'O Convite' segue de pé: prestigie Olivia Wilde na telona
Dois meses depois de chegar aos cinemas brasileiros, “O Convite” (“The Invite”) segue em cartaz no Rio de Janeiro respaldado por números que ampliam o alcance da mais recente experiência de Olivia Wilde na direção. Orçada em US$ 12 milhões, a produção já soma US$ 55,6 milhões com a venda de ingressos e ganha agora um novo vulto internacional no Canadá, onde Penélope Cruz recebe uma homenagem do Festival de Toronto (TIFF). A atriz espanhola é uma das quatro pontas do quarteto que sustenta a dramédia, ao lado de Seth Rogen, Edward Norton e da própria Olivia, numa trama em que desejo, ressentimento e frustrações conjugais explodem ao redor de uma mesa de jantar.
Exercício de delicadeza de uma cineasta em evolução, vinda de “Fora de Série” (2019) e “Não Se Preocupe, Querida” (2022), “O Convite” amplia — e um bocado — o espaço conquistado por Olivia para usar as ferramentas da direção em prol de um cinema adulto. Sua obra, calcada na palavra, apresenta geometrias próximas do teatro, concentrada em espaços fechados e em quiproquós morais. Aqui, tudo nasce de um jantar entre vizinhos no qual falta vinho e a comida não corresponde às restrições alimentares de uma das convidadas. Mas a verdadeira indigestão vem de outro lugar: os moradores do andar de cima transam feito coelhos, ruidosamente, enquanto os anfitriões do piso inferior praticamente não se tocam mais.
Embaixo vivem o professor de Música Joe (Rogen) e sua mulher, Angela (Olivia), hoje uma dona de casa, com uma filha de 12 anos que nunca vemos. No apartamento de cima estão a sexóloga espanhola Pina, vivida por uma Penélope Cruz de cabelos louros, e o bombeiro Hawk, papel que encontra Edward Norton em estado de graça. No alicerce dessa experiência sobre a necessidade de escutar o outro em tempos de ruído está um dos dramaturgos de maior viço do teatro popular espanhol das últimas décadas: o catalão Cesc Gay, artista que faz do cotidiano um campo de batalha.
“Escrever é saber dominar as caricaturas relativas às representações do excesso, seja o excesso de dor ou da euforia”, disse Cesc ao Correio da Manhã, em entrevista por telefone, quando levou ao Festival de San Sebastián “Sentimental” (2020), adaptação cinematográfica de sua peça “Els Veïns De Dalt” (“Los Vecinos De Arriba”), justamente o texto que serviu de matriz para “O Convite”. Pouco antes da pandemia, a peça lotou sessões em Buenos Aires numa montagem estrelada por Diego Peretti e continua a gerar novas encarnações. Há uma versão em curso na Bélgica, “De Bovenburen”, dirigida por Simone van Dusseldorp, e uma adaptação sendo filmada em Portugal, “O Pecado Mora Em Cima”, de Rui Pedro Sousa, que reúne dois velhos conhecidos do público brasileiro: Miguel Falabella e Marisa Orth.
Hoje com 59 anos, Francesc Gay i Puig é conhecido da cinefilia brasileira sobretudo por “Truman” (2015), no qual um homem vivido por Ricardo Darín, diante da proximidade da morte, conta com a ajuda de um amigo (Javier Cámara) para encontrar um novo lar para seu cão. O filme arrecadou cerca de US$ 9 milhões e rendeu a Cesc o Goya de Melhor Direção. Sua estreia no longa-metragem aconteceu em 1998, com “Hotel Room”, codirigido pelo argentino Daniel Gimelberg. Dois anos depois, transpôs para o cinema “Krámpack – Descobrindo o Prazer” e recebeu em Cannes o Prêmio da Juventude por sua abordagem do amadurecimento. “Todo assunto que é tabu precisa ser visto numa dinâmica que equilibre riso e dor, sob os vínculos do companheirismo”, afirmou o cineasta ao apresentar “Histórias Que É Melhor Não Contar” (2022) em San Sebastián.
Essa combinação entre riso e ferida chega modificada a “O Convite”. A adaptação americana começou a ser idealizada em 2022 e, inicialmente, teria Valerie Faris e Jonathan Dayton na direção, a partir de um roteiro de Rashida Jones e Will McCormack, com Amy Adams, Paul Rudd e Tessa Thompson entre os nomes previstos para o elenco. Após três anos de desenvolvimento, Olivia Wilde assumiu o projeto para dirigir e atuar, trazendo consigo Seth Rogen, impulsionado pelo sucesso da série “O Estúdio”, além de Penélope Cruz e Edward Norton.
De “O Estúdio”, Olivia trouxe ainda o diretor de fotografia Adam Newport-Berra, responsável por conferir elegância sinuosa a uma narrativa construída essencialmente sobre planos e contraplanos. A montagem de Yorgos Mavropsaridis e Anthony Boys dá fluidez à engenharia de ressentimentos acumulados entre Joe e Angela ao longo de anos de indelicadezas e omissões. É nesse jogo de pequenas violências domésticas que o quarteto encontra sua melhor matéria-prima.
Penélope, agora sob os holofotes de Toronto, encontra em Pina uma personagem que poderia facilmente escorregar para o arquétipo da latina sexualmente exuberante. Sua interpretação, porém, dribla o lugar-comum com sagacidade, transformando pequenos detalhes — entre eles uma discussão sobre a pronúncia da palavra “flan” — em combustível cômico. Norton cresce sobretudo pelos gestos, fazendo de Hawk um sedutor plácido capaz de transformar vulnerabilidade em instrumento de aproximação. Rogen segue pelo caminho oposto: seu Joe é uma espécie de elo perdido da virilidade, um homem em queda, sufocado pela própria hipocrisia.
Se as discussões sobre desejo, masculinidade e identidade sexual ganhavam contornos mais abertamente cômicos em “Sentimental”, a releitura de Olivia Wilde prefere extrair delas uma camada mais dolorosa. A trilha de Devonté Hynes funciona como contraponto afetivo para essa erosão conjugal, culminando no emprego de “Our House”, de Crosby, Stills, Nash & Young. É quando “O Convite” reafirma aquilo que existe de mais fértil na dramaturgia de Cesc Gay: quatro pessoas podem dividir uma mesa, comida e algumas garrafas e, ainda assim, permanecer a uma enorme distância umas das outras.