'Il Cileno', um explosivo à moda latina
Espécie de thriller às avessas sobre o êxodo de um revolucionário após o golpe no Chile dos anos 1970 vira coqueluche em Locarno, que encerra neste sábado sua maratona cinéfila
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Prestes a chegar aos 80 anos, o Festival de Locarno encerra neste sábado uma edição - a de número 79 - que valorizou para além do protocolo habitual do evento suíço as estéticas da América Latina, com a presença (expressiva) do Brasil na competição oficial, representado por "A Margem do Rio", de Enock Carvalho e Matheus Farias. Uma fábula vinda do Chile, "Princesa Burro", feita em coprodução com o Uruguai, tem fortes chances de premiar seus diretores, a dupla Cristóbal León e Joaquín Cociña, por uma narrativa com cara de "Vila Sésamo". Fora de concurso, um conterrâneo deles, Sergio Castro-San Martín, emplacou o que periga ser o filme-evento da maratona cinéfila da Suíça (realizada numa região que fala italiano, localizada a duas horas de Milão): "Il Cileno". O título já vem com CEP e remonta aos tempos, da década de 1970, em que o trauma pela interrupção do governo de Salvador Allende levou muitos ativistas ao êxodo (para o exterior) e a bombas, como é o caso do protagonista deste épico às avessas.
Sua genealogia, com base em fatos reais, é a do thriller político (à moda Costa-Gavras), mas numa linha mais humanista de estudo de personagem, no caso Aldo Marín, militante socialista chileno especializado na fabricação de explosivos. Em vez de transformar seu personagem principal em um herói revolucionário, Castro-San Martín prefere observá-lo pelas vias de suas fragilidades: um chileno expatriado na Itália que precisa sobreviver, juntar dinheiro, aprender outra língua e, sobretudo, encontrar uma maneira de trazer de volta para perto a mulher e o filho recém-nascido que deixou no Chile. O que aparece diante da câmera é a intimidade de alguém que foi obrigado a reconstruir a própria existência.
"Antes, na época das grandes ditaduras latinas, como a do Chile, a da Argentina e a do Brasil de vocês, quando se falava do fluxo de nosso povo pelo mundo, o vetor de circulação era o exílio, só que hoje, esse vetor passou a ser a imigração. Antes, saía-se do continente por ideologias. Nos dias atuais, saímos por sobrevivência econômica", diz Castro-San Martín, via Zoom, ao Correio da Manhã. "Antes de ser um exilado, Aldo Marín é um migrante. Mas há uma ironia fundamental: sua única habilidade profissional, armar detonadores, é também aquilo que pode condená-lo. Isso já fica marcado na sequência inicial, numa lógica em que eu elimino a épica comum à jornada heroica do cinema comercial. A bomba é a desculpa para falar de algo que tem a ver com a intimidade do revolucionário. Em filmes comerciais, somos levados a conhecer o exterior do revolucionário, mas não o interior. Essa é a mudança de paradigma que eu proponho em 'Il Cileno' ao analisar o sentimento de Aldo".
Aos 47 anos, Castro-San Martín estreou como realizador em 2009, com "Paseo", firmando-se como uma das vozes autorais de prestígio do Chile ao lançar "Un Día Con Tortoise", em 2011. A narrativa de "Il Cileno" nasceu como coprodução com a Itália, país para onde Aldo viaja, na trama do longa, em busca de refúgio, encontrando suporte em facções rebeldes. O cineasta concorda com o Correio da Manhã ao ouvir que seu filme dialoga pouco com a tradição política do cinema de sua nação (defendida pelos mestres Miguel Littín, Valeria Sarmiento e Patricio Guzmán) e conversa mais com a verve literária do colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), sobretudo nas páginas de "Crônica de uma Morte Anunciada".
"Entendo essa interseção no sentimento de orfandade de nós, latinos, na sensação de sermos órfãos num mundo que nos exclui", diz o diretor.
É por isso que seu "Il Cileno" evita mencionar diretamente figuras centrais do jugo ditatorial como Augusto Pinochet (1915-2006). Na história que serviu de inspiração ao filme, o sonho de Aldo Marín estava ligado à ideia de matar o ditador. Na telona, o sonho é muito menos épico: juntar dinheiro suficiente para trazer a mulher e o filho de volta. "Todos queremos a nossa família", observa o cineasta. Para ele, esse desejo é mais político e universal do que qualquer discurso ideológico explícito. O êxito da produção na Piazza Grande de Locarno (a praça central da cidade) se articula-se com essa percepção geopolítica de Castro-San Martín, animado com a produtividade audiovisual de seus conterrâneos.
"Estamos vivendo o melhor momento do cinema chileno na História. Não à toa temos, pelo menos, uns cinco filmes por ano selecionados em festivais de classe A", afirma o artista. Finalizando suas atividades, Locarno contabiliza projeções de títulos que arrebataram fãs. Na briga pelo Leopardo de Ouro, o supracitado "A Margem do Rio", um thriller queer sobre um auxiliar de serviços gerais às voltas com uma seita armada (e com o desejo por um homem que conheceu no mangue), destacou-se em muitas frentes. A mais forte delas é a engenhosa direção de fotografia de Luciana Baseggio.
Há, entre os 17 competidores, um certo favoritismo em volta do suspense romeno "You Don't Belong Here" ("Nu E Locul Tau Aici"), de Florin Serban. No enredo, Marius é o diretor médico de um hospital em sua pequena cidade natal, onde cria sozinho o filho adolescente, Ioan, desde a morte da mulher. É um profissional seguro de si, que não faz ideia do que seu rebento anda fazendo à noite, percorrendo a cidade de bicicleta e vandalizando carros ao lado de um grupo de justiceiros mascarados. O mundo de Marius desmorona ao descobrir que Ioan é suspeito de um assassinato. Fala-se muito (e bem) ainda de "Brave New Love", de Maria Bäck, um drama vindo da Dinamarca (em sinergia com a Suécia). Kathrine Thorborg Johansen e Anders Danielsen Lie esbanjam talento no elenco deste neste delicado estudo sobre a fronteira entre desejo, responsabilidade e culpa. No roteiro, a hipnoterapeuta Kate (Kathrine, em sublime atuação) repensa sua rotina frente a um caso extraconjugal com um amante malandro (eis o papel de Anders) e a uma gravidez indesejada.