'Gonzaguinha' explode corações - e fronteiras documentais - em Gramado
Inflamável, “Gonzaguinha, Da Maior Liberdade” incendiou o Palácio dos Festivais de Gramado, como já esperava diante do investimento afetivo que o Brasil faz no cantor e compositor citado no título e analisado por Susanna Lira num arranjo narrativo que supera as fórmulas biográficas convencionais do documentário brasileiro, atomizando qualquer resquício de verbete de Wikipedia hoje muito associado ao filão. Faz um tempo que a diretora, a mais prolífica artesã das engenharias de não ficção no país rompeu com as linearidades ortodoxas da geometria da informação para investir nos fractais da poesia Num exercício de genealogia, seu novo (e dilacerante) filme evoca o trabalho da americana Shirley Clarke (1919-1997), a cineasta com quem Susanna mais parece dialogar, no Tempo, na História.
Basta uma frase colhida de uma sabatina da realizadora de “In Paris Parks” (1954) para que se entenda sua conexão com Fernanda Young: “Nunca tive certeza sobre o mundo a que eu pertenço”. Shirley dirigiu 32 filmes entre 1952 (“Jelly Roll Morton”) e 1985 (“Ornette: Made In America”), consagrando-se como um dos pilares do documentário estadunidense. Fez o que se chama de avant-garde, em forma de curtas-metragens, e, como Susanna, galgou a excelência no terreno do .doc biográfico, com “Robert Frost: A Lover’s Quarrel With The Wolrd” (1963) e o magistral “Portrait of Jason” (1967). É o mesmo terreno no qual Susanna, filme a filme, série a série, afirma-se como uma das documentaristas mais indomáveis de nosso país hoje, vide “Nada Sobre Meu Pai” (2023) e “Casão, Num Jogo Sem Regras” (2022).
Seu destaque nos holofotes destinados às gramaticas documentais de Gramado revela uma conexão a mais com a estética perseguida por titãs como Shirley Clarke. A máxima da cineasta americana era: “Todo processo de trabalho que eu desenvolvo é baseado no fluxo do movimento e no ritmo da montagem, numa dualidade de fantasia e realidade que convivem juntas, em toda imagem filmada”. Essa tensão já estava no dialético “Fernanda Young – Forge-me Ao Controle” (2024), que colocou a dinâmica criativa da diretora carioca a um lugar de ensaio, a um jorro que, em "Gonzaguinha", parece tão incontinente quanto o da cabeça do bardo sobre o qual se debruça.
Que o júri gramadense de .docs de 2026 saiba reconhecer um aspecto encantatório dessa produção para concedê-lo (quiçá) uma menção honrosa: o desempenho do ator André Dale encarnando Gonzaguinha numa prática processual de interseção entre documentário e ficção. Dale é a ferramenta que permite uma transcendência aos grilhões da conveniência imposta a um registro cinematográfico que demanda registros de arquivo para existir. O longa de Susanna existe (e resiste) para além deles.
A relação de Susanna com Gonzaguinha, aliás, nasceu muito antes de ela imaginar transformar a obra dele em cinema. Ainda criança, a diretora ouviu “Grito de Alerta” no disco “Mel”, de Maria Bethânia, comprado por sua mãe. A canção ficou como uma espécie de tatuagem afetiva: é a música que Susanna diz cantar sempre que vai a um karaokê, numa catarse que ajuda a explicar a maneira como ela se aproxima do personagem. Não se trata, portanto, de um inventário distante sobre Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior (1945-1991), mas de um encontro pessoal com um artista cuja obra atravessou sua formação. Ao lado de “Grito de Alerta”, ela destaca “Comportamento Geral”, “Cavaleiro Solitário” e “Pequena Memória de um Povo Sem Memória”, canções que ajudam o filme a deslocar seu foco da biografia para o pensamento político e para a autoralidade do compositor.
É justamente aí que “Gonzaguinha, Da Maior Liberdade” encontra sua maior força. Em vez de obedecer à cronologia convencional dos biopics, Susanna investiga o homem por meio de suas ideias, de sua fúria e das contradições que atravessaram sua trajetória. O filme recupera as mais de 52 obras censuradas de Gonzaguinha e observa um artista que se recusou a transformar sua música em instrumento de acomodação. A relação com Luiz Gonzaga também surge sob outra luz: as viagens feitas pelos dois permitiram ao filho compreender melhor o pai, sem a pretensão de doutriná-lo ou modificar suas convicções. O afeto nasce, nesse caso, não da concordância, mas do reconhecimento das diferenças.
A costura desse material é obra fundamental de Ítalo Rocha, responsável pela montagem, que transforma o filme num grande quebra-cabeça lírico de depoimentos, desabafos, arquivos, fotografias e imagens em movimento. Os fragmentos não são simplesmente organizados para preencher lacunas biográficas: eles se chocam, se complementam e criam associações inesperadas. Textos salpicados pela tela, registros televisivos, canções, fotografias íntimas e cenas dramatizadas compõem uma espécie de mosaico em permanente combustão. Rocha assina ainda o desenho de som, ampliando a sensação de que a memória de Gonzaguinha não está sendo apenas reconstituída, mas recriada diante de nossos olhos.
É nesse território híbrido que André Dale assume uma função decisiva. Conhecido por filmes como “Aumenta Que É Rock ‘n’ Roll” (2024), o ator encarna Gonzaguinha na recriação de uma entrevista concedida ao “Pasquim”, reproduzindo gestos, falas e tensões do compositor sem tentar aprisioná-lo numa imitação museológica. A presença de Dale permite que Susanna faça o passado respirar e, sobretudo, embaralha as fronteiras entre documento e invenção. O arquivo comprova; a ficção imagina; a montagem estabelece o diálogo entre ambos.
O resultado é um filme sobre Gonzaguinha, mas também sobre a falta que fazem artistas dispostos a transformar indignação em linguagem. Susanna olha para um Brasil que parece cada vez mais distante daquele compositor que encarava a censura, a fama, o próprio pai e as contradições do país sem anestesiar o discurso. “Gonzaguinha, Da Maior Liberdade” não procura apenas devolver sua imagem ao presente: procura devolver ao presente – e, a partir dele, à Eternidade - a sua coragem.