O Leopardo ruge pra Romênia, mas lembra do Brasil
'A Margem do Rio' rende o Grande Prêmio do Júri de Locarno para o cinema nacional em meio à vitória do realizador romeno Florin Serban com seu drama em tons de suspense sobre crises paternas
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Cerca de três meses depois de vencer Cannes com "Fjord", de Cristian Mungiu, a Romênia põe mais um festival tamanho GG no seu rol de vitórias depois de "You Don't Belong Here" ("Nu E Locul Tau Aici"), de Florin Serban, ganhar o Leopardo de Ouro na 79. edição de Locarno, na Suíça, paralelamente a uma conquista histórica para o Brasil. Egresso do Recife, "A Margem do Rio", de Enock Carvalho e Matheus Farias, thriller queer de uma fotografia estonteante (mérito de Luciana Baseggio), leva para casa o Prêmio do Júri. É uma saga sobre desejo e resistência às hipocrisias de igrejas conservadoras com foco no tesão voraz de dois homens num mangue.
Numa narrativa sinestésica de flerte com o mistério, "A Margem do Rio" segue os passos de Izaquiel (Caique Copque), um auxiliar de serviços gerais do Recife. Num recorte dessa cidade com foco em rotas fluviais e manguezais, o rapaz se aventura perigosamente, noite após noite, em encontros secretos com outros homens. Numa dessas investidas em busca de goza, tromba com o pescador de ar sedutor Jeremias (Ítalo Martins, ator em fase de apogeu em sua arte). O flerte entre eles deixa o jovem zelador magnetizado pelo querer. Durante o dia, contudo, a encantaria do sexo vai embora e dá vez a uma rotina laboral capitalista opressora, no momento em que Izaquiel é escalado para trabalhar na sede de um culto evangélico cujo líder é um pastor boquirroto, que não aceita ver piercings na orelha de seu funcionário, nem tolera ver unhas pintadas nas mãos de seus serviçais. Essa figura, com ares de senhor feudal, que lembra o bispo mau de "O Feitiço de Áquila" (1985), é vivido com brilhantismo por Robério Diógenes, o delegado "imperfeito" de "O Agente Secreto" (2025).
Na montagem taquicárdica feita pelo próprio Matheus Farias, com Will Domingos, à medida que Izaquiel se vê acossado por minions fanáticos, Jeremias o convida a uma jornada rumo às profundezas do coração do manguezal.
Antes de "A Margem do Rio" ser laureado, Ana Vaz assegurou mais um ganho expressivo para o cinema nacional ao levar uma menção especial para "Hanabi". A partir da metáfora da Flor de Fogo, ela viaja pelas memórias de um Japão traumatizado por um terremoto e pelo medo de uma hecatombe nuclear.
Também estruturado na via do suspense, "You Don't Belong Here" vai na cola do médico Marius, o diretor de um hospital em sua pequena cidade natal, onde cria sozinho o filho adolescente, Ioan, desde a morte da mulher. É um profissional seguro de si, que não faz ideia do que seu rebento anda fazendo à noite, percorrendo a cidade de bicicleta e vandalizando carros ao lado de um grupo de justiceiros mascarados. O mundo de Marius desmorona ao descobrir que Ioan é suspeito de um assassinato.
Em email ao Correio da Manhã, Florin Serban, o vitorioso realizador romeno, celebrou seu Leopardo ao dizer:
"Esta instituição, a família, tem sido uma fortaleza sitiada há muito tempo e, nestes últimos anos, o cerco a ela está quase vitorioso. Não só na Roménia, mas em todo o mundo ocidental. Em vez de derramarmos lágrimas por esta perda, creio que devemos manter a cabeça erguida e perguntar qual deve ser a alternativa. Sempre houve uma falta de comunicação, uma ponte queimada entre os adolescentes e os seus pais, e creio que isso é natural na maioria das famílias. Mas aqui temos algo diferente, e chamá-lo de família não vai ajudar. Aqui há uma falta fundamental de amor, não falta de comunicação ou algo do género. E nada pode ser construído em torno de uma ausência. Há uma famosa frase de Santo Agostinho que diz mais ou menos o seguinte: 'Ama e, depois, faz o que quiseres, porque tudo o que fizeres por amor estará certo'. A doença dos tempos modernos é a falta de amor", diz o cineasta, com um troféu de inestimável valor nas mãos.
Na mostra paralela Cineasti Del Presenti, a Argentina fez a festa com a vitória de "La Ilusión De Un Verano Sin Fin", de Alessandra Sanguinetti. Esbanjando empatia, este documentário de acompanhamento foi rodado ao longo de 25 anos, atento às vidas de duas primas inseparáveis na zona rural do Pampa argentino, a começar como um jogo de fantasia da infância e evoluindo para um profundo estudo colaborativo sobre o tempo, a memória e a feminilidade. Foi nessa seção que Ana Vaz e seu "Hanabi" foi laureado.
Terminadas as ações de Locarno, agora em setembro rola o trio de eventos: Veneza, Toronto e San Sebastián.