Alex Nader: 'Não quero só fazer entretenimento, também quero denunciar'
Quem passou pela plateia de "A Paz Perpétua", montagem de Aderbal Freire-Filho para um texto de tom filosófico de Juan Mayorga, encenado país adentro há cerca de uma década, há de reconhecer o latido machucado do cão Cassius em toda a (boa) atuação feita por Alex Nader depois daquele inesquecível espetáculo. Não é questão de estar preso a um personagem. Já faz tempo que Cassius cantou... ou melhor, latiu para subir. A questão é estar atento às violências do mundo. Nader está.
Sempre está. Não por acaso, alia-se, sempre que pode, a projetos que esquartejam as entranhas mais imundas do pacto colonial eurocêntrico, como "Migrantes" e "Para Meu Amigo Branco", peças em que implodia no palco. Noutras mídias, seu repertório é também pontuado de trabalhos reflexivos. Inunda o obturador da câmera com seu gestual seja na linha mais pop do audiovisual (vide a série "DNA do Crime" ou a novela "Dona de Mim", em que cruzou sets com sua amada na vida real, a atriz Aline Borges) ou em expressões fílmicas de toada mais radical, como o longa-metragem "Pele de Rinoceronte".
Um dos seis concorrentes ao Kikito de Ficção do recém-encerrado Festival de Gramado, esse filme, dirigido pelo produtor Marcello Ludwig Maia, discute feminicídio ao revisitar a morte da modelo Ângela Diniz (1944-1976), assassinada pelo tóxico Doca Street (1934-2020) na década de 1970. Nader é quem interpreta Doca, embora sem usar esse nome. Trabalha com a persona dele. Investiga pecados.
A afinação com enredos politicamente alertas não impede que Nader diga "Sim!" para pipocas que, eventualmente, pipoquem em seu caminho, à espera de um (bom) ator como ele para seus elencos. Paralelamente, esse Burt Lancaster de Vicente de Carvalho dá uma guinada para produções internacionais, firmando seu rastro em trabalhos que investiguem mazelas não só do Brasil, mas das Américas. No papo a seguir, esse intérprete que sacode teatros, mas leva a vida numa nice, na discrição típica de quem nasceu para ser grande, compartilha com o Correio da Manhã as migrações e as mirações em seu porvir.
Paralelamente à sua passagem com "Pele de Rinoceronte" por Gramado - um festival, que, historicamente internacionaliza nossas produções pela América hispânica -, você atuou em um thriller estrangeiro. Que projeto é esse, de onde é e como foi rodá-lo?
Alex Nader - É um filme que fiz no Paraguai. Ele se chama "Golpe". É um trabalho com o Nico García (um astro e agora também diretor Nicolás García Hume, conhecido por "7 Caixas"), que também está na série "DNA do Crime". Ele trabalha com a diretora argentina Romy Tamburello. A história se passa quando acaba a ditadura paraguaia, ali pelo fim dos anos 1980. Tudo acontece durante uma festa, que termina em uma grande chacina. É um filme sanguinolento, numa linha que lembra Quentin Tarantino.
Há um perfume de reflexão política. Em seu debate sobre feminicídio, "Pele de Rinoceronte" se alinha com o ethos combativo do repertório que você estrela no teatro, marcado por textos que apostam na denúncia... e das mais variadas violências sociais. De que maneira essa linha temática amplia a tua lucidez em relação à nossa sociedade?
Desde cedo, eu senti que aquilo ali era o lugar mais bacana de estar como artista. Não quero só fazer entretenimento, também quero denunciar. Quando a gente joga isso no universo, ele entende, e esses trabalhos vão chegando naturalmente. Eu foco nisso principalmente no teatro, porque ainda é o lugar onde temos mais liberdade de escolha. Quando papéis dessa natureza também chegam no audiovisual, é um presente.
O que "Pele de Rinoceronte" representa dentro desse caminho que você escolheu?
A grande importância desse filme está em denunciar essa falácia de que o feminicídio seria cometido por amor. Sempre se falou: "o cara mata por amor". Acho que esse filme permite que a gente olhe para isso e entenda que não. Amor não mata, o que mata é ódio. Como artista, eu me sinto muito feliz de poder contar histórias que fazem o público refletir sobre a nossa sociedade e sobre tudo o que precisamos mudar.
Qual é o maior desafio para quem vive de atuar no Brasil?
É não saber o dia de amanhã. Isso é impressionante. Faço 50 anos este ano, em novembro, e ainda não entrei nessa vida que a rede social cria como uma espécie de ilusão. Eu não emendo um trabalho no outro. A dificuldade está em conseguir se manter trabalhando o tempo todo. Faço uma série durante cinco meses e depois fico outros cinco sem trabalho. Aí faço uma peça, ela roda por um período... e, quando acaba, tudo volta a ser incerteza. É muita gente para pouco trabalho, para pouco espaço. Então, a grande dificuldade da profissão é conseguir constância e emendar um trabalho no outro, sem brechas. Essa é a minha busca: preciso parar de ter férias, pelo menos, essas férias que o mercado impõe, com seus hiatos.
Além do cinema, você pretende voltar ao teatro?
Planejo voltar aos palcos com "O Âncora", o monólogo que fiz. Acredito que, nos próximos dois ou três meses, vou estar em algum lugar com ele.
E o que mais vem pela frente?
Além de "Pele de Rinoceronte", tem a terceira temporada de "DNA do Crime", que a gente já gravou e estreia em janeiro. É uma série de muito sucesso na Netflix, e Isaac, meu personagem, já começou a me abrir portas internacionais, como é o caso de "Golpe" e eu já tenho outro projeto lá no Paraguai.