'Coyote vs. Acme': Anarquia animada

Por Rodrigo Fonseca

Will Forte (dublado aqui por Felipe Grinnan) encarna o advogado que processa a Acme, um tipo de CCE do mal, em nome do Coyote

O roteiro mais original — e mais abusado — do ano chegou aos cinemas. “Coyote vs. Acme”, de Dave Green, é uma versão 220 volts de “Uma Cilada para Roger Rabbit” (1988), menos filme noir e mais “Banco Imobiliário”: troca a investigação detetivesca pela guerra contra uma corporação, numa deliciosa camada crítica ao neoliberalismo e às engrenagens de um sistema em que dinheiro, propriedade e poder parecem valer mais do que qualquer indivíduo. No centro desse furacão está Wile E. Coyote, que, depois de décadas sendo esmagado, explodido, esturricado e arremessado de penhascos pelos produtos defeituosos da Acme, resolve processar a fabricante. Ao seu lado, dividindo o protagonismo, está Will Forte, extraordinário como o advogado Kevin Avery, um sujeito falido que transforma a causa impossível do coiote em possibilidade de redenção. Ver Frangolino como seu algoz é uma delícia!


O que Dave Green põe na tela é, acima de tudo, uma celebração anárquica da animação da Warner Bros. como espaço libertário — inclusive diante das fórmulas tradicionalmente impostas à comédia infantil. “Coyote vs. Acme” recusa o bom-mocismo, o aprendizado edificante e qualquer obrigação de transformar pancadas em lições de vida. A tradição de Chuck Jones, Tex Avery, Friz Freleng e Bob Clampett reaparece naquilo que ela tinha de mais precioso: a liberdade para destruir corpos, cenários e convenções em nome de uma gag. Taz, Patolino, Gaguinho e companhia vivem num universo em que a derrota não produz trauma: basta levantar, sacudir a poeira e preparar a próxima dinamite.

É nesse movimento incessante que “Coyote vs. Acme” alcança algo próximo do supra-sumo da estética cinemática: a escrita pelo movimento puro. Há sequências que poderiam conversar diretamente com os melhores clássicos de Buster Keaton, para quem um corpo em confronto com uma máquina, uma casa, um trem ou uma força maior constituía sozinho uma narrativa. Green entende que Wile E. Coyote pertence à mesma genealogia. O seu herói não precisa falar para produzir drama, humor ou identificação. Basta vê-lo insistir. A engenharia de quedas, explosões, acidentes e perseguições estabelece uma coreografia de precisão que encontra no 2D uma elasticidade impossível para a carne humana.

A sacada adicional está em fazer dessa tradição uma arma contra o próprio mundo empresarial que quase sepultou o filme. Finalizado ainda em 2023, o longa chegou a ser descartado pela Warner Bros. Discovery durante sua política de reestruturação financeira e só encontrou uma saída comercial após ser negociado com a Ketchup Entertainment. É uma ironia difícil de superar: uma comédia sobre um pequeno consumidor tentando responsabilizar uma corporação por produtos que sistematicamente o destroem quase foi destruída pela corporação que a produziu. “Coyote vs. Acme” passa, assim, a carregar nas costas uma história industrial que potencializa cada piada de seu julgamento.

Will Forte mergulha nesse espírito como se também fosse feito de tinta. Kevin Avery cai, tropeça, desespera-se, volta a levantar e estabelece com Coyote uma dupla de fracassados tão afetuosa quanto engraçada. John Cena, como Buddy Crane, advogado da Acme, explora com inteligência o contraste entre seu físico monumental e a infantilidade arrogante da personagem. Lana Condor completa o núcleo humano como Paige. Mas é quando homens e desenhos deixam de obedecer às fronteiras entre seus respectivos mundos que Green encontra o território no qual “Uma Cilada para Roger Rabbit” e “Space Jam” deixaram algumas de suas melhores sementes.

Há ainda um prazer suplementar para o público brasileiro: a dublagem. Sob direção de Ulisses Bezerra, a versão nacional recupera vozes que fazem parte da memória afetiva dos “Looney Tunes”. Alexandre Moreno injeta graças em Pernalonga e transforma cada intervenção do coelho numa pequena injeção de ânimo para quem se delicia com os gigantes da voz. Márcio Simões está associado a Patolino, Manolo Rey a Gaguinho, Mauro Ramos a Frangolino, Ricardo Juarez a Taz e Marize Motta à Vovó, enquanto Felipe Grinnan assume o Kevin Avery de Forte, Reginaldo Primo dubla John Cena e Flora Paulita fica com Lana Condor. O trabalho de Luiz Feier Motta como locutor adiciona outra camada de sabor a essa arqueologia sonora.

Por baixo da pirotecnia, portanto, existe uma ideia feroz: quem controla uma propriedade não controla necessariamente aquilo que ela significa. Os “Looney Tunes” pertencem juridicamente a uma empresa, mas sua alma vive na insolência, no mau comportamento e na recusa em obedecer. “Coyote vs. Acme” entende essa contradição e faz dela combustível. Depois de quase nove décadas perseguindo o Papa-Léguas sem sucesso, Wile E. Coyote finalmente encontra uma vitória. Não apanha seu rival. Faz algo potencialmente mais subversivo: leva uma corporação ao banco dos réus.

Nada do que James Gunn fez na DC até agora se compara à delícia do que faz nesse tributo aos clássicos WB, por melhor que o seu "Esquadrão Suicida" (2021) tenha sido. É uma produção - e um trabalho de aporte dramatúrgico - que se pauta pela liberdade mais radical.