Na rabiola do lirismo

Laureado na Berlinale, 'Feito Pipa' abre a competição pelo Kikito de longas de ficção reforçando o papel estratégico do Ceará na reinvenção das estéticas autorais do país nas telas

Por

rodrigo fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Quando fez barba, cabelo e bigode na competição de Gramado de 2019, levando oito Kikitos para Fortaleza, com "Pacarrete", o cearense Allan Deberton saiu do Rio Grande do Sul com o status de "promessa", cercado por olhares como o do ator Lázaro Ramos, que se interessou em filmar com o cineasta. Em seu regresso à Serra Gaúcha, no fim de semana, sua imagem agora é outra: é a de certeza. "Feito Pipa", uma "Sessão da Tarde" padrão delícia (mas recheada de debates de cunho social e existencial), deu a ele uma consagração em âmbito mundial o que alterou seu prestígio... para melhor. Sua maré vitoriosa subiu depois da conquista do troféu Urso de Cristal na 76ª Berlinale, em fevereiro. Foi uma vitória histórica para o país, neste ano em que 13 títulos com o Brasil no DNA passaram pela capital alemã. Tudo indica que ele há de deixar Serra Gaúcha cravejado de láureas, uma vez mais, a julgar pela acolhida cálida que a tela do Palácio dos Festivais gramadense seu a seu trabalho mais recente.

"Feito Pipa" é um tocante exercício autoral. A busca por aceitação faz de Deberton um diretor autor. O que há para ser aceito fica na conta do personagem de Lázaro, que resgatou, via Berlim, uma plenária europeia à altura da que o aplaudiu em "Madame Satã" (2002), agora num papel coadjuvante, que o astro baiano levanta com majestosidade. Gugu (Yuri Gomes), de 11 anos, é o personagem central, numa trama que dribla a homofobia e o terror do Alzheimer e faz gol na trave da inclusão.

Na trilha para adolescer, Gugu, moleque bom de bola como poucos, cresceu sem mãe, sob a cumplicidade da avó, Dilma (Teca Pereira, num quindim de atuação), que não tá nem aí para o fato de o guri se identificar com a cultura queer. Ama-o seja lá sob que bandeira ele estiver. Já o pai do guri, Batista (vivido por Lazinho), encasqueta com os modos do filho, quando precisa tomar conta dele, ao notar que a guardiã da criança está com sinais de demência. Difícil crer que Teca deixe Gramado sem um Kikito para chamar de seu.

Com ela, Deberton cria um "Don Quixote" mirim, ciente de que seu Cavaleiro da Alegre Figura sonha com um Nordeste de tolerâncias.

"O Brasil precisa se conectar com ele mesmo", disse Deberton ao Correio da Manhã. "A razão de flanar pelo imaginário queer aqui era falar menos de rótulo e mais de possibilidade. É sobre permitir que uma criança exista com liberdade, sem ser corrigida o tempo inteiro pelo olhar do mundo. O filme não quer explicar o Gugu, mas acompanhar o jeito natural dele, sua imaginação e sensibilidade. O problema é de quem não o compreende. O que há de mais inclusivo nisso é justamente a recusa em simplificar os estereótipos".

A competição de Gramado encerra-se nesta quinta. Sexta, em âmbito hors-concours, passa "La Perra", do Chile, com Selton Mello no elenco. Sábado os resultados da disputa saem.