Os holofotes da hora voltam-se para Toronto
O Canadá empresta uma de suas maiores cidades ao cinema, fazendo do TIFF um veio para o Oscar, com o drama mineiro 'Vicentina Pede Desculpas' entre suas descobertas
Para a alegria de uma significativa concentração de votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, o festival que aproxima produções estrangeiras do colegiado do Oscar vai abrir suas portas nesta quinta, num pedaço da América do Norte nem sempre tratado com a devida atenção pelo circuito exibidor: o Canadá. É lá que rola o TIFF, sigla para o Festival Internacional de Cinema de Toronto, que chega à sua 51ª edição com presença brasileira já numa de suas vitrines mais nobres.
A abertura da edição ficará a cargo de "Being Heumann", de Sian Heder, enquanto "Villeneuve: The Rise of a Legend", de Yan Lanouette Turgeon, encerra a maratona. "Vicentina Pede Desculpas", novo longa de Gabriel Martins, de "Marte Um" (2022), terá première internacional na competitiva Plataforma, destinada a filmes de forte assinatura autoral.
Estrelado por Rejane Faria, o drama mineiro acompanha uma professora aposentada de 75 anos que procura as famílias das vítimas de um acidente de ônibus provocado pelo filho, morto na tragédia, depois que surgem suspeitas de que ele teria derrubado intencionalmente o veículo de um viaduto. De 18 a 26 deste mês, Gabito (apelido de Gabriel) vai levar Vicentina para a competição oficial de San Sebastián, na Espanha.
A presença brasileira em Toronto se espalha ainda por coproduções. "Glaxo", do argentino Benjamín Naishtat, aparece entre as Special Presentations, enquanto "Furies", do libanês Rami Kodeih, integra a Centrepiece. A RT Features, produtora de Rodrigo Teixeira, está em ambas.
Até o dia 20 de setembro, Toronto transforma-se mais uma vez numa espécie de Bolsa de Valores do cinema mundial. Fundado em 1976, o TIFF construiu uma posição estratégica que o distingue de Cannes, Berlim e Veneza: a temperatura dos filmes não é medida apenas por júris, mas também pelo público, pelos distribuidores, pela imprensa internacional e por uma indústria que já entra no outono do Hemisfério Norte com os olhos postos na temporada de prêmios. Em 2026, essa musculatura cresce com a estreia formal de um mercado audiovisual próprio no Metro Toronto Convention Centre.
A Plataforma, onde Gabito está, ganhou relevância adicional este ano. Filmes em língua não inglesa que vencerem a seção passam a ter uma via de qualificação para o Oscar de Melhor Filme Internacional independentemente da escolha oficial do país de origem. Toronto exerce ainda uma função de estação de conexão da cinefilia, reunindo alguns dos títulos que saíram fortalecidos dos maiores festivais do ano. De Cannes vêm produções como "Fjord", de Cristian Mungiu, e "A Bola Preta", de Javier Calvo e Javier Ambrossi (que vai abrir o Festival do Rio 2026, no próximo dia 1°). Veneza entrega ao Canadá nomes como Lee Chang-dong, com "Possible Love", Hirokazu Kore-eda, com "Look Back", e Florian Zeller, com "Bunker". Chang-dong, um dos favoritos ao Leão de Ouro (que será entregue neste sábado), passa pelo TIFF ainda no rol de homenageados, ao lado de Penélope Cruz.
Entre os inéditos mais cobiçados está "I Play Rocky", de Peter Farrelly, vencedor do Oscar por "Green Book". O filme reconstrói a batalha de um Sylvester Stallone ainda pobre e praticamente desconhecido para transformar o roteiro de "Rocky" num longa sem abrir mão de viver o protagonista. Anthony Ippolito encarna Stallone, enquanto Stephan James assume o papel de Carl Weathers, o Apollo Creed. Farrelly converte os bastidores de um clássico numa nova narrativa de azarão, agora situada no coração da própria indústria.
Outra aposta capaz de fazer barulho é "Bad Lieutenant: Tokyo", apropriação japonesa da figura do policial moralmente falido eternizada por Abel Ferrara e reinventada depois por Werner Herzog. Takashi Miike transporta esse imaginário para Tóquio e escala Shun Oguri como um agente viciado em jogo que cruza o caminho de uma integrante do FBI vivida por Lily James. A mistura entre a linhagem suja do policial americano e o gosto de Miike pelos extremos transforma o projeto num dos encontros mais imprevisíveis da programação.
Helen Mirren é outro chamariz de Toronto, transformada em Patricia Highsmith em "A Talent for Murder", de Anton Corbijn, realizador de "Control". Inspirado na peça "Switzerland", de Joanna Murray-Smith, o filme imagina a visita de um jovem agente literário à autora de "O Talentoso Ripley", numa tentativa de convencê-la a escrever uma última aventura de seu anti-herói mais célebre. Alden Ehrenreich, Olivia Cooke e Juliet Stevenson completam o elenco. A premissa promete fazer do universo de Highsmith matéria para um jogo entre criação e pulsão criminal. A atuação de Helen é uma promessa de excelência.
Aos 77 anos, Wayne Wang regressa à literatura japonesa com "Diary of a Mad Old Man", adaptação do romance de Jun'ichiro Tanizaki publicado em 1961. O diretor de "O Clube da Felicidade e da Sorte" volta-se agora para uma narrativa sobre desejo, envelhecimento e obsessão.
Sátira sobre o racismo
Chris Rock volta à realização com "Misty Green", sátira sobre racismo institucional, ambição e sobrevivência em Hollywood. Rosalind Eleazar vive uma atriz disposta a medidas extremas para manter a carreira de pé e preservar a vida do irmão, num elenco que reúne Daniel Kaluuya, Adam Driver e Anna Kendrick.
O sul-coreano Hur Jin-ho surge com "The Assassin(s)", produção apresentada em Gala e outra das apostas inéditas que reforçam a musculatura asiática do TIFF. Conhecido por uma filmografia marcada pela contenção emocional e pela precisão dos relacionamentos, o diretor muda de escala ao aproximar-se de um universo criminal, sem abandonar o interesse por personagens que carregam culpas, memórias e afetos difíceis de resolver.
O sumido John Madden ("Shakespeare Apaixonado" e "O Exótico Hotel Marigold") reaparece com "Onwards and Sideways". O longa chama atenção pelo regresso de um cineasta associado a narrativas de forte apelo popular e acabamento clássico. Em Toronto, essa combinação costuma valer ouro: filmes de perfil acessível frequentemente encontram ali o impulso necessário para ganhar musculatura comercial.