Maria Bäck e 'Brave New Love': 'privilégios não eliminam a vergonha'

Por Rodrigo Fonseca

Maria Bäck integra o rol de concorrentes ao Leopardo de Ouro de 2026

Entrevista - Maria Bäck, cineasta

Lá pelas 10h do horário de Brasília, neste sábado, o 79° Festival de Locarno se despede da cinefilia mundial depois de anunciar suas produções vencedoras, com a certeza de que alguns destaques de sua competição oficial de 2026 não serão esquecidos, como “Brave New Love”, de Maria Bäck (Dinamarca/ Suécia). Duas estrelas da Noruega, Kathrine Thorborg Johansen e Anders Danielsen Lie, esbanjam talento neste delicado estudo sobre a fronteira entre desejo, responsabilidade e culpa. Na trama, a hipnoterapeuta Kate (Kathrine, em sublime atuação) mora com seu marido, Orla, e sua filha, Athena, ao mesmo tempo em que mantém um relacionamento profundamente romântico - e altamente secreto - com Andreas (o papel de Anders). Como modelo para sua filha, ela se esforça para manter a vida equilibrada, em meio a pesquisas rituais que envolvem a mitologia grega e uma gravidez não esperada. Dos títulos em disputa vistos, é um dos mais maduros no âmbito da montagem.


Para além da maternidade, da culpa pela morte do pássaro e do peso de ter um caso extraconjugal depois de 16 anos e meio de casamento, que forças sociais e míticas condicionam a paz de espírito de Kate? Há muita universalidade nessas forças, mas gostaria de entender o que há de especificamente escandinavo nelas?
Maria Bäck: Esse tipo de pergunta é sempre difícil de responder, porque é impossível fazê-lo sem generalizar. Mas vou tentar. Acho que os escandinavos vivem, de certa forma, um paradoxo bastante específico. Temos uma sociedade que se orgulha do modernismo, da igualdade de gênero e de uma espécie de “perfeição” estrutural. Existe uma tradição, uma compreensão de nós mesmos, como pessoas muito diplomáticas e “neutras”; tendemos a nos enxergar como os “bons”. E, sob essa superfície, existe uma herança cultural bastante arraigada de vergonha internalizada e uma compreensão conformista do que podemos nos “permitir” e, talvez ainda mais claramente, do que podemos aceitar nos outros — ou não. Existe a consciência de levar uma vida muito privilegiada e, ao mesmo tempo, um tabu em torno de não estar satisfeito quando, aparentemente, “se tem tudo”: uma família amorosa, uma carreira, segurança. Na Escandinávia, vivemos muito dentro da própria cabeça e tentamos ser corretos o tempo todo. Reclamamos tanto demais quanto de menos, de certa maneira. Acho que tudo isso também pode se transformar em baixa autoestima e insegurança. As pessoas podem ter dificuldade para chegar a um ponto em que se sintam suficientemente boas. Talvez também tenhamos tempo demais para pensar em autorrealização. Em alguns aspectos existenciais, provavelmente teríamos outro tipo de problemas se nosso sistema de bem-estar social e nossa segurança fossem mais limitados. Acho, por exemplo, que é mais fácil para um homem demonstrar sua vulnerabilidade na Escandinávia do que na Itália ou na Grécia. Mas os privilégios não eliminam a vergonha.


Seu filme toca em algumas das camadas mais intensas do melodrama, mas permanece em um registro que o transcende — atravessando gêneros sem se entregar inteiramente a nenhum deles, com momentos de riso abrupto ao lado de uma dor profunda. Ainda assim, há uma leveza nele. Como essa sua “estética da leveza” nasce das bases da realidade europeia contemporânea?
Maria Bäck: Eu queria que o filme fosse como Kate. Queria que ele resistisse ativamente às convenções e agisse de maneira surpreendente. A vida é riso ao lado de uma dor profunda; luz e escuridão sempre coexistem. O dilema de Kate é muito humano, e, em toda a sua falta de jeito, ele é, ao mesmo tempo, trágico e cômico. Suas intenções são sempre boas, mas, de alguma maneira, ela consegue estragar tudo o tempo todo. Ela carrega um desejo profundo e está em busca da essência da vida. Acho que o oposto da morte não é necessariamente a vida, mas provavelmente o amor.

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Como foi o processo de direção com a atriz Kathrine Thorborg Johansen para dar vida a Kate como uma personagem dramática multifacetada? De que maneira essa mulher que ela encarna simbolicamente reúne dentro de si muitas outras mulheres?

Maria Bäck: Acho que toda mulher carrega muitas mulheres dentro de si. Mas o que talvez tenha tornado nosso trabalho específico foi levar muito a sério a tarefa de expor o maior número possível de camadas. Não nos preocupávamos tanto com a autenticidade cronológica, mas muito mais com a autenticidade emocional. Tivemos longas e aprofundadas conversas, mergulhando nas múltiplas perspectivas de Kate em cada cena. Precisávamos lidar com nossa própria vergonha e ser honestos um com o outro, dando espaço para o fracasso e para a confiança. Kathrine continuava tocando minha alma com seu talento destemido e corajoso. Quando não sabíamos o que escolher em determinada situação, optávamos pela alternativa mais assustadora. E era muito divertido estar com ela. Acho que nós duas compartilhamos, assim como Kate, esse mesmo jeito desajeitado.

Como a iluminação do longa, com direção de fotografia de Maria von Hausswolff, interage com a natureza ao seu redor? A propósito, parabéns: a natureza parece ser também uma personagem da história, uma personagem que muda a cada plano. Como você trabalhou as paisagens que cercam a narrativa?
Maria Bäck: Visitei e escolhi muitas das locações durante o processo de escrita do roteiro e deixei que as cenas crescessem tendo esses lugares específicos em mente. Passei muito tempo sozinha em Samos, andando de bicicleta e procurando lugares mágicos, brincando de ser Kate, fugindo. Locações, pesquisa, desenvolvimento e escrita costumam acontecer em paralelo nos meus processos, com uma coisa levando à outra. Eu e Maria von Hausswolff somos amigas íntimas e parceiras criativas há 15 anos. Desenvolvemos nossa própria linguagem, à qual continuamos retornando, e usamos nossas produções anteriores como referências. Nossos primeiros projetos em comum foram documentários, e acho que já naquela época começamos a desenvolver um método no qual sabemos que queremos ser leves, flexíveis, espontâneas, vulneráveis e brincalhonas juntas. Simplesmente tentamos receber e reagir ao que está ao nosso redor e construir a partir disso, muitas vezes sem conversar demais sobre o que estamos fazendo. Maria tem um olhar extremamente atento e cuidadoso. Ela é uma das maiores artistas — e uma das maiores amigas — que conheço.