'Sair do eixo é mais do que uma obrigação'

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Josué, o órfão em busca de um pai que fez o mundo amar "Central do Brasil" (1998), em sua troca com a escrevedora de cartas Dora (Fernanda Montenegro), já foi visto e aplaudido pelos dois filhos de Vinícius de Oliveira, cria do Complexo da Maré que foi parar no Oscar, no fim da década de 1990. Seus meninos, Benjamin, de 13 anos, e Antônio, de 11, já viram (mais de uma vez) o pai a correr pelo Nordeste, sob a direção de Walter Salles, numa trajetória que, fora das telas, colocou o país na corrida do Oscar.

O guri do Complexo da Maré decidiu profissionalizar seus talentos dramáticos depois do êxito mundial do filme que, três décadas atrás, rendeu-nos o Urso de Ouro. Foi estudar Artes Cênicas, sem deixar de atuar. Aos 41 anos de vida, ele festeja seus 30 anos de carreira no 54º Festival de Gramado, aonde foi a fim de arrebatar multidões e, quiçá, trazer um Kikito para casa, concorrendo em duas frentes.

Nesta terça, será visto na disputa oficial de longas com "Leite em Pó", primeiro longa de ficção de Carlos Segundo, e também participa do certame de curtas-metragens com "Pão Doce", de Wesley Gabriel. No filme de Segundo, ele interpreta um homem de 40 anos, criado pela avó e fechado num universo particular dominado pelo rock, que precisa sair da zona de conforto â força de uma tragédia familiar.

"Pão Doce", sobre exploração laboral, passa esta noite também. Nesta entrevista ao Correio da Manhã, Vinícius fala sobre a relação com Josué, a influência de "Central do Brasil", o momento em que se reconheceu como ator profissional, a experiência de filmar fora do eixo Rio-São Paulo.

Você tem construído uma carreira em parceria com realizadores q1ue têm propostas muito autorais e, muitas vezes, ousadas, como José Eduardo Belmonte, com que fez "Quase Deserto", e, agora, Carlos Segundo. É uma escolha consciente?

Vinícius de Oliveira - Curiosamente, na maioria das vezes, são eles que chegam até mim. Eu assisto ao trabalho dessas pessoas e tenho vontade de trabalhar com elas, certamente, mas foram elas que tiveram a iniciativa de me procurar. Todos têm muito carinho por "Central do Brasil", são muito ligados ao Josué e, quando estão escrevendo um personagem, pensando num lado mais terno, acabam se lembrando de mim. Foi assim com Allan Deberton, com quem acabo de fazer "Adoção". E foi assim também com Carlos Segundo. Eu o conheci numa mostra que ele fazia em Minas Gerais e, anos depois, ele veio atrás de mim dizendo que faria seu primeiro longa de ficção e que tinha pensado muito em mim. Foi dessa maneira.

Você costuma dizer que gosta de personagens populares. De onde vem essa identificação?

Eu sou muito ligado a essa questão popular por causa de onde venho do Rio de Janeiro: a Maré. Gosto de contar histórias que tenham um diálogo muito aberto e franco com a população, com o espectador, com quem vai assistir. Gosto de fazer todo tipo de cinema, mas às vezes fico interessado em filmes muito "cabeça", que acabam ficando num nicho muito nosso. Aí, eu penso: por que não furar essa bolha? Acho que fazemos cinema para o público. Um filme acontece quando se estabelece essa relação íntima entre a sala de cinema, a projeção e o público, quando as pessoas se emocionam e se identificam de alguma forma.

"Central do Brasil" moldou esse seu entendimento do cinema?

Com certeza. A forma como "Central do Brasil" chegou ao público e continua chegando até hoje me marcou muito. Não interessa se a pessoa já viu algumas vezes ou se está assistindo pela primeira vez: ela se emociona e acaba se identificando com alguma coisa. Acho que o filme me moldou nesse lugar. E o próprio cinema do Walter também. É um cinema muito popular, no sentido de saber dialogar com o público, como comprovou, mais uma vez, o êxito de "Ainda Estou Aqui". Acho que fui formado por isso. Hoje, talvez eu seja esse tipo de ator, esse tipo de homem, de personagem.

Em que momento você percebeu que havia se tornado um ator profissional?

Foi em "Linha de Passe" (também de Walter, rodado em dupla com Daniela Thomas). Eu estava há um tempo sem filmar, fazendo uma coisa ou outra, pequena, e ali sabia que tinha uma responsabilidade muito grande, ao ser chamado para assumir novamente um protagonismo, ao lado dos outros atores daquela família. Ao mesmo tempo, era o meu retorno ao cinema num trabalho que exigia uma performance e uma maturidade maiores. Eu era mais experiente do que quase todo aquele elenco, que nunca tinha feito cinema. Tinha a responsabilidade de trazer aquela galera comigo e, ao mesmo tempo, mostrar ao público que eu tinha condições de continuar como ator. Isso estava muito claro na minha cabeça.

Nesse intervalo, você também buscou formação teatral?

Estudei teatro nesse período. Fiz curso no Retiro dos Artistas, no Rio, e tirei meu DRT por conta do curso. Foi importante para mim porque eu precisava entender melhor o ofício, além daquela experiência muito particular que tive quando criança.

O que você pode adiantar sobre seu personagem em "Leite em Pó"?

É um homem de 40 anos que foi criado pela avó até essa idade. É um roqueiro muito preso ao rock antigo, ao rock raiz, fechado num mundinho próprio. Até que acontece uma tragédia na família e ele se vê numa situação sem dinheiro e sem estabilidade. Surge então uma oportunidade de emprego que ele nunca imaginou fazer: vender álbuns de formatura. A partir daí, ele sai para um mundo ao qual não estava habituado ou que, de alguma maneira, renegava. Começa a encontrar pessoas que vão abrindo sua cabeça. Ao mesmo tempo, descobre um diário que vai lendo e que também provoca transformações. É um personagem que vai se modificando e aprendendo a olhar para o mundo em que vivemos hoje.

O que significa, para você, fazer um filme como "Leite em Pó" fora do eixo tradicional de produção, ligado historicamente ao Rio e a São Paulo?

Significa ter novas experiências e entender que o cinema é muito maior do que um eixo. Em qualquer lugar temos condições de produzir cinema e, em qualquer lugar, existe material humano muito potente e qualificado para contar histórias. Num país do tamanho do Brasil, com esse potencial artístico, sair do eixo é mais do que uma obrigação. É também uma forma de dar oportunidade para que essas pessoas mostrem seus trabalhos e contem suas histórias.

Como é o curta que te põe em uma segunda competição nesta edição de Gramado?

Esse curta, o "Pão Doce", é sobre jornada de trabalho. Na trama, eu herdei uma padaria do meu pai, que cuidava dos funcionários de uma maneira muito mais delicada do que eu cuido hoje em dia. E aí tem um empregado da padaria que é muito fiel, é o melhor trabalhador, que eu fico montando, explorando ele o tempo inteiro. Não dou folga de jeito nenhum.

Você completa 30 anos de carreira justamente agora. Quando olha para trás, qual é a lembrança mais forte dessa trajetória?

Tenho muita saudade das filmagens de "Central do Brasil". É o filme do qual tenho uma memória muito nítida de tudo o que fizemos, dos lugares por onde passamos, das situações, das pessoas. Filmar no Nordeste foi uma das coisas mais bonitas que aconteceram na minha carreira. E "Central do Brasil" continua presente de uma maneira muito forte. As pessoas ainda me chamam de Josué, ainda lembram do personagem, e isso é muito bonito.

O que o Josué representa hoje para você?

É difícil separar o Josué da minha própria história. Ele cresceu junto comigo e continua na imaginação das pessoas de uma maneira muito rica. Gosto de preservar esse universo da criança que existe nele. Meus filhos já viram "Central do Brasil" e se emocionam. Então é bonito perceber que aquele menino continua chegando a outras gerações. Para mim, é uma memória muito afetiva das filmagens, do Nordeste e de uma fase da minha vida que mudou tudo.

O que a experiência de ser pai do Benjamin e do Antônio trouxe para você?

Uma responsabilidade imensa. Preciso criar essas crianças para terem empatia diante de um mundo tão violento.