CEPs cinéfilos nas Áfricas que filmam

Diferentes países do continente africano batem ponto na mostra que o CCBB-RJ abre quinta

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Depois de brilharem na 76ª Berlinale, por meio do Chade, com "Soumsoum, La Nuit Des Astres" (coroado com o Prêmio da Crítica), e no 79ª Festival de Locarno, com "Atcha Atcha", as muitas expressões autorais da África nas telonas agora convergem para o Rio, trazendo boas novas ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) a partir desta quinta. Neste 10 de setembro, uma sessão de "Memória da Princesa Mumbi", rodado por Damien Hauser na ponte Quênia e Arábia Saudita, leva um debate sobre o uso de inteligência artificial para a abertura da edição 2026 da Mostra de Cinemas Africanos.

Sob curadoria de Ana Camila Esteves, o evento põe a imaginação no primeiro plano ao lançar um olhar especial sobre o cinema de gênero produzido em diferentes territórios da África, passando pela ficção científica, horror, aventura, comédia, romance e thriller psicológico sem abandonar questões políticas, transformações urbanas e embates sociais. Até o dia 16, produções de países como Senegal, Quênia, Nigéria, Burkina Faso, Sudão, Chade, Gana, Benin, Marrocos, Tunísia, Ruanda e República Democrática do Congo formam um mosaico que recusa a ideia de uma única "cinematografia africana" e evidencia a variedade estética de um continente com múltiplas tradições audiovisuais.

Uma de suas iguarias, "O Pescador" ("The Fisherman"), de Zoey Martinson, vindo de Gana, lotou salas na Mostra de São Paulo, em 2025, e deve agora mobilizar cariocas. Eis uma aula de realismo mágico que rendeu à sua diretora uma láurea da Unesco no Festival de Veneza. Seu protagonista, um pescador ganês, estava afastado do ofício, mas embarca numa jornada inusitada, ao lado de um peixe falante (e sarcástico!), em busca do sonho de ter um barco. Na jornada, ele aprende a se adaptar ao mundo moderno.

Criada há nove anos, a Mostra Africana tornou-se uma plataforma continuada de difusão do audiovisual contemporâneo africano no Brasil. Em sua trajetória, passou por sete cidades, realizou 22 edições, exibiu mais de 400 filmes, recebeu mais de 65 convidados e promoveu 45 atividades de formação, alcançando um público superior a 350 mil pessoas. Nesta passagem pelo Rio, uma das apostas está justamente na possibilidade de desmontar a velha associação entre cinema africano e um registro exclusivamente social ou realista. A fantasia aparece como instrumento político; o sobrenatural, como caminho de elaboração da memória; a sci-fi, como veio para discutir tecnologia e futuro; e o terror como abertura de cicatrizes, para remexer feridas ancestrais. A programação combina dez longas e seis curtas, com obras realizadas entre 2022 e 2026, e traz ao Brasil a cineasta de Burkina Faso Aïcha Chloé Boro, que participa de um debate com o público no sábado, após a sessão de "As Desvirtuosas".

Nessa coprodução de Burkina Faso e França, Natie descobre que sua avó foi obrigada a casar-se com um homem que não amava e decide procurar alguma forma de reparação para essa história, busca que acaba confrontando a personagem com seus próprios desejos de liberdade. A sessão de sábado (12), às 18h, será seguida de conversa com Boro.

Entre os títulos convocados, destaca-se "Crocodilo", produção nigeriano-neozelandesa assinada por The Critics e Pietra Brettkelly. O filme acompanha irmãos e primos de Kaduna que, com dinheiro curto e imaginação larga, convertem o quintal de casa em estúdio para aventuras futuristas. O gesto artesanal torna-se afirmação de autoria: em vez de esperar que uma indústria lhes ofereça os meios para filmar, os jovens inventam sua própria Hollywood doméstica. Achado de Locarno, "Cabra" ("Goat", de Judy Kibinge, do Quênia, evoca traumas seculares. É um tocante estudo sobre reparação histórica envolvendo disputas territoriais, construído com ecos fabulares. Quando o noivo da jovem Suki leva sua amada a uma quinta isolada, a fim de comprar uma cabra, ela quer sair dali imediatamente, sem entender a razão do desconforto. No entanto, depressa se apercebe de que a antiga árvore Mugumo está a exigir que ela salde uma dívida da qual nem sequer sabia que tinha.

Agendado para sexta, às 18h, "Dëmm - Devoradoras de Almas", de Aïda Captijn, acompanha uma jovem de Dakar diante da morte iminente da mãe e de um misterioso grupo de mulheres capazes de devorar almas. Já "O Herói Sombrio", do ruandês Serge Girishya, também marcado para sexta, coloca um escultor diante do passado violento que tentou abandonar.

Com sessão neste 11 de setembro, às seis da tarde, o nigeriano "Bam Bam", de Tolulope Itegboje, apresenta um rapaz cuja melhor amizade é com uma IA, até que o interesse por uma colega o força a encarar a dificuldade de estabelecer vínculos humanos. Em "Sukari (Açúcar)", do queniano Omar Hamza, a provocação vem pela sexualidade: depois de ouvir da mulher que jamais conseguiu satisfazê-la, Abbas embarca numa improvável educação sexual que abala suas certezas sobre desejo e masculinidade.