Naruna Costa: 'Uma mulher negra nunca está sozinha neste Brasil racista, pois somos muitas'
Explícito aos olhos da sociedade, o caso de amor do cinema brasileiro com Naruna Costa, que se deixa regar pelo talento no gerúndio da atriz, pode ser selado de vez se ela concretizar o favoritismo ao Kikito que hoje cerca seu nome no 54º Festival de Gramado. Sua atuação em "Pele de Rinoceronte" calou muitas bocas e estatelou olhares. Ali, sob a direção de um quase estreante, Marcello Ludwig Maia (produtor com 30 anos de experiência e de sucesso, que era virgem na realização até o último domingo, quando o filme estreou), Naruna encontra na palavra uma espécie de arma. Faz dela um instrumento contundente para debelar o machismo e a bestialidade do feminicídio.
Interpreta uma advogada que, em 1976, assume a tarefa de ser a voz de acusação contra um ricaço que assassinou a tiros a namorada (ou seja, Doca Street e Ângela Diniz, cujos nomes não são mencionados). Sua angústia, diante do preconceito que há de sofrer por ser uma mulher preta de toga, é compartilhada com o marido jurista (Irandhir Santos). Tem ainda uma jornalista na cola dessa tragédia, interpretada por Débora Falabella em estado de graça. As duas podem até ser premiadas juntas, pois as figuras delas se amalgamam na sororidade.
O diferencial é que a tal advogada conta com uma sequência na qual ensaia a exposição jurídica para condenar o assassino. Ali Naruna deu um nó no peito de Gramado.
Este ano, ela reinou soberana na Netflix à frente do John Wick subtropical chamado "Salve Geral - Irmandade", de Pedro Morelli. Fez ainda "Dolores", ao lado de Carla Ribas. Tem mais coisa boa vindo aí, que ela antecipa neste papo com o Correio da Manhã na Serra Gaúcha.
Como você definiria a força da palavra em "Pele de Rinoceronte"? O que significa ver uma mulher ter a palavra num contexto histórico de machismo, como o filme?
Naruna Costa - Essa é a grande vingança que o filme oferece às mulheres, no sentido não só de devolver a dor, mas de fazer brotar uma semente, de vingar alguma coisa. Numa época como a nossa, onde o tempo é tão escasso, onde a gente não tem mais a capacidade de absorver qualquer coisa com mais de três minutos, essa troca oferecida pelo filme, essa comunicação verbal, desafia a hipertrofia informacional de sentido nossa. Eu acho que o filme tem um valor imenso ao atribuir esse discurso à boca de uma mulher negra. A gente tem todo um histórico de silenciamento... nas nossas vidas, nas nossas conquistas, nos nossos ofícios... e aí o filme vem e propõe esse revide.
Qual é o lugar de escuta que você encontra na direção do Marcello Ludwig Maia?
Eu sinto o Marcelo muito poroso para questões que são delicadas para um homem branco trazer. Mas eu acho que ele tem - talvez pela sua formação, de ter sido criado num ambiente de mulheres - uma sensibilidade grande ao tema, uma capacidade de não se colocar enquanto impositor de nada. Eu acho que a figura do diretor ainda é uma figura muito caracterizada numa base de imposição, de última palavra, de quem manda, de olhar. E eu acho que o Marcello quebra isso com uma generosidade para conseguir captar o que é interessante.
Você tem uma trajetória muito singular no audiovisual, que se mistura com sua experiência teatral. O que traz dessas mulheres diferentes que interpretou para "Pele de Rinoceronte"?
Trago reverberação. Uma mulher negra nunca está sozinha neste Brasil racista, pois somos muitas. Então, cada lugar que eu ocupo, eu estou ocupando com muitas outras mulheres comigo, simbolicamente, porque tem o lugar da representatividade que é inevitável. Quando eu faço esse movimento coletivo, de alguma maneira eu tento trazer essa singularidade do que é, por exemplo, a postura da advogada de "Pele de Rinoceronte" na qualidade das palavras. Eu sinto que, quando uma mulher é violentada, todas nós somos violentadas. Esse medo é o medo que percorre o nosso corpo, ele está impresso nas nossas células. Ele vem de muito antes de a gente existir. Só que agora, temos a projeção para o futuro de mudar a História.
O que vem depois de "Pele de Rinoceronte"?
Eu estreio "Habeas Corpus", que é uma série da Netflix, que também tem esse contexto judicial, que fala dessa questão da importância do poder jurídico para mudar as coisas relacionadas a preconceitos no Brasil. Faço uma série também da Globoplay chamada "Instinto", que tem uma outra abordagem, mas também esse ambiente criminal. E tem um filme, "Delicadeza", do Eduardo Matos, que é o meu primeiro diretor de cinema. Eu fiz o meu primeiro curta com ele. Tem ainda uma peça de teatro que eu estreio com o meu grupo, o Grupo Clariô, no Mirada, que é um festival internacional de teatro, em setembro. Acontece em Santos, promovido pelo Sesc, e a gente estreia dia 12 de setembro. A peça se chama "Casa do Norte".