Indo embora com vontade de ficar

Por Paula Martinez Mello*

Claudia Jovin fala aompúblico após a exibição de 'Antártida', projeto que idealizou e escreveu, para Gramado

Existem experiências que se prolongam para além do momento que acontecem. Foi assim que deixei Gramado: menos com a sensação de ter participado de um festival de cinema e mais com a impressão de ter atravessado, durante dois dias, um espaço de debates sobre aquilo que uma sociedade escolhe mostrar, esconder, nomear ou silenciar.

Só pude aproveitar dois dias desse festival imenso. É pouco, mas foram suficientes para perceber que o Festival de Gramado é, em si, um primor de organização e acolhimento.

Talentos, artistas, profissionais do cinema e público compartilham uma cidade que se transforma em território de celebração do cinema, que - junto ao entretenimento - reorganiza o nosso olhar sobre a realidade.

Na sexta-feira, assisti à pré-estreia de "Antártida", que chega às salas de cinema em outubro. O filme utiliza elementos do thriller, com ação, suspense e referências ao que conhecemos do cinema internacional, mas seu principal impacto está em outro lugar: na discussão sobre a violência contra as mulheres.

O roteiro de Cláudia Jouvin encontra uma maneira atraente e eficiente de inserir essa discussão dentro da estrutura de suspense, sem transformar o filme em uma tese. A direção de Bruno Safadi acompanha esse caminho, mantendo a tensão própria do gênero enquanto deixa que a questão central ganhe força, organicamente, ao longo da narrativa.

Em determinado momento, a personagem Rose, interpretada por Marina Sena, fala com Inês, vivida por Marina Ruy Barbosa, sobre a necessidade de se despojar de características femininas para sobreviver em um mundo masculino. A conversa ultrapassa a situação específica do filme. Ela sintetiza uma experiência que atravessa diferentes sociedades: a necessidade, tantas vezes imposta às mulheres, de adaptar comportamento, aparência, linguagem e até a própria identidade para ocupar espaços historicamente dominados pelos homens.

A violência contra a mulher não começa no feminicídio. Existe uma cadeia de violências anteriores, muitas vezes naturalizadas, que atravessa o ambiente de trabalho, as relações sociais, a política, a família e a vida cotidiana e nomear essas violências é uma forma de torná-las visíveis.

E aí, chegou "Feito Pipa", de Allan Deberton, rasgando o céu de Gramado. A obra se debruça sobre questões de gênero e sexualidade na infância e, ao mesmo tempo, aproxima temas como velhice, Alzheimer e o lugar das pessoas idosas na sociedade. O filme chegou em Gramado com uma trajetória significativa, depois de receber o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional na mostra Generation Kplus do Festival de Berlim.

Deberton é especialmente cuidadoso ao tratar de temas delicados sem transformar os personagens em meras representações de uma questão social. Há delicadeza, mas também firmeza na maneira como o filme acompanha a infância, os afetos e os conflitos familiares.

Há uma escolha importante na composição do elenco de "Feito Pipa": grande parte do elenco é composta de atores e atrizes negras, mas a questão racial não aparece focada somente sobre o racismo. A própria presença desses talentos em posições de protagonismo produz outra possibilidade de representação. Pessoas negras não precisam estar em cena apenas para representar a violência racial. Podem também protagonizar histórias sobre afeto, infância, família, envelhecimento, doença e identidade.

Ainda sobre "Feito Pipa", o destaque vai para o privilégio que tive de acompanhar uma entrevista com a absoluta Teca Pereira — tão doce e, ao mesmo tempo, tão forte. Teca encarna a Dilma, uma mulher que não nos deixa esquecer que a vida é para ser vivida com brilho, coragem e, de preferência, muita purpurina.

A programação também trouxe o trabalho de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodick, com o documentário "O Projeto", apontando a câmera de maneira contundente para o racismo pelo mundo, mostrando com crueza a construção histórica da desumanização de determinados grupos.

E aí, infelizmente, a minha carruagem virou abóbora... Tive que me despedir do Festival de Gramado com muita dor no coração. Mas a vida é corrida, e a gente aproveita o que pode — e eu curti demais!

Na volta para o aeroporto, dividindo a van com Renan Monteiro e Adélio Lima, atores de "Antártida", a conversa sobre o filme foi, naturalmente, muito além dele. Fomos parar justamente nas questões sociais que a história provoca. Ainda bem!

O cinema é isso também: uma imagem que fica na cabeça, uma cena que volta depois, uma conversa que surge no caminho de volta ou uma pergunta para a qual ainda não temos resposta.

E foi assim que deixei Gramado: com a mala provavelmente mais pesada, o coração apertado por ter ido embora antes da hora, mas a cabeça cheia de filmes, conversas, encontros e perguntas. E com a certeza de que o Festival de Gramado transmite, para quem participa, todo esse amor com que é realizado a cada ano.

De qualquer modo, esse também é um bom jeito de terminar um festival: indo embora com vontade de ficar.

*Jornalista e secretária-executiva do CEDIM (Conselho Estadual dos Direitos da Mulher)