O que o Kikito sorri para 'Nosso Segredo'?
Ao sair do Palácio dos Festivais de Gramado, na noite de sábado, comemorando a conquista do Kikito de Melhor Filme dado a “Nosso Segredo”, que produziu para a amiga Grace Passô e que estreia nesta quinta-feira, Ricardo Alves Jr. chamou o Correio da Manhã num canto e cochichou vitorioso: “Sabe há quantos anos um filme de Minas, dirigido por artista mineiros, não vence este festival?”. Pelas contas do produtor (e também diretor), as Gerais não descem a Serra Gaúcha com a estatueta mais cobiçada da maratona cinéfila do RS, por uma ficção, desde 1981. Nessa data a vitória foi de “Cabaret Mineiro”, de Carlos Alberto Prates Correia (1941-2023). O mesmo Prates, egresso de Montes Claros, voltaria a vencer a competição pelo deus-sol dos Pampas em 2007. Nessa data, contudo, sua vitória se deu por um ensaio documental: “Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais”. Em 2022, Gabriel Martins atropelou a rotina gaudéria com seu lúdico “Marte Um”, vindo de Sundance. Mas ficou no topo do pódio. Perdeu para o thriller acreano “Noites Alienígenas”. Essa “perda” deve ser um bocado amortizada, pois o que se passou ali foi uma sucessão de galardões pra territórios distantes do eixo (dito) hegemônico RJ x SP. Em 2024, foi a vez de “Oeste Outra Vez”, de Goiás, e, em 2025, o protagonismo ficou com Cuiabá (MT), após a gloriosa campanha de “Cinco Tipos de Medo”. Desta vez, o barato de Grace simbolizou o maior barato para toda a polifonia de MG.
Estado que gerou gênios a granel (de Humberto Mauro a André Novais Oliveira), Minas anda criando uma nova estética... uma tal de “estética do menos” (que é mais) para enquadrar a brasilidade a partir de enquadramentos que contemplam, que autopsiam dilemas em corpos vivos, que transcendem os vetores do trabalho numa terra de montanhas. Não bastasse isso tudo, ainda há uma fortíssima cena decolonial a se desenhar ali, que devassa o racismo. Numa das sequências mais tocantes de “Nosso Segredo”, o filho jovem adulto de uma família em luto pela perda do patriarca lamenta a forma preconceituosa como foi tratado num hospital. Ao cair de uma escada, enquanto grafitava uma parede, o rapaz é hostilizado pela atendente, que o trata como se ele fosse uma presença recorrente ali na emergência, confundindo-o com muitos outros moços que, por serem negros, aos olhos intolerantes dela, parecem todos a mesma pessoa. E uma pessoa marginal.
Grace faz essa denunciar com delicadeza. A delicadeza que é possível a uma população com tantas cicatrizes, como o povo preto, alvo de exclusões desde a escravidão. Uma das atrizes de maior prestígio do teatro e do cinema brasileiro no século XXI, famosa pela trajetória nacional da peça “Vaga Carne”, a também dramaturga Grace se consolida, pós-Gramado, em um novo front: o da realização. Na Serra Gaúcha, seu trabalho com a equipe e o elenco se fez encher de elogios. Seu “Nosso Segredo” foi o filme de maior impacto da competição de Gramado, em 2026. Não houve boca, em solo gaúcho, que não elogiasse o drama de trilha sonora estonteante (composta por Amaro Freitas) esculpido entre luto, lágrimas e lama (ligada a um surpreendente signo animal) a partir de reescrita de “Amores Surdos”, texto teatral de autoria da própria Grace. Produzido por Ricardo Alves Jr., este inventário de cicatrizes, com um pé na fábula, foi o último dos seis longas de ficção da competição oficial gramadense a ser exibido. E foi o único a ser acolhido com o grito de “Bravo!”.
A fotografia dionisíaca de Wilssa Esser assegura um aspecto crepuscular ao enredo que mistura finitude, recomeço e perenidade. Nele, uma família que tem vivências variadas do racismo e de outros mecanismos de exclusão luta para reconstruir sua rotina após a perda recente da figura paterna. Enquanto cada um dribla a dor à sua maneira, o filho caçula guarda um mistério que transcende as bordas do realismo.
“O ‘para sempre’ para mim são memórias, são afetos comungados, são nossos ancestrais... os mestres que prepararam o meu mundo para o que virá. A ideia de ‘para sempre’ tem a ver com afeto. A morte é a vida... é ‘O’ assunto da vida”, disse a atriz, laureada com o troféu Redentor do Festival do Rio duas vezes, por suas interpretações em “Praça Paris” (2017) e em “O Dia Que Te Conheci” (2023). “As vidas negras no nosso país são a maior prova de que o afeto e a admiração entre os integrantes de uma família é o que faz as pessoas resistirem e seguirem em frente”.
As frases acima foram colhidas pelo Correio da Manhã durante um encontro com Grace na 76ª Berlinale, em fevereiro, onde Grace exibiu “Nosso Segredo” pela primeira vez, na mostra competitiva Perspectives. Na sequência, o filme foi para o Bafici, em Buenos Aires.
No próximo dia 27, o longa entra em cartaz, agora carimbado com o respeito do Kikito.