Duas amigas, uma viagem e muitas versões de nós mesmas
Livros, espetáculos e filmes que abordam as questões das mulheres "coroas" são sempre muito bem-vindos, mas não são exatamente uma grande novidade. Quando a gente se enxerga em personagens que nos fazem sentir orgulho de ser quem somos, entendemos o que quer dizer representatividade. E aí não funciona só para as mulheres, mas para todas as pessoas que, por muitos e muitos e muitos anos, esperaram para ver um semelhante nas telas desse nosso Brasil.
Esse é um assunto universal, mas eu me restrinjo a falar daqui, do meu umbigo verde e amarelo, perdido na América do Sul. Falo do Rio de Janeiro, da poltrona do Cinemark Botafogo.
O envelhecimento, a solidão e a decadência do corpo são realidades para todos aqueles que — sendo bem clichê — têm a alegria de viver muito. Mas parece que essas palavras não consolam de todo, e a galera está sempre constatando as desvantagens dessa bênção.
Na comédia "Minha Melhor Amiga", a coisa não é diferente. Duas amigas lindas, na casa dos 50, vivem uma aventura de Thelma e Louise às avessas. Amigas na vida real, as atrizes Mônica Martelli e Ingrid Guimarães vivem Júlia e Clara, duas mulheres que atravessam crises pessoais e embarcam para a Europa depois que suas filhas adolescentes vão para Portugal fazer intercâmbio. A viagem planejada para reencontrar as crias acaba se transformando em uma aventura cheia de situações inesperadas, constrangedoras e, principalmente, hilárias.
É nessa mistura de identificação e humor que mora o encanto do filme pois, o que é permitido à juventude — a espontaneidade, o impulso, a falta de cerimônia, a coragem de fazer uma bobagem e depois simplesmente seguir em frente — quando aparece nas "coroas" pode ganhar outro nome: pagação de mico.
Socialmente falando, mulher madura parece ter que se comportar "de acordo com a idade". Como se envelhecer significasse, antes de tudo, aprender a caber naquilo que os outros consideram apropriado. Tem que se preservar, não pode exagerar e, sobretudo, não pode se expor.
Só que Júlia e Clara parecem não estar nesta sintonia. Nas malas delas, têm hormônios, maquiagens, cintas modeladoras, looks especiais e seus respectivos e desgarrados Ids.
Com toda a licença à Freud, vamos ao nosso momento divã. Desviando aqui a rota dessa viagem, numa breve digressão pela Psicanálise, à luz do enciclopedismo da primeira pessoa da vivência... o bom e velho "meninos, eu vi... eu vivi", o Id é aquela instância mais impulsiva e primária do aparelho psíquico, que, junto com o Ego e o Superego, compõe a estrutura psíquica. O Id busca a satisfação dos desejos e não se orienta pelas convenções sociais, pela moral ou pelas consequências. É o "eu quero, eu sinto, eu faço", antes da "censura". Já o Ego e o Superego, cada um na sua função, entram em cena para mediar, regular e colocar limites a esses impulsos.
Pois é. Aparentemente, os Superegos das duas amigas ficaram no Brasil. Deviam estar com os passaportes vencidos.
A despeito disso, ou talvez justamente por causa disso, elas saem pela Europa vivendo, à sua maneira, aquilo que aparece de forma tão saborosa no livro Liberdade, Felicidade e Foda-se, de Miriam Goldenberg, publicado em 2019: a ideia de viver mais para si e se importar menos — ou quase nada — com aquilo que os outros pensam.
Neste livro, em determinado momento, uma das entrevistadas da autora resume essa disposição em uma metáfora para lá de bem aplicada: "Aperto meu botãozinho e foda-se."
No caso do filme, que na primeira semana já bateu a casa dos 400 mil ingressos vendidos e partiu para alcançar a maior bilheteria do ano, em termos de cinema nacional, o lance é ainda mais engraçado. O tal botãozinho delas parece estar sem trava: apertou, já era — ele fica acionado e não desliga.
E aí a enxurrada de comportamentos "sincericidas", desejos, impulsos, gafes e decisões questionáveis simplesmente não tem fim. E mesmo quando fazem uma leitura duvidosa do mapa e desembarcam na Sevilha espanhola, desviando da Sevilha lusa, estacionam em local proibido e quase têm que dormir na rua, elas não desistem da viagem por um Velho Mundo que, aos poucos, se revela regenerador e capaz de abrir novos horizontes. É aí que "Minha Melhor Amiga" ganha a gente
Porque, para além de todas as situações realmente engraçadas, constrangedoras e absurdas, o filme é uma celebração da sororidade sem freio. Essa amizade aparece não como pano de fundo, mas como força capaz de sustentar, provocar e oferecer a cada uma delas - e de nós - a possibilidade de experimentar as próprias vontades.
Talvez porque, quando a gente passa tempo demais tentando corresponder ao que esperam de nós, chega uma hora em que esse botão imaginário, mas tão real, deixa de ser uma escolha e vira um mecanismo de sobrevivência. Afinal, ninguém merece viver controlando desejos, calculando gestos e evitando tudo aquilo que possa parecer excessivo. Mulher madura não pode nem acenar de camiseta sem manga!
E talvez seja exatamente o que Júlia e Clara estejam descobrindo, redescobrindo e ajudando muitas outras mulheres a descobrir: que envelhecer pode significar perder algumas coisas — o colágeno, a paciência, algumas ilusões —, mas também pode significar ganhar outra bastante poderosa: a coragem de buscar os prazeres e as realizações mais profundas e especiais, e de não pedir desculpas por ser quem se é.
"Minha Melhor Amiga" é isso. Um turbilhão de vetores desgovernados que acertam precisamente no alvo da plenitude da mulher contemporânea. Uma amizade a serviço de todas as amizades, das coragens, das rupturas e da liberdade de recomeçar. E parafraseando a eterna Rita Lee que disse: "Então, mulheres, vão lá e façam!", o filme diz: "Então, mulheres, vamos lá e façamos!".