Autopsia sensorialde um corpo vivo

Nas raias da delicadeza, 'London', produção gaúcha de passagem pelo Festival de Veneza, põe plateias em encanto com o olhar sobre um jovem PCD que trabalha numa casa de fetiches

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

O jovem London (Victor Di Marco) busca seu lugar neste nosso mundo (o Brasil)... e no Velho Mundo

 

Apresentado ao planisfério cinéfilo na Settimana Internazionale della Critica, seção competitiva do Festival de Veneza paralela à disputa pelo Leão de Ouro, "London" é universalíssimo em sua destreza para se escudar de exotismos ao tratar - com frontalidade - de corpos habitualmente não observados com empatia pela mídia... pela arte. Mas sabe ser brasileiríssimo também, em sua afirmação de territórios.

Há um chão, lá em Porto Alegre, de onde a gente zarpa. Calma! É spoiler zero aqui. Zarpa-se para dentro do personagem-título (vivido com resplandescência por Victor Di Marco), um rapaz batizado com o nome da capital inglesa, que passa a vida atrás de um CEP existencial, ou seja, um lugar onde se aterre. O gozo é o mais próximo disso.

Tão torrencial quanto a atuação de Victor (que assina a direção com Márcio Picoli) é o modo de interpretar de Carla Cassapo, cuja personagem, Helena, invade o sistema solar resfolegado de London - cansado pela falta de dopamina que descontrola seus movimentos - qual fosse um astro-rei, oferecendo o mais potente analgésico conhecido pelo organismo humano: carinho. Com canções de karaokê, manhas de massagem, vontade de viver, essa valquíria de cabelos prateados será um dos satélites (talvez o da mais sábia geração) a cruzar com o rapaz em sua jornada de entendimento de si mesmo... e sobrevivência para além de previsões médicas.

Construído num registro queer como se fosse um poema sensorial, "London" (em Veneza, a grafia usada tem sido em caixa alta, "LONDON") firma sua sinestesia na nevrálgica condução dos enquadramentos da direção de fotografia de Bruno Polidoro. Seu colorido é especialmente avesso a algoritmos em sequências numa boate onde o protagonista ganha o pão de cada dia, fazendo performances eróticas. É uma casa de fetiches, mas os cineastas não tratam dela como se fosse um inferninho, qual o de "Irreversível" (2002), de Gaspar Noé, ou qual o cabaré fedido a adstringente e naftalina de "L'Apollonide: Os Amores da Casa de Tolerância" (2011), pérola do grande Bertrand Bonello. Na notável direção de arte de Valeria Verba, atenta ao simples e ao miúdo, essa casa é uma instância de descobertas, onde o toque, quando consentido, abre caixas de Pandora que a caretice e o moralismo fecharam. Um dos achados da narrativa é o fato de a montagem de Will Domingos saber direitinho onde equilibrar os momentos bate-estaca dessa casa com a triagem das ações mais cotidianas de London.

Identificado (pela sociedade) como PCD, ele passa por uma fase de tormenta quando um exame médico lhe oferece a possibilidade de descobrir a origem e o possível destino de sua deficiência. Muitos dilemas eclodem daí, em especial a percepção de que um diagnóstico seja capaz de determinar o porvir de sua vida. Lembra um pouco os rumo de "As Chaves de Casa" (2004), de Gianni Amelio. A sequência de um ultrassom, filmado por Victor e Picoli, enerva, quase no mesmo tanto quanto a cinefilia se incomoda ao (re)ver Linda Blair sendo espetada, na espinha, sob a benção da Medicina que quer decifrar por que ela parece estranha no início de "O Exorcista" (de 1973), antes de a gente saber que o Demo tá ali.

O demônio de "London" é o preconceito, a exotização das diferenças, a falta de apuro de uma diretora de escola incapaz de entender os rumos de uma criança com necessidades especiais. E Victor e Picoli tratam disso tudo sem autocomiseração, sem apontar dedos, sem "palestrinha". O sorriso das pessoas em cena, cada qual com a sua dor e com a sua alegria, pavimentam a nossa vontade de conhecer o mundo que o filme abre diante de nós sem julgamentos.

Escalado já para o Queer Lisboa (de 18 a 26 de setembro) e para o Festival do Rio (de 1° a 11 de outubro), "London" calou fundo no peito da crítica em Veneza. Diego Lerer escreveu sobre ele no site "Micropsia". Sua resenha destaca: "Por vezes desconfortável — sua resistência aos exames médicos resulta em várias cenas tensas e emocionalmente desgastantes — e, em outros momentos, cru e desinibido, 'London' começa como um retrato calmo e observacional antes de evoluir para algo mais contundente e carregado dramaticamente. É um filme brasileiro sobre pessoas que vivem às margens da sociedade, mas que evita a condescendência de um olhar externo. Ao contrário, fala com a liberdade e a segurança de uma história contada de dentro, por pessoas que conhecem essa experiência em primeira mão. O fato de seu protagonista ser também um dos codiretores do filme e viver com a mesma deficiência confere à obra uma honestidade rara."

Na disputa pelos prêmios da mostra competitiva do Festival do Rio, "LONDON" terá pela frente nove longas brasileiros de ficção, a partir de 2 de outubro: "Diário do Fogo", de Maju de Paiva e Bernardo Florim, e "Maria de Maria", de Luiza Shelling Tubaldini, ambos em première mundial; "Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira", de Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão, "A Professora de Francês", de Ricardo Alves Jr., em première nacional; "Funk", de Aly Muritiba, "A Margem do Rio", de Enock Carvalho e Matheus Farias, e "Vicentina Pede Desculpas", de Gabriel Martins, em première latino-americana. Completam a seleção a animação "O Filho da Puta", assinado por Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite (já exibido em festivais como Annecy), e "Oceânico", de Guilherme Coelho, também em première mundial.