Sexo verbal
Documentarista magistral, vide "Ilha das Flores" (1989) e "Mercado de Notícias" (2014), Jorge Furtado defende a tese que "uma palavra pode valer mais do que mil palavras, quando usada com ironia", conforme declarou no seminário online Na Real Virtual, em 2020. Foi a forma de defender o uso quilométrico de verbos, substantivos, adjetivos e advérbios em sua escrita de roteiro, que não abre mão da causalidade (todo acontecido em cena tem uma razão; toda ação terá uma reação).
"Muito Prazer", seu novo filme, xará de uma obra-prima de David E. Neves, chega a um paroxismo em sua verborragia ao usar palavreados para sublimar o sexo, nestes tempos onde tudo se digitaliza (até a transa), condenando (perigosamente) o tesão a um plano supérfluo.
Neste sentido, esta sua ligeira comédia serve (mais) como um alerta do que como um exercício de riso. Envelopado numa sagaz direção de arte de Fiapo Barth e Dayane Paz (seu aspecto técnico mais notável), o enredo de Furtado segue o empenho de reinvenção de Rubem (Daniel de Oliveira), um fracassado em um pau pra dar no gato, que herda um motel falido, o Pérola. Ao conhecer a ex-funcionária Grace (Luisa Arraes), que ficou morando numa das suítes quando a hospedaria fechou, e a bamba da web Nalva (Samantha Jones), eles armam um plano para sair o atol, criando vídeos para sites eróticos. O esquema se torna rapidamente lucrativo, até tropeçar no perigo. Giba Assis Brasil monta esse rol de tropeços com engenhosidade, com atenção ao fluxo verbal nas "furtadices" de Jorge. Na direção de fotografia, Lívia Pasqual acha um tom lívido de luz para a arquitetura narrativa que o veterano cineasta lhe entrega ao pensar as práticas sexuais deixando o desejo de lado. É um estado de coisas que nos acossa. O longa levanta essa preocupação, colocando-a em debate.