Falou Carvana, falou cinema... e falou saudade
Documentário sobre o astro e realizador de 'Vai Trabalhar, Vagabundo' será projetado nesta quinta nas Casas Casadas, numa celebração de seu legado poético no estudo da amizade
Ao longo de quase sete décadas, que atravessam a chanchada, o Cinema Novo, a Retomada e as comédias populares dos anos 2000/2010, irreverência costumava ser a palavra precisa para definir Hugo Carvana de Hollanda, traduzindo bem suas múltiplas atividades, como ator, como cineasta, como torcedor do Fluminense, como cronista da vida boêmia ou como gente. Seu modo irreverente se fez notar (e conquistou fãs) até ele cometer a deselegância de deixar este mundo, em 2014, sem pedir licença ao nosso afeto.
Aí, para se referir a ele, é preciso falar em "saudade". Não por acaso, irreverência e saudade vão se misturar esta noite, no Cineclube das Casas Casadas, em Laranjeiras, às 18h, na projeção do documentário batizado "Carvana". O nome de seu personagem sintetiza sua potência estética, na chave pícara da elegância. Atração inaugural da 23ª edição do É Tudo Verdade, lá em 2018, a produção, regada a litros de emoção, nasceu como carta de amor ao realizador de comédias de sucesso como "A Casa da Mãe Joana" (2008).
Há neste filme-afago, rodado por Lulu Corrêa (diretora-assistente de Hugo nos sets de 1996 a 2013), imagens raras de seu documentado nos bastidores de suas filmagens, destacando sua lealdade aos amigos. "O filme mostra o Carvana na perspectiva histórica do país e do cinema brasileiro", explica Lulu, famosa pelo curta "Como Se Morre No Cinema" (2002). "Pra mim, não podia ser diferente: sua trajetória de seis décadas me coloca em contato com a minha própria memória. Eu queria falar do Carvana por meio do cinema; queria falar do cinema, por meio do Carvana. É importante observar o seguinte: para além da perspectiva histórica, o filme é uma cronologia de afetos. Sem afeto não tem Carvana.
A forma como esse artesão da camaradagem definia sua arte endossa a fala de Lulu.
Em 2013, Carvana contou ao Correio da Manhã sua saga nas telonas: "Eu comecei a fazer filmes ainda na era das chanchadas e depois caí numa fase muito politizada, em que o cinema parecia bula de remédio, pois os diretores diziam 'Meu filme é bom pra acabar com a reforma agrária... meu filme é bom pra derrubar a ditadura... meu filme é bom pra isso... meu filme é bom praquilo'. Os filmes que eu dirigi só são bons para deixar as pessoas felizes. Eu comecei na chanchada. Aprendi a filmar pra levar alegria às pessoas", disse Carvana, um ano antes de morrer, na finalização de seu último longa, "A casa da Mãe Joana 2".
"Eu gosto de patota, turmas, amigos... e as histórias que eu conto falam sobre isso. Ninguém dorme num filme meu, porque eles celebram a alegria. Eu faço meus atores trabalharem muito no meu set. Eu concentro a energia, filmo muito, canso todo mundo... mas ninguém sente o cansaço, ninguém reclama, porque existe integração, camaradagem e amor pelo cinema", dizia.
Nascido em 1937, Carvana dizia que era "um ator de câmera", por se sentir mais à vontade com a energia do audiovisual do que com a força dos palcos. Estrelou filmes seminais de nossa cinematografia, como "Os fuzis" (1964), de Ruy Guerra, e iniciou, em 1973, com "Vai trabalhar, vagabundo" uma trajetória de milhões de espectadores e dezenas de prêmios no papel de cineasta. Foi selecionado, com seu longa de estreia, para o Festival de Taormina, na Itália, onde ganhou o prêmio principal. Levou ainda o Kikito de Melhor Filme em Gramado, em 1974. Na TV, fez personagens antológicos, entre eles o lendário repórter Valdomiro Pena da série "Plantão de Polícia" (1979) e o milionário Lineu Vasconcelos de "Celebridade" (2003-2004). "Ouvir as histórias do Carvana, ao lado da câmera, como diretora, é uma lembrança que me faz chorar até hoje. O Carvana era um gigante diante de mim", diz Lulu, ao Correio da Manhã.
Em meio ao É Tudo Verdade, ela explicou: "O amor à vida e o compromisso coma democracia eram aspectos centrais do modo de ser de Hugo nos sets e reviver esse jeito dele, revendo material de arquivo com ele em ação foi muito doloroso, pra mim, no início da concepção de 'Carvana'. Eu chorava, eu ria e, às vezes, ficava quietinha ouvindo suas palavras, para matar a falta que ele faz", diz Lulu, que concebeu o .doc escalado pelas Casas Casadas como se fosse um autorretrato. "Comecei a filmar com o Hugo em 'O Homem Nu' e nunca nos separamos. Fui percebendo, a cada encontro, o quanto ele aprendeu como cada um dos grandes cineastas com quem filmou, sempre movido pela paixão pelo cinema".
É Cavi Borges quem anima a programação das Casas Casadas, localizada no número 307 da Rua das Laranjeiras, coladinha com o CineCarioca José Wilker.