Genealogia do feminicídio

'Pele de Rinoceronte' recria livremente o caso Ângela Diniz numa estrutura investigativa da violência contra as mulheres que inflama um Festival de Gramado cheio de filmes explosivos

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Vitaminado da pandemia para cá por acertos curatoriais de reverberação nacional, como a aposta em produções de estados pouco presentes nas telonas, como Goiás, Mato Grosso e o Acre, Gramado viveu os primeiros dias de sua edição n° 54 numa margem explosiva de filmes pautados no combate às células física e moralmente cancerígenas de nossa sociedade, como o racismo e a violência contra as mulheres.

Suspense de pompa hollywoodiana, mas rodado com aportes dos Estúdios Globo, "Antártida" abriu a maratona cinéfila da Serra Gaúcha a escancarar a negligência (e a incompetência) no trato do estrupo, com Andrea Beltrão em modo Sigourney Weaver (aquela Sigourney de "Alien"). Na sequência, na abertura da competição oficial, "Feito Pipa", do Ceará, veio falar de homofobia a partir das peripécias de um menino queer, Gugu, vivido pelo baiano Yuri Gomes.

Quinze minutos depois de Yuri ter feito os olhos gramadenses marejarem em sua dobradinha com Teca Pereira (que vive sua avó), veio o primeiro dos quatro documentários em concurso do certame do Rio Grande do Sul: "O Projeto". Qual lava vulcânica, o debate gerado pela realizadora Sabrina Fidalgo e seu parceiro, o fotógrafo suíço Yvan Rodic, fez arder as temperaturas em querelas sobre os ranços coloniais escravocratas. Depois de neve, erupção teórica e um arco-íris inclusivo, Gramado encarou o terremoto antissexista trazido por "Pele de Rinoceronte", produção de uma coragem indisfarçável ao revisitar o assassinato da modelo Ângela Diniz (1944-1976) pelo tóxico Doca Street (1934-2020).

O caso expôs a chamada "legítima defesa da honra". O assunto move "Pele de Rinoceronte", trabalho de estreia na realização de Marcello Ludwig Maia, produtor dos premiados "Amarelo Manga" (2002) e "A História da Eternidade" (2014). Inspirado na brutalidade contra Ângela, o filme acompanha uma repórter de um jornal popular (Débora Falabella) e uma advogada criminalista (Naruna Costa). Seus destinos se cruzam por causa de um homicídio que chocou o Brasil na década de 1970 e marcou o início de uma discussão que, décadas depois, viria a desembocar no reconhecimento do feminicídio como uma questão central de violência contra as mulheres. Ambas as atrizes têm desempenhos catárticos. Há um ensaio de exposição retórica feita por Naruna para Irandhir Santos (que interpreta seu marido) capaz de evocar o monólogo de Anthony Hopkins em "Amistad" (1997).

A proposta de Maia não é simplesmente reconstituir a morte de Ângela, mas investigar as estruturas sociais, jurídicas e culturais que permitiram que a vítima fosse julgada moralmente enquanto o assassino encontrava argumentos para atenuar sua responsabilidade. No filme, Débora Falabella interpreta a repórter policial que acompanha o caso para um jornal popular, enquanto Naruna Costa vive a advogada encarregada de construir a acusação; Camila Lucciola interpreta a mulher assassinada. A narrativa estabelece um diálogo deliberado entre os anos 1970 e o presente: estão lá a máquina de escrever, o telex, as roupas, a linguagem e a música da época, mas as discussões sobre violência masculina, preconceito, liberdade feminina e responsabilização continuam reconhecíveis. A direção de arte de Karen Araújo é de cair queixo.

"A gente não quis marcar a época para que pudesse ser visto como agora", explica Maia, que também assina a produção, aclamado pela montagem de Marília Moares.

Ele construiu o projeto a partir de uma relação pessoal com o universo jurídico que cercou o caso. Ele cresceu próximo de familiares ligados à advocacia e conta que crimes passionais brasileiros dos anos 1970 e 1980 eram frequentemente discutidos em sua casa. Uma das suas tias, Kívia Maia, foi casada com Heleno Fragoso, advogado que participou do segundo julgamento de Doca Street, realizado em 1981 e que terminou com uma condenação a 15 anos de prisão.

Essa memória familiar levou o realizador a aproximar-se não apenas do crime, mas também dos bastidores das estratégias jurídicas, incluindo o chamado Salão dos Passos Perdidos, espaço dos tribunais onde advogados circulam e discutem caminhos para os processos. "Esse projeto é muito pessoal para mim. Eu escrevi esse argumento sozinho, não mostrei para ninguém, entrei no edital de desenvolvimento da RioFilme e ganhei", conta.

A estrutura de "Pele de Rinoceronte" procura ainda multiplicar os pontos de vista, abrindo lugar para os homens que participam daquele universo, compondo uma narrativa fragmentada que pretende mostrar como uma mesma morte repercute de maneiras distintas em quem a presencia, investiga, julga ou tenta compreendê-la. A construção aproxima-se de uma espécie de poliedro dramático, no qual cada personagem revela uma face diferente do mesmo acontecimento. Nesse jogo, o filme procura evitar uma divisão simplista entre homens absolutamente culpados e mulheres em condição de vítimas, sem, contudo, relativizar a violência. As figuras encarnadas por Débora e Naruna se empoderam e combatem.

."Quando a tinta não é muito exagerada, você deixa de ver o que está ali. E eu quis muito mostrar o que está ali", afirma Maia, defendendo uma abordagem baseada nas nuances das relações e dos processos. O realizador também assume a influência de cineastas com quem trabalhou ao longo da carreira, entre eles Cláudio Assis, a quem agradece por uma formação marcada pela "fúria criativa" e pela disposição de enfrentar as relações de poder entre homens e mulheres.

Gramado chega ao fim no sábado.