Aconteceu (ou foi forjado), virou manchete

Num ano repleto de filmes sobre o papel do jornalismo, Veneza tromba com o thriller francês 'La Moula', que investiga o tráfico de drogas na ótica de um repórter, entre fatos e invenção

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Ventos venezianos sopram em favor da Coreia do Sul, dado o favoritismo em torno de "Possible Love", novo trabalho do artesão autoral Lee Chang-dong, na corrida pelo Leão de Ouro de 2026, a ser entregue neste sábado. Premiado em Cannes, no passado, com "Poesia" (2010) e "Burning" (2018), o cineasta trata agora de dois casais: de um lado, está um trabalhador recém-demitido e sua esposa; do outro, há uma documentarista e seu marido. Os caminhos deles se cruzam para a realização de um documentário, enquanto enfrentam suas diferentes realidades e desejos ocultos.

Classifica-se essa narrativa de Chang-dong como um ensaio de tintas existenciais sobre o afeto, mas a tônica que se espalhou por múltiplos pontos do evento, a começar pelo filme de abertura, "Ink", de Danny Boyle, foi o jornalismo e sua pertinência. Há quem aposte na Copa Volpi (a láurea de Melhor Ator) para Robert Pattinson em "Primetime", a julgar pela colossal atuação do atual intérprete do Batman no papel de um âncora de TV que caça predadores sexuais. No entanto, num perímetro distante de especulações acerca do que o júri presidido pela atriz e diretora Maggie Gyllenhaal poderá escolher premiar, reside uma pérola de DNA francês sobre bastidores (e malversação) da notícia: "La Moula" ("Moolah"). Taí um thriller danado de bom, que embaralha crime real e ficção. Virou "O" achado do Lido, o centro nervoso da maratona italiana, para além da competição oficial.

Dirigida por Jérôme Pierrat, essa joia briga pelas láureas da seção paralela Orizzonti. Há um momento em "Moolah" ("La Moula") em que procurar a fronteira entre documentário e ficção deixa de ser uma brincadeira cinéfila e se transforma na própria razão de ser do filme. Jornalista investigativo, escritor e documentarista especializado em crime organizado há mais de 25 anos, Pierrat dirigiu cerca de 20 documentários e publicou 25 livros de investigação antes de migrar para a ficção. O movimento nasceu justamente de uma insuficiência: ele estima que, em seus trabalhos documentais de imersão, conseguia mostrar apenas uma pequena parcela daquilo que efetivamente presenciava. O registro de gênero apareceu como possibilidade de atravessar essa barreira.

O resultado é um filme de 82 minutos que parece brincar com o atual fetiche pelo true crime ao mesmo tempo que o alimenta. "A frase que poderia resumir o filme seria: tudo é verdade, menos a nossa história. Eu não queria um gângster daqueles saídos dos filmes, nem um policial saído de um filme ou um jornalista que parecesse inventado. Queria que tudo tivesse alguma coisa de real, de verdadeiro, exceto a história que estava contando", diz Pierrat ao Correio da Manhã, por Zoom.

Num trabalho de atuação irretocável, esse diretor interpreta Jérôme, um repórter de crime organizado cuja carreira estagnou. Charlie, velho amigo e veterano do tráfico de cocaína, oferece-lhe uma oportunidade capaz de recolocá-lo no mapa: acompanhar por dentro uma quadrilha que espera a chegada, pelos arredores de Marselha, de um contêiner carregado de cocaína colombiana. Instalados numa modesta casa suburbana, os criminosos aceitam a câmera do jornalista enquanto aguardam aquele que deveria ser o último grande golpe de suas vidas. A paranoia começa quando um deles acredita ter reconhecido na cidade um agente da divisão de Narcóticos da polícia.

"No início, aqueles tipos são tão divertidos que você quase gostaria de entrar naquela casa e ficar com eles. No fim, já não tem tanta vontade assim. Quando vemos filmes sobre crime organizado, existe uma fascinação. Nem sempre assistimos pelas razões em que gostaríamos de acreditar. Existe voyeurismo nisso", questiona o cineasta, cuja fraude cinematográfica se faz com base em matéria humana desconcertantemente verdadeira.

O realizador não apenas interpreta uma versão de si próprio: parte dos criminosos é vivida por homens que conheceram de fato o cárcere e o crime organizado, enquanto os policiais foram recrutados entre agentes aposentados. Jean Ruimi, o Charlie do filme, cumpriu 17 anos de prisão antes de descobrir o teatro; Jean-Michel Correia passou dez anos encarcerado e posteriormente tornou-se ator, diretor e consultor de cinema; Thierry Coignard cumpriu 21 anos e encontrou a interpretação ainda na cadeia. Do outro lado da lei, Pierrat convocou antigos policiais com décadas de experiência, entre eles Pierre Folacci, ex-integrante da estrutura policial de combate ao crime organizado de Marselha. É nessa colisão que "La Moula" encontra sua graça mais perturbadora.

Outro achado francês em Veneza foi "Júpiter", thriller político de Alexandre Smia que deita e rola no carisma e no talento de Denis Ménochet ("Peter von Kant"). Seu papel: o recém-eleito presidente francês Paul Archambault. Na trama, o estadista é chamado ao bunker antinuclear Júpiter, localizado sob o Palácio do Governo, para lidar com uma crise internacional cercada pelo terror de uma hecatombe atômica. O presidente russo foi vítima de uma tentativa de assassinato, responsabiliza os ucranianos pelo atentado e prepara uma retaliação. A tensão aumenta e a ameaça de uma guerra nuclear torna-se iminente. Sob pressão da América, Archambault e seus conselheiros políticos e militares veem-se diante de uma decisão impossível. O destino da humanidade está em jogo.

No site oficial de Veneza, Smia explica que o título do longa se refere ao Posto de Comando Júpiter, um lugar quase mitológico onde o presidente toma, sob absoluto sigilo, as decisões mais graves. "Com Thomas Finkielkraut, meu corroteirista, quis contar essa história da maneira mais realista possível. 'Júpiter' não é apenas aquilo que poderíamos chamar de um filme-catástrofe; é também uma investigação brutal sobre o que significa ter nas próprias mãos, literalmente, o poder de destruir o mundo."

Festivais como o de Veneza existem para badalar esse tipo de reflexão e torná-la pop.