minha personagem é justamente a mulher que está julgando aquilo. É uma personagem que, nesse contexto, nós nunca tivemos no Brasil, porque esse tribunal não existiu aqui. É uma mulher que sabe da responsabilidade histórica e humana que está vivendo. Está no eixo da lei, mas carregada de humanidade. Gosto de imaginar e construir as complexidades das personagens, criar uma gênese para lidar com elas como um ser humano. Um ser humano que é contraditório e cheio de riqueza existencial como todos nós somos. O filme de Bechis se passa em 2008. Fiquei imaginando que, na ditadura, Desideria teria sido uma estudante. Isso não está no filme, é uma construção minha, mas, por essa questão temporal, quantas pessoas ela pode ter perdido? Quantos amigos? "Retorno a Buenos Aires" é uma história de uma pátria em busca de justiça, mas também pode ser uma história profundamente pessoal.
E onde está a força dessa juíza diante dos sobreviventes?
Ela é uma mulher construída muito a partir da escuta. Sabe que, apesar da dor, precisa da verdade. Precisa que os sobreviventes contem a verdade.
Você volta ao teatro estre ano?
Quero muito ficar mais perto do Rio com minhas peças. Fiz "Finlândia" aí, mas quero voltar.