'Pele de Rinoceronte': o momento Brian De Palma de Gramado

Por Rodrigo Fonseca

Naruna Costa e Débora Falabella, dois vértices - o Poder Judiciário e o Quarto Poder - de uma arqueologia do feminicídio

Poucos filmes brasileiros que reconstituem os anos 1970 não apenas na clave do revisionismo histórico (e ético), mas no veio arqueológico de saberes inconclusos, bebem tanto (e tão bem) na grandiosidade do cinema daquela década quanto “Pele de Rinoceronte”, candidato ao Kikito de Melhor Filme de Ficção apresentado em concurso no domingo. Notáveis catarses embaladas nos talentos de Naruna Costa e Débora Falabella asseguraram situações de júbilo à plateia, num Palácio dos Festivais abarrotado, com gente a sair pelos corredores. Há, contudo, um engenho narrativo que não é de decodificação fácil, ainda que plasticamente adornado por uma direção de arte de imensa galhardia de Karen Araújo.

Tal dificuldade não é sinal de uma condução narrativa atabalhoada, mas, sim de uma riqueza de códigos das mais faustosas, a começar pelas alusões a um período do século XX onde filmes autorais que mais pareciam protótipos, por sua singularidade, lotaram salas de projeção. A evocação mais direta que se faz é ao legado de Brian De Palma. Não aquele De Palma hitchcockiano de “Um Tiro Na Noite” (1981), mas, sim, aquele do multiperspectivismo aplicado à política, o Brian De Palma foucaultiano de “Pecados de Guerra” (1989) e de “Redacted” (2007) - não por acaso, dois longas-metragens sobre estupro. Qualquer conexão com essa linha estética respalda um cineasta (sobretudo um estreante, como Marcello Ludwig Maia, que é produtor... e dos bons... há três décadas). E o respaldo se dá pelas vias da coragem... da ousadia.


“Pele de Rinoceronte” ousa a um nível que mais parece um desenho pontilhista. Em tal técnica dos anos 1880, manchas (em geral esféricas... pontinhos) decalcam a realidade, mas sem a égide da mimese plena. É um caminho a ser tracejado. Cada olhar faz o seu traçado. Cada traçado é uma verdade. Foi o que guiou De Palma ao adaptar a série “Os Intocáveis”, de 1961, para a Hollywood de 1987, com Kevin Costner, assumindo eixos de mirada distintos. Cada um - seja o de Elliot Ness, o de Al Capone, o de uma mãe com carrinho de bebê, o de um matador – assume um lugar de argumentação, ainda que nenhum se firme como postulado definitivo. É esse o caminho de Maia (produtor recorrente de Claudio Assis) ao revolver o assassinato de Ângela Diniz (1944-1976) por Doca Street (1934-2020) sem dar nomes. A ausência de uma taxonomia liberta o cineasta para falar não de um caso de assassino de mulheres, mas, sim, do feminicídio como metástase.

A forma como Heloísa Passos fotografa o dispositivo adotado por Maia, a partir da dramaturgia de Josefina Trotta, vincula-se por completo na herança pontilhista. Há uma luz de cores esmaecidas, translúcida como são as memórias dúbias, onde não há uma certeza de qual o tempo histórico é, embora os elementos de cena sugiram um calço setentista.

A morte da socialite mineira, a tiros, em disparos de Doca Street, em Búzios, em 1976, expôs a chamada “legítima defesa da honra”, que é o ponto de partida de “Pele de Rinoceronte”. Em livre inspiração no caso, com o qual o diretor se liga por conexão familiar aos juristas da acusação, o filme acompanha uma repórter de um jornal popular e uma advogada criminalista, cujos destinos se cruzam por causa de um homicídio. Falabella vive a repórter, com fascínio por investigação de crimes brutais. Naruna é a representante do Judiciário que sabe o peso de ser hostilizada por ser uma mulher preta de toga. Essas figuras se vinculam a um Brasil na década de 1970 e marcou o início de uma discussão que, décadas depois, desembocaria no reconhecimento do feminicídio como um câncer.

A montagem sinuosa de Marília Moraes (em seu trabalho mais sofisticado) embaralha as nossas certezas, mas favorece uma verticalização na alma das protagonistas e em seus mundos. Naruna faz um discurso em prol da Justiça que lembra o de Anthony Hopkins em “Amistad” (1997). É um trabalho grandioso, que eleva o nível da seleção de Gramado para o patamar do risco.