Kikito de melhor riqueza regional
Vitória de 'Nosso Segredo', que estreia nesta quinta, mostra a luta de Gramado para romper com a hegemonia do eixo Rio x SP, coroando ainda um encantador ensaio afetivo do Ceará
Um dos filmes mais aclamados do Festival de Gramado de 2025, "Querido Mundo", de Miguel Falabella e Hsu Chien Hsin, segue inédito em cartaz, um ano depois de sua consagração, após quicar com elegância pela Mostra de Tiradentes (MG) e pelo Festival de Cinema Brasileiro de Paris. Já os concorrentes aos longas-metragens de ficção deste ano parecem ter melhor sorte na caça a circuito, contando com distribuidoras de peso (tipo Vitrine. Downtown, Imovision) ou com data agendada para estrear. É esse o caso de "Nosso Segredo", de Grace Passô.
Coube a esse drama de pavimento antirracista, com elementos de fantasia, o Kikito de Melhor Filme de Ficção da 54ª disputa gramadense. A vitória chegou às vésperas de seu lançamento, que ocorre nesta quinta-feira. É primeira narrativa das Gerais, com voz autoral de Minas no comando, que vence o evento gaúcho. Antes dela, só "Cabaret Mineiro" (1981), de Carlos Alberto Prates Correia (1941-2023).
O mesmo Prates, cria de Montes Claros, voltou a ganhar o deus-sol dos Pampas em 2007. Nessa data, contudo, sua vitória se deu por um ensaio documental: "Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais". Em 2022, Gabriel Martins, lá de Contagem, atropelou a rotina gaudéria com seu lúdico "Marte Um", vindo de Sundance. Mas não ficou no topo do pódio. Perdeu para o thriller acreano "Noites Alienígenas". Essa "perda" deve ser um bocado amortizada, pois o que se passou ali foi uma sucessão de galardões pra territórios distantes do eixo (dito) hegemônico RJ x SP. Em 2024, foi a vez de "Oeste Outra Vez", de Goiás, e, em 2025, o protagonismo ficou com Cuiabá (MT), após a gloriosa campanha de "Cinco Tipos de Medo". Desta vez, o barato de Grace simbolizou o maior barato para toda a polifonia de MG.
Estado que gerou gênios a granel (de Humberto Mauro a André Novais Oliveira), Minas anda criando uma nova estética... uma tal de "estética do menos" (que é mais) para enquadrar a brasilidade a partir de enquadramentos que contemplam, que autopsiam dilemas em corpos vivos, que transcendem os vetores do trabalho numa terra de montanhas, como os cults "Arábia" (2017) e "O Dia Que Te Conheci" (2023). Nesse ínterim, uma fortíssima cena de cunho decolonial se desenhou ali, a devassar o racismo. Numa das sequências mais tocantes de "Nosso Segredo", o filho jovem adulto de uma família em luto pela perda do patriarca lamenta a forma preconceituosa como foi tratado num hospital. Ao cair de uma escada, enquanto grafitava uma parede, o rapaz é hostilizado pela atendente, que o trata como se ele fosse uma presença recorrente ali na emergência, confundindo-o com muitos outros moços que, por serem negros, aos olhos intolerantes dela, parecem todos a mesma pessoa. Um marginal.
Grace faz essa denunciar com delicadeza. Parte da peça teatral "Amores Surdos", um texto de autoria da própria Grace. Produzido por Ricardo Alves Jr., este inventário de cicatrizes, com um pé na fábula, foi o último dos seis longas de ficção da competição oficial gramadense a ser exibido. E foi o único a ser acolhido com o grito de "Bravo!".
A fotografia dionisíaca de Wilssa Esser assegura um aspecto crepuscular ao enredo que mistura finitude, recomeço e perenidade. Nele, uma família que tem vivências variadas do racismo e de outros mecanismos de exclusão luta para reconstruir sua rotina após a perda recente da figura paterna. Enquanto cada um dribla a dor à sua maneira, o filho caçula guarda um mistério que transcende as bordas do realismo.
Paralelamente ao cortejo de Minas pelas telas do Sul, o Ceará soltou rojões em Gramado ao contabilizar quatro Kikitos e uma menção honrosa em Gramado com "Feito Pipa". Sete anos após os êxitos a granel de seu "Pacarrete" (2019), Allan Deberton testou e comprovou o quão forte pode ser a adesão de seus compatriotas ao longa que lhe valeu o Urso de Cristal em solo alemão em fevereiro. A saga do menino de 11 anos queer Gugu (Yuri Gomes) para debelar a homofobia de seu pai fechou corações. Levou o troféu do Júri Popular como evidência de seu poder para cativar plateias. Tem a Paris Filmes (hoje uma das maiores distribuidora das três Américas) para desenhar seu futuro. A presença de Lázaro Ramos no elenco, como a sombra paterna que rondeia Gugu, amplia sua visibilidade.
Potencial blockbuster, "Chorão, Só Os Loucos Sabem", que premiou José Loreto, por sua forma devastadora de encarnar o líder do Charlie Brown Jr., fica para 2027. Antes, agora em 3 de setembro, quem pede passagem pelas telonas é "Gonzaguinha, Da Maior Liberdade", o Melhor Documentário de Gramado, que faz Susanna Lira galgar outro patamar de prestígio, ao dialogar com a mecânica das narrativas musicais de não ficção.
Tudo indica que, em outubro, a Mostra de São Paulo vai projetar "Justino - Nos Bastidores da Fé", drama biográfico com voltagem de thriller, dirigido por José Eduardo Belmonte. Ele e André Finotti assinam juntos a montagem, numa covalência de edição capaz de eletrizar as vivências do ex-pastor Mário Justino, um pregador ludibriador por bispos corruptos. Seu meio de desafiar os ranços religiosos faz com que a direção flagre os males do neopentecostalismo.
Essa edição feérica foi laureada, assim como o desempenho de seus atores Christian Malheiros e Onna Silva. Seus troféus consolidam uma reação do cinema à bestialidade da jihad que nos divide, com a ação de crentes que se filiam a falsos Messias.
Todo esse simbolismo expõe o vigor da equipe curatorial de nosso festival mais pop.