Susanna Lira: 'Gonzaguinha abriu mão de muita coisa para poder seguir a coerência de sua ideologia'
Ficou sob a responsabilidade da mais prolífica documentarista do país, Susanna Lira, a tarefa de dar um desfecho bonito para a maratona competitiva nacional de Gramado em 2026, na noite desta quinta-feira. "Gonzaguinha, Da Maior Liberdade" será o último longa da (riquíssima) safra em concurso deste festival, com sessão às 20h, na seara da não ficção. A diretora de "Torre das Donzelas" (2018) faz um inventário dos feitos musicais, poéticos e políticos de Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior (1945-1991), 14 anos depois de ele ter inspirado um êxito de bilheteria de Breno Silveira (1964-2022), onde foi vivido por Júlio Andrade.
Agora, além de uma dinâmica de arquivos, Susanna conta com o ator André Dale para ficcionalizar momentos emblemáticos da vida de seu personagem central, incluindo entrevistas nas quais ele rasga o verbo. Nesta conversa ao Correio da Manhã, a diretora explica o simbolismo deste regresso à Serra Gaúcha, agora falando de um mito do cancioneiro de nossa MPB.
Há um ano, havia um curta seu em Gramado, "Requiem para Moïse", e agora você retorna com "Gonzaguinha, Da Maior Liberdade", o longa mais esperado desta reta final do emento. O que este festival te traz de mais possante e o que significa retornar pelas vias documentais, sua trilha mais recorrente? A produção documental toma que rumos aqui em Gramado?
Susanna Lira - Há um ano eu não consegui ir, mas, no ano anterior, estive em Gramado com "Socorro", um filme sobre uma quilombola ameaçada de morte. No ano passado, fomos com "Requiem para Moïse" e, agora, estamos com "Gonzaguinha, Da Maior Liberdade". É a primeira vez que tenho um longa no Festival de Gramado, o que para mim é muito importante. Já tive três curtas selecionados e estou muito feliz que esse primeiro longa seja justamente esse filme. Acho que "Gonzaguinha" é talvez um dos filmes de resistência mais fortes que fiz até agora, porque foram muitos os obstáculos para realizá-lo, começando pelo orçamento e chegando ao desafio da linguagem. Teremos o André Dale interpretando o Gonzaguinha, e pegamos duas grandes entrevistas que o próprio Gonzaguinha concedeu e as reproduzimos como se fossem entrevistas do "Pasquim". Acho muito importante que tenhamos quatro filmes documentais selecionados. Sinto-me muito orgulhosa de estar entre esses quatro e muito emocionada de estar em Gramado com um filme tão politizado e tão importante como o do Gonzaguinha.
O que Gonzaguinha simboliza para a sua geração?
Gonzaguinha abriu mão de muita coisa para poder seguir a coerência de sua ideologia. O filme que estou levando para Gramado faz um recorte político da obra dele. Ele teve mais de 52 obras censuradas, e a gente fala sobre isso. Não é uma biografia tradicional. É um filme que fala muito mais sobre o que ele pensava do que, de fato, sobre sua trajetória e toda a cronologia de seu trabalho. Acho que o filme também mostra como estamos distantes de artistas como Gonzaguinha, neste mundo de likes e engajamentos. Ele foi um cara muito corajoso ao enfrentar um sistema muito pesado, que infelizmente continua existindo. Essa questão da autoralidade dele me emociona demais.
Como se deu o seu contato com a música dele?
Meu primeiro contato com a música do Gonzaguinha foi ainda criança. Minha mãe comprou um disco chamado "Mel", da Maria Bethânia, que tinha "Grito de Alerta". Foi a primeira música que aprendi a decorar e, toda vez que vou a um karaokê, eu canto essa canção, porque ela é uma catarse.
Que canções de seu repertório mais mexem com o seu imaginário?
Além de "Grito de Alerta", que adoro, ao longo dos anos, outras músicas do Gonzaguinha foram me cativando, especialmente algumas que não são as mais famosas, como "Comportamento Geral", "Cavaleiro Solitário" e "Pequena Memória de um Povo Sem Memória", que dizem muito sobre o que ele pensava do mundo. "Grito de Alerta" é quase um hino para mim, o nosso "I Will Survive". Também tem "Não Dá Mais Pra Segurar (Explode Coração)". São muitas canções que mexem com o meu imaginário.
O que o documentário te mostra de mais rico sobre o Brasil?
A diversidade de temas e assuntos de que ainda precisamos tratar. Eu tenho feito pelo menos um projeto de ficção por ano, mas o documentário é o meu lugar. O documentário é a minha residência fixa, como costumo dizer. Eu aprendo muito com o documentário, sobre as pessoas, sobre os brasileiros e sobre o país. Ele me abre mundos, abre horizontes que eu nem imaginava. Mesmo sabendo que conhecia bastante o Gonzaguinha pela minha formação, aprendi muito sobre ele e sobre o Brasil com este meu novo filme. Há coisas que se repetem, que ele cantava como forma de denúncia. Acho que o maior valor desse filme é justamente essa conexão com o presente. O Gonzaguinha não é do passado, ele é de agora.
O que esperar das suas próximas incursões na ficção?
Vou lançar "Marília Mendonça" em 16 de outubro, no Prime Video. Devemos ter uma exibição no Festival do Rio do primeiro episódio, numa parceria do festival com a Amazon. Tenho também outro documentário que estará no Festival do Rio, mas acho que não posso falar enquanto eles não anunciarem. A ficção "Apenas Três Meninas" estreia no ano que vem, e há várias outras coisas a caminho, ainda sem datas definidas. Estou muito animada porque vou filmar minha primeira ficção fora do Rio de Janeiro. Será na Paraíba: "Comadrio". É um filme que nasceu de uma oficina que dou lá. A roteirista apareceu com um projeto, trabalhei com ela no roteiro e esse será o primeiro script dela filmado. Estou muito emocionada com isso. Tenho oscilado entre filmes que as pessoas me convidam para fazer e projetos mais autorais meus.