'Minha Melhor Amiga': A vez das manas
Amargando bilheterias microscópicas desde janeiro, com um único soçobro de sucesso saído de circuito ao arranhar a marca de 500 mil pagantes (“Velhos Bandidos”), o cinema nacional acende velas e põe marafo nas encruzas para que “Minha Melhor Amiga” cante para subir o encosto que anda travando o êxito de nosso audiovisual na venda de ingressos. O histórico de suas duas estrelas, Mônica Martelli e Ingrid Guimarães, é de vitórias sucessivas, o que indica um saldo de gols favorável para a estreia mais esperada do ano, quando o assunto são cifras. A alquimia delas compensa essa expectativa, numa narrativa imperfeita, mas imperdível. Com ela, na clave de sol da graça, o riso volta a ser assunto das salas de projeção, nestes tempos de patrulhas politicamente castradoras, num estudo de personagens que leva Susana Garcia a um patamar de mais ambição dramatúrgica em sua jornada pela realização. Diverte pacas... e comove.
Como seu título sugere, o novo longa-metragem da diretora do bem-sucedido (mas raquítico em carnadura estética) “Minha Irmã E Eu” (2024) aposta na sororidade para renovar a tradição de sisterhood (manas) nas telas, que, há três décadas, encontrou momentos emblemáticos em “Somente Elas” (1995), de Herbert Ross, e “Falando de Amor” (1995), de Forest Whitaker. O princípio permanece: diante de casamentos, separações, filhos, envelhecimento e desejos adiados, há afetos entre mulheres capazes de reorganizar a própria existência, enxergando saídas improváveis numa reta de precipícios que parecem incontornáveis.
Susana rearranja, porém, leis da física — sobretudo as da atração inerente à amizade — que o cinema explorou primeiro com enorme desenvoltura no terreno do bromance, o amor dos manos – que, nela, dá vez ao amor das amigas. “Nós Que Nos Amávamos Tanto” (1974), de Ettore Scola; “Amici Miei” (1975), de Mario Monicelli; e o brasileiro “Bar Esperança - O Último Que Fecha” (1983), de Hugo Carvana, fizeram do companheirismo uma de pátria sentimental, onde frustrações individuais podiam ser absorvidas pelo coletivo.
“Minha Melhor Amiga” desloca essa lógica para duas profissionais (uma jornalista e uma corretora) de meia-idade e transforma cumplicidade em espaço de resistência, reinvenção e prazer. A coletividade ali em xeque se resume a duas almas. De um lado temos Julia (Mônica), uma repórter de TV divorciada que já não acredita no amor. Do outro, vem Clara (Ingrid), dínamo numa firma de corretagem de imóveis presa a um casamento esgotado. Nas cacetadas dos anos todos de esgotamento (e de sexismo), elas atravessam o Atlântico, rumo à Península Ibérica, quando as filhas seguem para um intercâmbio em Portugal. Rio, Lisboa e Sevilha tornam-se escalas de uma viagem em que maternidade, desejo e envelhecimento importam menos isoladamente do que a possibilidade de uma mulher devolver à outra aquilo que a rotina lhe tomou. A química entre as protagonistas nasce menos das piadas do roteiro e mais de olhares, interrupções, gestos e reações, numa linhagem de duplas femininas que remete à eletricidade de Bette Midler e Shelley Long em “Que Sorte Danada!” (1987).
É um cinema deliberadamente popular, com algo das comédias que faziam a festa da “Tela Quente” e da “Temperatura Máxima” nos anos 1990. Susana emprega sua maturidade como artista para lidar com as personas de Ingrid e Mônica, construídas ao longo de uma relação anterior anfíbia (entre teatro e cinema) com o público e deixa que essa memória das suas em cenas trabalhe a favor de suas atuais protagonistas. Quando uma exagera, a outra reage; quando uma desaba, a outra sustenta. É justamente aí que a sororidade deixa de funcionar como palavra de ordem e ganha expressão dramática afetuosa.
O mesmo empenho não aparece na estrutura plástica. A fotografia de Rodrigo Monte é protocolar e frequentemente reduz Rio, Lisboa e Sevilha a cartões-postais, quando essas cidades poderiam funcionar como geografias emocionais. A direção de arte de Monica Costa oferece maior elaboração aos espaços, enquanto os figurinos de Verônica Julian constituem o acabamento visual mais sofisticado do filme, indo do despojamento “modo Havaianas” à elegância sem transformar as protagonistas em manequins.
Albano Jerónimo acrescenta outra frequência (das mais potentes) ao conjunto. Filmado sem constrangimento como herói romântico, o ator português contrapõe serenidade à aceleração das protagonistas e recupera algo que a comédia contemporânea parece por vezes receosa de assumir: o prazer do galã. Seu jogo de silêncios, olhares e pequenas suspensões recorda que química amorosa não depende apenas de texto. Depende de presença.
No fim, entretanto, o romance decisivo de “Minha Melhor Amiga” está no próprio título. O filme pode oferecer viagens, homens, conflitos familiares e reconciliações, mas sua aposta é outra: Susana Garcia reivindica para duas mulheres o direito à amizade como aventura. Num circuito ainda à procura de uma nova safra de sucessos nacionais, essa lavoura encontra nessa proposta sua forma mais fértil.
*Rodrigo Fonseca é crítico de cinema do Correio da Manhã