Gramado espalha 'Nosso Segredo' à posteridade
Filme de estreia da atriz mineira Grace Passô como diretora vence o festival mineiro, que põe 'Nosso Segredo' para voar com múltiplos Kikitos
Deu Grace Passô na cabeça no 54º Festival de Gramado: a atriz mineira ganhou o Kikito de Melhor Filme por "Nosso Segredo", seu primeiro longa-metragem como diretora, que estreia nesta quinta-feira (27) no circuito exibirdor. "Tô feliz, tô honrada, é muito tempo e é o prêmio que eu mais queria, pois é o que mais explicita a força coletiva", disse Grace.
Escalada faz pouco para representar o Brasil na briga pelo prêmio Horizontes Latinos de San Sebastián, na Espanha, em setembro, como protagonista de "A Professora de Francês", Grace foi festejada por muitos que subiram ao palco do Palácio dos Festivais a fim de serem premiados. O júri não esqueceu de seu lindo trabalho, um drama decolonial em tons fantásticos. "Nosso Segredo" ganhou ainda os Kikitos de Melhor fotografia e de Melhor Direção de Arte. Vista já no exterior, ao ter passado na Berlinale, na Alemanha, onde esteve na mostra competitiva Perspectivas, a trama fala da batalha de uma família abalada pela morte do patriarca. O luto ali é sacolejado por elementos sobrenaturais que se conectam com os fantasmas da opressão ao povo preto.
"Tenho uma espécie de pacto comigo mesma: fui passando por várias funções — comecei como atriz, depois fui estudar, dirigir, escrever — sempre guiada por uma intuição, por imagens e formas que surgem na minha cabeça", explicou Grace ao Correio da Manhã, no Bafici, em Buenos Aires, ao fim de sessões lotadas de "Nosso Segredo".
Coroado com o Urso de Cristal na Berlinale, lá em fevereiro, enquanto aqui era carnaval, "Feito Pipa" seguiu jogando confete para a vida, estrada afora, até chegar ao 54º Festival de Gramado, em que virou "A" coqueluche. Ganhou a láurea do júri popular e deu um Kikito ao cineasta cearense Allan Deberton. Houve ainda menção a sua razão de ser, Yuri Gomes. O menino de 11 anos dá vida ao craque de bola Gugu, cuja identificação com a cultura queer lhe cria problemas na escola e na casa do pai. Por sorte, sua avó, Dilma, é um quindim com ele. E sua intérprete, Teca Pereira, brilha no papel. E o Palácio dos Festivais de Gramado foi abaixo quando Teca foi anunciada como vencedora - por unanimidade - pelo jeito como celebra o viver e o amor ao neto, no papel de Dilma. "Obrigada Deus, por me manter com saúde e energia para chegar até aqui. São 49 anos de carteira e 74 de idade", agradeceu Teca no palco.
Antes dela, um dos astros mais amados do país, Lázaro Ramos, que vive o pai homofóbico (em desconstrução) de Gugu, foi chamado ao palco para buscar o Kikito de Coadjuvante. "É um prêmio pelo encontro", disse Lazinho, ao inaugurar o rol de conquistas de "Feito Pipa". "É difícil a gente se olhar. É difícil a gente se celebrar. É bom quando você encontra alguém que você admira, como o Allan, e ele surpreende."
Caixinha de surpresa, o prolífico cinema de José Eduardo Belmonte ("Alemão") já rendeu ao cinema algumas joias ("Gorila", "Se Nada Mais Der Certo") em sua imparável produtividade, ao devassar códigos morais de uma sociedade craque em ser hipócrita. Só não se esperava que ele devassasse com fúria o neopentecostalismo brasileiro – indo aos intestinos do sistema digestivo das crenças evangélicas – com a contundência que faz em "Justino – Nos Bastidores do Reino". Ele abriu o placar de Gramado. Ganhou o primeiro Kikito da noite, o de Melhor Montagem, dividido entre Belmonte e Ivan Finotti. Pouco depois, foi agraciado com o Kikito de Melhor Ator, dado a Christian Malheiros, por um visceral desempenho. E teve ainda menção para a atriz trans Oona Silva, que encara uma travesti fundamental na luta por pessoas que vivem com HIV, no exterior.
É uma adaptação dos relatos literários do ex-pastor e escritor são-gonçalense Mário Justino, vivido por Malheiros. Mais frenético do que em seu discurso fílmico habitual, Belmonte usa um nome fictício para falar da Igreja Universal e transforma um Caio Blat na raia do assombro num alter ego de Edir Macedo. Ao cair nas lábias de pegadores, num momento de selvagem segregação entre os racistas de sua escola e de cansaço em relação à brutalidade de seu pai (Antonio Pitanga), Justino encontra abrigo na Palavra de Nosso Senhor. Seu erro foi se deixar encantar por uma pregação capitalista da Bíblia. "Trabalho na chave da escuta", disse Malheiros.
Estudo crítico de um câncer social em metástase, que é o mal do feminicídio, o thriller "Pele de Rinoceronte" calou muitas bocas e estatelou olhares ao passar por Gramado. Ali, sob a direção de um quase estreante, Marcello Ludwig Maia (produtor com 30 anos de experiência e de sucesso, que era virgem na realização até o último domingo, quando o filme estreou), Naruna Costa encontra na palavra uma espécie de arma, o que lhe deu a láurea de Melhor Coadjuvante. Faz dela um instrumento contundente para debelar o machismo e a bestialidade do feminicídio. "Este Kikito representa uma vigança contra às violências que levaram as mulheres ao silêncio, por tanto tempo", disse Naruna, sob uma ovação.
Em estado de graça, ela interpreta uma advogada que, em 1976, assume a tarefa de ser a voz de acusação contra um ricaço que assassinou a tiros a namorada (ou seja, Doca Street e Ângela Diniz, cujos nomes não são mencionados). Sua angústia, diante do preconceito que há de sofrer por ser uma mulher preta de toga, é compartilhada com o marido jurista (Irandhir Santos). Tem ainda uma jornalista na cola dessa tragédia, interpretada por Débora Falabella em estado de graça.
Com CEP em Natal (RN), "Leite em Pó", primeiro longa de ficção de Carlos Segundo, foi a trama mais avessa a fórmulas entre os concorrentes ao Kikito. Não à toa, levou a láurea de Melhor Roteiro. No filme de Segundo, Vinícius Oliveira (o Josué de "Central do Brasil", hoje um quarentão) interpreta um homem de 40 anos, criado pela avó e fechado num universo particular dominado pelo rock, que precisa sair da zona de conforto â força de uma tragédia familiar.
A aspereza da narrativa, com jeitão de Wim Wenders (em "Paris, Texas") garantiu ainda o Kikito de som ao craque Waldyr Xavier. Para coroar ainda mais sua aura de boa sorte, rolou o Prêmio da Crítica para Segundo. "Esse filme é feito entre três estados, São Paulo, Minas e Rio Grande do Norte, onde vivo", diz Segundo, que leciona na UFRN. "É um filme que fala sobre o sentimento de ausência".
Concorrente que mais (e pior) sofreu nas mãos da ala mais casmurra da crítica, o biopic "Chorão – Só Os Loucos Sabem" encontrou abrigo na risada vitoriosa do Kikito. O capeta que José Loreto tira de seu corpo ao interpretar o vocalista do Charlie Brown Jr. foi salpicada com uma estatueta, num empate com Malheiros. Coube ainda um prêmio de Melhor Trilha Sonora à produção. Hugo Prata e Felipe Novaes assinam a direção da saga do músico Alexandre Magno Abrão (1970-2013), mais conhecido pelo seu nome artístico Chorão foi um cantor, rapper, compositor, skatista, cineasta, roteirista, empresário e músico brasileiro. É José Loreto quem dá vida a ele, numa produção que segue o acorde do premiado "Elis" (2016), driblando controvérsias, com foco num retrato afetivo. "Eu dormia e acordava Chorão", disse Loreto.
No campo de excelência do documentário, o lírico "Gonzaguinha, Da Maior Liberdade" fez com que uma das mais potentes grifes autorais do Brasil, Susanna Lira, saísse do Rio Grande do Sul com o Kikito. Ela venceu como Filme Documental por seu retrato de um poeta que cantou a resistência em tempos de ditadura e em tempos de democracia. "O documentário é a minha residência fixa", disse Susanna.
Na praia da não ficção, foi designada uma distinção, em forma de menção honrosa, para o fluxo em forma de transe que constitui "Empeleitada" (PE). Esse experimento metafísico de Micaele Xukuru, Chico Ludermir e Sergio Borges segue a construção coletiva de uma casa de taipa uma forma de dar corpo à memória do povo indígena Xukuru. Uma morada nascida da terra, da luta e dos encantados, o curta transforma o gesto de construir em ato de permanência.
Na disputa de curtas, a vitória foi da crônica de uma metrópole aberta a riscos batizada "(Shibal)", escrita e realizado por João Rubio Rubinato. Rodado em 16mm no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, o filme apresenta uma trama tragicómica sobre o caos urbano a partir de um dia na vida do gravurista Tom, interpretado por Tavinho Teixeira. Houve um outro curta que pôs o festival no bolso: "Pão Doce", de Wesley Gabriel Silva Santos. A atuação de Francisco Gaspar, no papel de um padeiro que luta para poder celebrar o aniversário da filha, foi coroada com uma láurea de Melhor Interpretação. A realização de Wesley foi premiada também.
Terminado Gramado, as atenções do cinema nacional se voltam para o Festival de Brasília, que rola de 11 a 19 de setembro, no Distrito Federal.
OS PREMIADOS DE GRAMADO
Melhor Filme: "Nosso Segredo"
Júri Popular: "Feito Pipa"
Melhor Direção: Allan Deberton, por "Feito Pipa"
Melhor Documentário: "Gonzaguinha, da Maior Liberdade", de Susanna Lira
Melhor Atriz: Teca Pereira, por "Feito Pipa"
Melhor Ator: Christian Malheiros, por "Justino: Nos Bastidores do Reino", e José Loreto, por "Chorão: Só Os Loucos Sabem"
Melhor Atriz Coadjuvante: Naruna Costa, por "Pele de Rinoceronte"
Melhor Ator Coadjuvante: Lázaro Ramos, por "Feito Pipa"
Melhor Roteiro: Carlos Segundo e Rafael Copel, por "Leite Em Pó"
Melhor Fotografia: Wilssa Esser, por "Nosso Segredo"
Melhor Direção de Arte: Lucas Osório, por "Nosso Segredo"
Melhor Montagem: André Finotti e José Eduardo Belmonte, por "Justino: Nos Bastidores do Reino"
Melhor Trilha Musical: Otávio de Moraes, por "Chorão: Só Os Loucos Sabem"
Melhor Desenho de Som: Waldyr Xavier, por "Leite Em Pó"
Menções honrosas: para o .doc "Empeleitada"; para Yuri Gomes, ator mirim de "Feito Pipa"; e para Oona Silva, atriz de "Justino: Nos Bastidores do Reino"
Prêmio da Crítica: "Leite Em Pó"