Aos pés de La Binoche
Diva francesa que brilhou na Berlinale deste ano com 'Queen At Sea' lança enfim, em telas nacionais, seu primeiro experimento na direção: o ensaio 'In-I Motion'
Cerca de onze meses depois de mobilizar o público do Odeon, aqui na Cinelândia, Juliette Binoche finalmente vê chegar ao circuito brasileiro "In-I In Motion", seu primeiro filme como realizadora. Ele foi feito a partir da experiência de criação de um espetáculo de dança com o britânico Akram Khan. A atriz francesa, que esteve no Festival do Rio de 2025 para apresentar esse ensaio documental, ensaia agora (de longe) um (re)encontro com o público brasileiro depois de um 2026 em que também brilhou na Berlinale como protagonista de "Queen at Sea".
Esse drama dirigido por Lance Hammer é fotografado pelo paulista Adolpho Veloso, diretor de fotografia indicado ao Oscar por "Sonhos de Trem". O longa britânico levou o Urso de Prata do Júri em Berlim, enquanto Binoche dividiu a cena com dois veteranos de atuações de doer na alma: Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay. "Existem imagens do cinema brasileiro que eu guardo comigo. Walter Salles, por exemplo, é um diretor de que gosto muito, pois eu nunca esqueço do plano de abertura de 'Central do Brasil'. Ele gosta de gente e sua arte reflete isso", disse Binoche, que aos 62 anos já soma quatro décadas de carreira e foi premiada com o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por "O Paciente Inglês", em 1997. "Eu amo todas as formas de arte, pois artisticamente eu posso conhecer melhor a condição humana".
A relação com o Brasil ganhou significado especial depois de sua passagem pela presidência do júri Cannes, em 2025, quando "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, recebeu os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator (dado para Wagner Moura). Sua visita ao Festival do Rio do ano passado, no entanto, tinha como principal motivo outro marco de sua carreira. "In-I In Motion" nasceu de uma experiência iniciada em 2007, quando Binoche se uniu ao bailarino e coreógrafo britânico Akram Khan para criar um espetáculo de dança. Ele se chamava "In-I". Durante seis meses, os dois desenvolveram uma performance que cruzava dança, teatro e movimento e que posteriormente foi apresentada cerca de 100 vezes em diferentes países.
O filme revisita esse processo criativo a partir de dezenas de horas de imagens de ensaios e apresentações. A proposta é registrar não apenas o resultado da performance, mas as dúvidas, os riscos e a vulnerabilidade envolvidos na construção de uma obra artística.
A primeira versão de "In-I In Motion" foi exibida no Festival de San Sebastián, fora de competição, mas Binoche decidiu continuar trabalhando no material.
"Preciso confessar que, após San Sebastián, cortei 30 minutos do que havia apresentado lá, por sentir que o filme estava longo. O que vocês verão aqui é uma versão nova de uma narrativa que se guia pela sensação", contou ao Correio. "Eu sigo trabalhando no material em busca de sua verdade".
A ideia de transformar aquela experiência em cinema surgiu, em parte, por sugestão de um espectador ilustre. "Quando fizemos uma apresentação em Nova York, Robert Redford foi nos assistir e disse: 'Faça um filme'", recordou. Binoche tinha à disposição registros dos ensaios e decidiu partir daquele material. "Tínhamos vídeos dos ensaios e partimos deles, trabalhando ainda com filmagens dos últimos shows. Nosso desafio era dar uma forma para o que tínhamos. Se a ideia é fazer cinema, um artista precisa ser ele mesmo, ter sua voz".
A montagem procura fazer do próprio ato de criação o assunto central. O reencontro com as imagens, 16 anos depois da criação do espetáculo, permitiu à atriz e agora diretora observar de outra maneira a intensidade daquela colaboração. O filme acompanha a dupla desde a primeira inspiração até a apresentação diante do público, explorando a mistura de medo, desejo, humor e descoberta que acompanha qualquer processo artístico.
Produzido por Binoche e Sébastien de Fonseca, "In-I In Motion" também marca uma nova etapa na carreira da atriz, que passou a experimentar o cinema a partir de uma posição diferente daquela que ocupou durante décadas diante das câmeras. O longa teve sessões em festivais internacionais e ganhou distribuição mundial pela mk2 Films.
A experiência, para Binoche, não representa um afastamento da atuação, mas uma ampliação de seu campo de criação. Ao transformar em cinema uma parceria artística construída quase duas décadas antes, ela investiga justamente aquilo que sempre esteve no centro de sua trajetória: nossos dilemas existenciais.