Geopolítica animada
Chegada ao Brasil do fenômeno ibérico Tadeo Jones, do japonês 'One Piece' e da comédia erótica escandinava 'Espermagedom' prova que a animação não quer se limitar a Hollywood
Duas animações passaram a marca do bilhão de janeiro para cá, "Toy Story 5", da Disney, e "Super Mario Galaxy", da Illumination, o que não ofusca o fato de que, em 2025, a maior receita cinematográfica do planeta, em venda de ingressos, foi um desenho chinês: "Ne Zha 2 - O Renascer da Alma", que contabilizou cerca de US$ 2,2 bilhões. Pouco a pouco, o terreno que antes só falava o inglês do Mickey Mouse ou do Shrek passou a falar outros idiomas. Não por acaso, o circuito exibidor brasileiro começa a abrir espaço, ainda que timidamente, para uma geração de animações estrangeiras que não depende exclusivamente do CEP de Hollywood para chegar às crianças.
Um dos sinais dessa mudança será a estreia, em 8 de outubro, de "As Aventuras de Tadeo e a Lâmpada Mágica", quarto longa da franquia espanhola criada pelo diretor Enrique Gato. A produção, distribuída pela Paramount Pictures, chega às salas brasileiras depois de circular pelo mercado ibérico e encontra um calendário que, nas próximas semanas, reúne filmes de animação da Noruega, do Brasil e do Japão.
A chegada de Tadeo acontece num momento especialmente interessante para a animação internacional. Em 10 de setembro, duas produções de naturezas radicalmente diferentes entram em cartaz: a norueguesa "Espermagedom", com seu humor de matriz adulta e DNA associado ao Porta dos Fundos, e "Papaya", longa de Priscilla Kellen que vem construindo trajetória em festivais internacionais. No primeiro, duas histórias se desenvolvem em paralelo: de um lado, os adolescentes Jean, vivido por Gregório Duvivier, e Lisa, interpretada por Evelyn Castro, descobrem o amor e atravessam sua primeira experiência sexual; do outro, Semerson, dublado por Fábio Porchat, é um espermatozoide que parte com seus companheiros rumo ao grande objetivo de sua existência: o óvulo.
Na mesma quinta-feira chega "Papaya", de Priscilla Kellen, uma das animações brasileiras que vêm desmontando a ideia de que cinema infantil nacional precisa necessariamente se limitar a fórmulas televisivas ou a personagens já conhecidos. Exibido na Berlinale e no BAFICI, o longa foi selecionado para o Festival de Munique e acompanha uma minúscula semente de mamão que se recusa a criar raízes porque sonha em voar. A produção é uma coprodução Brasil-França e foi apresentada no BAFICI como uma obra de imaginação visual exuberante, construída com cores intensas, formas geométricas e uma narrativa sem diálogos.
Há, em "Papaya", um banquete de sinestesia: o colorido lisérgico dialoga com a musicalidade de Tulipa Ruiz enquanto a montagem de Elaine Steola transforma a trajetória da pequena semente numa aventura ecológica e existencialista. Ao observar uma joaninha voar, a protagonista deseja conquistar os céus, embora não tenha asas. Quando percebe a violência provocada pelo predatismo industrial da agricultura, passa a questionar o próprio significado de liberdade. É um filme que aposta na capacidade da animação de falar com as crianças sem subestimar a inteligência delas.
A programação continua em 17 de setembro com "One Piece - O Filme", animação japonesa de 2000 que chega ao Brasil mais de duas décadas depois de sua produção original, em versão inédita dublada em português. Luffy e os Chapéus de Palha partem em busca do lendário tesouro do pirata Woonan e acabam envolvidos numa disputa com Eldorago, um pirata ambicioso que também persegue a fortuna. O lançamento integra um projeto que levará três longas clássicos de "One Piece" às salas brasileiras ainda em 2026.
Uma semana depois, em 1º de outubro, o público infantil brasileiro terá um candidato de peso para o posto de fenômeno nacional: "Galinha Pintadinha - O Filme". A personagem criada por Juliano Prado e Marcos Luporini completa 20 anos justamente quando chega pela primeira vez às telas em um longa original para o cinema. A produção da Bromelia, distribuída pela Imagem Filmes, tem como ponto de partida uma cegonha atrapalhada que troca o ovo da Galinha Pintadinha pelo de um gavião. O Pintinho Amarelinho nasce no ninho do predador, enquanto um gaviãozinho surge na Vila das Galinhas, obrigando a protagonista a vencer seus medos para recuperar o filho. A estreia está confirmada para 1º de outubro.
É nesse corredor de lançamentos que "As Aventuras de Tadeo e a Lâmpada Mágica" aparece como uma aposta particularmente curiosa. Tadeo Jones não é uma novidade absoluta para o mercado internacional: criado por Enrique Gato, o personagem se transformou numa das franquias mais reconhecidas da animação espanhola, numa espécie de primo ibérico de Indiana Jones. Sua nova aventura leva Tadeo, Sara, Múmia, Jeff e Belzoni a uma viagem através do tempo depois que o protagonista desencadeia acidentalmente um antigo feitiço.
O filme parte de uma ideia simples e eficaz: Tadeo e Sara agora são pais de Olimpia, ou Oli, uma menina de dois anos, e Múmia não consegue lidar com a perda do posto de centro das atenções. Ao encontrar a misteriosa lâmpada das "Mil e Uma Noites", ele formula um desejo para voltar ao período em que era jovem e admirado. O gesto interfere no curso da História e desencadeia uma aventura que atravessa diferentes épocas e civilizações, passando por Londres, Paititi, Grécia e Oriente Médio.
O que diferencia Tadeo, porém, não está apenas na trama. A franquia compreendeu que o público infantil contemporâneo cresceu sob a lógica dos videogames, dos vídeos curtos e das plataformas digitais. Sua linguagem visual, por isso, trabalha em regime de aceleração permanente. A paleta de cores é um frenesi deliberado, transformando cada cenário em uma espécie de brinquedo óptico, enquanto a montagem salta de um espaço a outro sem conceder muito tempo para a contemplação. A computação gráfica espanhola ganha, assim, uma exuberância quase de HQ.
Essa velocidade não significa necessariamente superficialidade. "As Aventuras de Tadeo e a Lâmpada Mágica" entende que, para as novas gerações, a própria imagem precisa acompanhar a velocidade da atenção. A direção de arte multiplica cores, formas e luminosidades; a ação muda constantemente de escala; e a trilha de Zacarías M. de la Riva funciona como uma espécie de motor invisível da narrativa, conferindo à aventura o impulso épico que a aproxima do cinema arqueológico sem abandonar sua vocação infantil.
A presença de Tadeo nas salas brasileiras também ajuda a ampliar a geografia da animação comercial disponível para o público. Em vez de uma temporada dominada exclusivamente por produções americanas, setembro e outubro apresentam um pequeno mosaico que passa pela Noruega, pelo Brasil, pelo Japão e pela Espanha. Não se trata ainda de uma revolução no mercado — Hollywood permanece dominante —, mas de uma fresta importante para filmes que chegam carregados de identidades culturais próprias.
E a própria "Galinha Pintadinha - O Filme" mostra que essa disputa não acontece apenas entre países. Ela também é interna: o Brasil possui personagens infantis com alcance suficiente para enfrentar, em condições próprias, as grandes franquias estrangeiras. A Popó chega ao cinema depois de duas décadas de presença em vídeos, músicas e produtos e, segundo sua produtora, tornou-se uma marca internacional presente em mais de 30 países.