'Antártida', um 'Rashomon' a menos 25° na neve

Por Rodrigo Fonseca

Andrea Beltrão dá olhos de Paul Klee à subcomandante Elizabeth

Num momento climático de “Antártida”, o quadro fotografado por Mauro Pinheiro Jr, com base na moldura estética do diretor Bruno Safadi, é tomado pelo olhar perplexo da subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão), ao fitar uma base de pesquisa numa mirada similar àquela do “Anjo da História”, de “Angelus Novus”, quadro de Paul Klee (1879-1940). Esse poema plástico pintado pelo artista suíço-alemão traz o rosto assombrado de um querubim. Sua face sintetiza nos olhos amedrontados a sensação de desterro diante de um mundo profissionalizado no ofício do ódio. O voo desse ente celeste de Klee, com suas asas curtas, é uma expressão de tolerância esgotada: a capacidade que o Homem tem de brutalizar o próximo só cresce... é progressão aritmética de uma conta de exclusão que não fecha. O anjo de Klee não tem mais o que dizer. A diferença entre ele e Elisabeth reside aí. Ela, que só fala com muita parcimônia, na obediência aos códigos bélicos da Marinha, promete abrir o verbo numa hora crucial do longa-metragem escrito por Claudia Jouvin como uma cartografia de sororidades em tempos (e em terrenos) de arame farpado. Nem adianta perguntar que hora é essa. Espera essa superprodução estrear, em tela grande, em 17 de setembro, e tire a prova das potências em sua medula de thriller. Uma excelência – a habilidade de gerar debate, em especial sobre a violência contra as mulheres – é indisfarçável no rol das virtudes de um exercício raro de nosso cinema pelos flancos do suspense investigativo (qual um bom “CSI”), numa genealogia onde se destaca o febril “Terra Selvagem” (2017), de Taylor Sheridan. Ambos têm neve. A neve da superprodução nacional é algo que poucas vezes um filme nosso usou tão bem... fora “Soundtrack”, lançado a nove anos pelo coletivo 300 ML (e filmado no Polo de Jacarepaguá).


Safadi filmou na Zona Oeste carioca também, num cordão umbilical (que não se corta) com os Estúdios Globo. Escolhido para abrir a 54ª edição do Festival de Gramado, que vai de 14 a 22 de agosto, sua “Antártida” foi desbravada em um espaço estimado em 1.500 m², localizado no Rio de Janeiro, que conta com câmeras autotracking de alta precisão, recursos de Inteligência Artificial e Realidade Aumentada e cerca de 300 m² de telas de LED, o que permitiu imersão na paisagem congelante - mesmo no calor carioca. A produção possibilitou a união do mundo real e do virtual de forma fluida, utilizando, além da tecnologia, imagens captadas na Patagônia através de câmeras 360 e cenários físicos.

Rodrigo Fonseca - A abertura de Gramado, na sexta, com a apresentação de "Antártida", com Bruno Safadi à frente da equipe e da trupe estelar dessa superprodução da Globo


Tudo isso é glacê. O bolo mesmo se recheia de gente, com o amargor de uma temática que se vincula a índices sociológicos de bestialidades sexistas. Jouvin parte desses índices para criar uma espécie de “Rashomon” glacial. Muitas versões constroem os vértices de uma verdade poliédrica em que o desrespeito ao corpo feminino vira uma máquina de fazer monstros. A fim de tornar seu eixo investigativo ainda mais vertiginoso para a plateia, a roteirista salpica sua dramaturgia de outros percalços, como a falta de energia decorrente de um gerador falido e a batalha do comandante, o oficial Barros, contra um tumor cerebral. É um conflito que só faz ampliar a aquarela de cores de Antonio Calloni para pintar o destempero humano. O calibre 12 da artilharia dramática desse Karl Malden dos trópicos renova sua munição. Calloni é titã. Se o filme competisse, um Kikito poderia ser dele.

Embora não tenha entrado na Serra Gaúcha, na sexta-feira passado, para concorrer a nada que não seja o carinho do público (e a simpatia da crítica) como um esquenta para sua estreia, “Antártida” assegurou a Safadi um atestado evolutivo em sua forma de narrar, a um só tempo reverente ao cinema de invenção (o de Julio Bressane e de Rogério Sganzerla, sobretudo) e atento ao que se espera da audiência da TV aberta. Ao mesmo tempo que rodou experimentos como “O Prefeito” (2015), ele bate ponto como diretor nos estúdios Globo, onde foi incumbido de transformar um ambicioso script de Jouvin numa espécie de “Enigma do Outro Mundo” à moda Plim-Plim, mas com matriz johncarpenteriana. Impressiona um bocado a maturidade técnica do montador Rodrigo Lima. Coragem, esse editor sempre esbanjou, trilhando o pontilhado de vozes autorais inventivas (inclusive o já citado Bressane). O inusitado aqui é ver um ourives da montagem como ele se exercitar sobre um material capaz de flertar com o que a Rede Globo exibe de hollywoodiano em seu “Domingo Maior”.

Na trama, em uma estação de pesquisa, uma pesquisadora, Inês (Marina Ruy Barbosa), é estuprada em meio a uma queda de energia e a uma mudança de equipe. Para piorar, a liderança de Barros está em xeque. Uma bronca do passado se renova no reencontro de um ex-casal, formado pela médica e cientista Marina (Leandra Leal) e o marido de quem se afastou cansada das agressões dele... no caso, o Capitão Vicente, encarnado por um Lázaro Ramos sob as bênçãos dos orixás: taciturno aqui, explosivo acolá.

Diante desse quadro de assombro, a subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) assume ali a difícil missão de investigar o ocorrido, enquanto as demais mulheres da estação – Inês, Marina (Leandra Leal) e Rose (Mariana Sena) – se sentem acuadas e precisam se unir para enfrentar o medo, o silêncio e a violência. Safadi evoca o clássico já citado de Akira Kurosawa, “Rashomon”, ao triar afluentes distintas para um mesmo e crepuscular rio da dúvida. Lima dá a essas versões um arranjo tenso. A tensão assegura as bases do flerte de Safadi com um gênero pop. A partir dele, flagra Lobos Maus. O território de flocos gélidos se impõe na tela, mas a monstruosidade que lá se passa pode rolar em qualquer canto. Daí a necessidade de se viver tenso, de se estar atento (e forte). Afinal, como questiona a autora de “A Guerra Não Tem Rosto De Mulher”, a bielorrussa Svetlana Aleksievitch: “Existirá algo mais assustador do que pessoas?”.

Uma fala de Svetlana justifica a pertinência (e a beleza triste) de um filme como “Antártida” para além de seu engenho industrial – e do ensejo autoral de Safadi – ao lidar com incongruências do dia a dia na coletividade: “Todas as pessoas têm coisas importantes para contar. Se criarmos um ambiente de confiança, calmo, íntimo, surgem grandes histórias. Pessoas sem importância têm grandes histórias. Mas se faço uma pergunta banal, obtenho uma resposta banal. As pessoas têm uma grande necessidade de falar de coisas sérias. Mas acontece que não lhes dão oportunidade. Ninguém as quer ouvir. Vivemos num mundo de banalidade”. Num lugar onde noite e dia parecem uma coisa só, sob a alvura do gelo, da geada, da avalanche, o mal parece banal. Nesse parecer, o que mal vira Mal, na mítica que não mais se enxerga, que se sublima em leis falhas, que se justifica pelo silêncio da isenção. O filme que Jouvin escreveu jamais se isenta. Ele não capitula. Ele luta.