Susana Garcia: 'Comédia é como matemática: é precisa'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

A diretora Susana Garcia

Até o feriado de 7 de setembro, segunda agora, dado o frenesi com que o circuito exibidor está tratando "Minha Melhor Amiga", é possível que sua diretora, Susana Garcia, tenha andado já algumas casas a mais no tabuleiro das maiores bilheterias brasileiras, de todos os tempos, com um novo recorde no currículo. O longa-metragem nacional mais visto no país, da década de 1970 para cá (quando as bilheterias passaram a ser apuradas oficialmente), é dirigido por ela: "Minha Mãe É Uma Peça 3" (2019). Soma 11.608.254 ingressos vendidos. Dois outros filmes da cineasta celebrizaram-se como blockbusters: "Minha Vida em Marte" (2018) vendeu 5.337.119 tíquetes e "Minha Irmã e Eu" (2023) atraiu 2.282.597 pagantes.

A julgar pela ânsia do público por seu novo trabalho na realização, recém-chegado às telonas, um novo fenômeno pode estar entre nós. Há um circuito imenso a serviço da comédia centrada na jornada da jornalista Julia (Mônica Martelli) e da corretora Clara (Ingrid Guimarães), do Rio de Janeiro à Península Ibérica, à caça de suas filhas (Giulia Benite e Gabi Amaral), que foram estudar no exterior. O longa-metragem foi lançado em 1531 salas de 773 cinemas, em 436 cidades do país. Pode ser o sucesso que nosso audiovisual sonhava ter, neste ano no qual a nossa maior receita, "Velhos Bandidos", parou em 420 mil espectadores. Susana explica aqui a sua forma de filmar.

Que olhar o seu cinema busca construir a partir da condição feminina, trabalhando (de modo autoral) o tema do companheirismo?

Susana Garcia - Meu cinema parte muito das relações humanas e, naturalmente, do meu olhar como mulher. Interessa-me falar de mulheres reais, com contradições, fragilidades, força, humor, desejo, medo, em diferentes momentos da vida. Gosto muito de ver as pessoas se identificando, se reconhecendo nas personagens e se inspirando nelas. E o companheirismo aparece nos meus filmes porque eu acredito profundamente que a gente também se transforma através do outro. Seja numa amizade, num casamento, numa relação entre irmãs, entre mãe e filha/o. Uma amizade... um amor que te incentiva a ser a sua melhor versão e te impulsiona e te fortalece... isso é inspirador na dramaturgia. Em "Minha Melhor Amiga", isso está muito presente. São duas mulheres maduras, com suas histórias, suas questões, seus medos que saem juntas numa viagem e conseguem ressignificar as suas vidas e descobrir que nunca é tarde pra recomeçar, mudar de direção. Eu faço comédias. Quero que as pessoas riam. Mas gosto que esse riso venha acompanhado de identificação e emoção.

A afetuosidade é a sua rota?

No fundo, estou sempre falando de afeto. E acredito que o companheirismo é uma das formas mais bonitas de afeto. Uma vez, eu e Paulo Gustavo estávamos na casa dele criando uma cena do "Minha Mãe É Uma Peça 3". Ele falou: "Eu vou fazer esse Brasil rir muito, mas no fundo, o importante pra mim, é levar uma mensagem de amor".

Você virou uma das cineastas de maior público das Américas. Qual é a identidade visual que você busca imprimir nesse cinema tão pop?

Nos meus filmes, a estética não é uma moldura da história. Ela faz parte da história. Está a serviço da história. Gosto de um cinema pop, bonito, sofisticado, mas que nunca seja estética pela estética. A imagem tem que acompanhar emocionalmente os personagens e ajudar a contar a história. Penso muito em cor, luz, figurino, arquitetura, locação, enquadramento. Gosto de construir um universo visual que seja atraente ao público, mas que esteja sempre em função da cena, que seja sempre o que for melhor para a história. Jamais faço um movimento de câmera porque eu acho interessante e isso vai acabar sendo mais importante do que a história que está sendo contada. Comédia é como matemática: é precisa. Se eu priorizar outras coisas na cena, como movimentos errados dos personagens ou posicionamento e movimentos de câmera que não vão ao encontro da comédia, eu estaria prejudicando a cena de humor. O cinema que eu busco fazer é popular e acessível, mas existe muito rigor por trás dessa aparente leveza. Eu quero que o público entre pela comédia, pelo prazer e pela beleza, mas que, sem perceber, seja levado a um lugar de emoção, identificação e inspiração.

Teu filme é visto como A esperança do ano para fazer as nossas bilheterias galgarem novo posto. De que maneira você avalia o cenário do mercado em que lança as tuas amigas, comparado com o que se via em tempos anteriores, em seus filmes anteriores?

Hoje o público está mais disputado e é preciso criar relevância com o filme para as pessoas serem convencidas a saírem de casa. Os dados mostram isso: em 2025, o Brasil teve 112 milhões de espectadores, enquanto o cinema brasileiro ficou com 10% desse público; em 2026, a própria ANCINE aponta uma participação nacional ainda menor, de 6,5%. Eu espero que "Minha Melhor Amiga" possa fazer parte de um movimento de reconexão do público com o cinema brasileiro, com a comédia brasileira. Quando lancei "Minha Vida em Marte", "Minha Mãe é uma Peça 3" e, mais recentemente, "Minha Irmã e Eu", a relação do público com a sala de cinema era diferente. Hoje nós disputamos a atenção das pessoas com muitas outras formas de entretenimento. Então não basta mais fazer um filme e colocá-lo em cartaz. Você precisa criar no espectador o desejo de sair de casa, de encontrar outras pessoas, de viver aquela experiência coletivamente. Eu acredito muito na força da comédia que emociona para fazer isso. A comédia brasileira tem uma capacidade enorme de criar identificação. Quando o público se reconhece na tela, quando ri e se emociona de alguma coisa que poderia ter acontecido na sua família, na sua amizade, na sua vida, ele cria uma conexão muito poderosa.

Qual foi o filme que te fez amar o cinema? Qual foi o filme que te fez querer fazer cinema? A que filme você volta sempre que precisa reafirmar seu amor pelo audiovisual?

Tem vários clássicos que fizeram parte da minha formação e é até difícil escolher um só. Os filmes do Charlie Chaplin foram marcantes. Depois vieram os filmes do Woody Allen, que me fizeram amar um outro tipo de cinema, baseado em personagem, relacionamento, contradição humana - que é o tipo de cinema que gosto de fazer. "Cinema Paradiso". Toda vez que o assisto, eu me emociono. Ele confirma como eu gosto de filmes que me emocionam e me tocam. Você pode ter uma grande produção, uma técnica extraordinária, mas, no fim, o que fica é o que a história fez você sentir. É esse o cinema de que eu gosto de assistir e é esse cinema que eu tento fazer: um cinema que chega ao público.