Latido autoral reabre Gramado paraa Pangeia hispânica
Sensação da Quinzena de Cannes, 'La Perra', da chilena Dominga Sotomayor, com Selton Mello no elenco, revive o tempo em que o festival gaúcho lançava longas estrangeiros
Entre 1992, em meio ao estrangulamento de nossa produção cinematográfica decorrente do fim da distribuidora Embrafilme, e 2019, o Festival de Gramado contou com o aporte hispano-americano, somado a um ou outro concorrente de Portugal ou da África lusófona, para manter suas telas iluminadas sob uma perspectiva cosmopolita.
"El Despertar de Las Hormigas" (Costa Rica), de Antonella Sudasassi Furnis, foi o último título do exterior a vencer o evento. Em seus 27 anos de marcha para o mundo, produções aclamadas lá fora passaram pela Serra Gaúcha, como os peruanos "Pantaleão e as Visitadoras" (em 2000) e "A Teta Assustada" (em 2009), o argentino "O Filho da Noiva" (em 2002) e o uruguaio "Whisky" (em 2004).
Desde a pandemia, houve uma paralização desse tráfego, que, numa contrapartida, assegurava visibilidade para os títulos nacionais em outros países do continente. Em 2026, contudo, graças a uma ajudinha da produtora paulistana RT Features, um filmaço do Chile, premiado em Cannes, em maio, fará sua primeira projeção no Brasil em território gramadense: "La Perra", de Dominga Sotomayor. Selton Mello é parte de seu elenco. A sessão será nesta sexta-feira (21), agendada como exibição de encerramento das atividades da maratona cinéfila do Sul.
"As telenovelas brasileiras foram muito populares no Chile quando eu era jovem. Lembro-me de uma canção de que gostava. Era intuitivo: uma canção brasileira de uma novela", disse Dominga em Cannes. "Depois o Rodrigo (Teixeira, cabeça e coração da RT) perguntou em quem eu estava pensando para compor o elenco. Como ele é brasileiro, sugeriu Selton Mello. Eu disse: 'Claro'. Tinha visto recentemente 'Ainda Estou Aqui', onde ele interpreta o homem que desaparece (o engenheiro e ex-deputado Rubens Paiva). O Selton conhecia o meu trabalho, gostou do argumento e tudo aconteceu de forma muito natural. Foi muito generoso, porque é uma personagem pequena, mas muito central no drama. Ao mesmo tempo, ele é quem é. Foi interessante: ele estava na ilha e ninguém o conhecia. Havia algo quase meta nisso, um ator famoso numa ilha onde ninguém sabe quem ele é".
Um dos filmes mais recentes - e mais potentes - de Dominga, "Limpia", nunca lançado em salas cinemas por aqui, acaba de se instalar na Netflix, ampliando seu prestígio, às vésperas da passagem de "La Perra" por Gramado. A diretora entrou de vez pro time de grandes autoras do cinema latino ao faturar o prêmio de Melhor Direção no Festival de Locarno, em 2018, com "Tarde para Morrer Jovem", longa que também disputou o Leopardo de Ouro representando o Chile, país onde nasceu, em 1986.
"Acho que procuro naturalmente sistemas fechados. É a minha forma natural de tornar o mundo mais pequeno para poder observá-lo. Há também algo ligado à repetição. Os lugares funcionam como um sistema. Existe uma repetição nos planos da natureza, em vez de apenas seguir a personagem", disse a diretora.
No esperadíssimo "La Perra", Dominga assume como protagonista a solitária Silvia (Manuela Oyarzún), que vive em uma ilha remota no sul do Chile, onde resgata uma cachorra filhote. Ela batiza o animal de Yuri, o mesmo nome que escolheria para a filha que nunca teve. Esta união forma um vínculo improvável que força Silvia a enfrentar ressentimentos profundos e revisitar relacionamentos rompidos, incluindo um trauma que se recusa a permanecer no passado.
Depois de Gramado, "La Perra" participa da seleção competitiva espanhola Horizontes Latinos, menina dos olhos do Festival de San Sebastián, no País Basco. "Limpia" começou sua carreira por lá, antes de estrear no streaming. Sua excursão pela Espanha foi ovacionada.
Inspirado no best-seller de Alia Trabucco, "Limpia", que pode ser vista no www.netflix.com, começa com um tom delicado, lembrando aqueles filmes de "Sessão da Tarde" (tipo "Corina") na forma como observa a relação entre adultos e crianças. Ainda assim, vem sendo vendido como thriller psicológico — um rótulo meio forçado, já que o filme transita por vários caminhos. O suspense aparece pontualmente. A pressão se faz notar numa cena envolvendo a mordida de um cachorro e num desfecho que faz eco ao "Parasita" (2019), de Bong Joon Ho, vencedor da Palma de Ouro e de quatro Oscars. A ponte entre os dois está no retrato do trabalho doméstico dentro de uma casa rica — aqui, visto a partir da rotina de uma babá que tenta encontrar algum prazer na própria vida.
Estela, vivida por María Paz Grandjean (num papel que pode colocá-la em outro patamar na carreira), ganha a vida correndo atrás de Julia (Rosa Puga Vittini), uma menina de seis anos cheia de energia, filha de uma família abastada. O pai, médico, vive arrumando justificativas "humanistas" pra suas ausências, sempre apoiado no juramento profissional, o que acaba empurrando Estela a ficar mais tempo no trabalho e adiar a própria vida. Ao mesmo tempo, ela carrega a angústia constante com a mãe idosa, que ficou numa cidade distante. Mesmo assim, cria um vínculo forte com Julia — muito além do que o salário pagaria. No meio disso tudo, ainda encontra algum respiro na presença de um cachorro fujão, Daddú, e no interesse amoroso de um frentista com jeito de galã.
"Já tinha trabalhado com crianças e com cães antes de 'La Perra', mas nesse meu filme mais recente, a cadela era uma personagem principal. E não era uma cadela treinada. Desde o início decidimos que iríamos trabalhar com uma cadela adotada de um abrigo. Encontrámos a Judy. Visitei três abrigos e pensei: "É esta." Adotámo-la com duas pessoas que trabalham comigo com cães, especialistas. Decidimos que seria ela. Agora vive com uma família", diz Dominga, que saiu de Cannes com a Palm Dog, prêmio entregue à sua estrela de quatro patinhas". "Foi interessante esse processo porque os treinadores tinham muita experiência, mas esta cadela era louca, muito jovem, sempre a correr. Fazer um único plano da cara dela era quase impossível, porque estava sempre a se mexer".