Tradição nacional nos curtas e gaúcha nos longas

Disputa promete ser acirrada nas premiações das duas categorias

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Doze curtas-metragens, representando sete estados brasileiros, vão disputar o Kikito, principal troféu do Festival de Gramado na categoria de curtas. A seleção reúne produções de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Rondônia e São Paulo, além de uma coprodução entre Brasil e França. Entre os títulos estão "A Menina que Queria Ser Pedra", de Jackson Abacatu; "As Gêmeas", de Vanessa Aguiar; "Divino: Sua Alma, Sua Lente", de Clea Torres e Gilson Costa, com codireção de Divino Tserewahú; "Fúrias", de Nica Maleoa; "Graxa e o Zepelim", de Camilo Soares; "Maior que a Casa Toda", de Fabiano Barros e Neto Cavalcanti; "Mulher Papaya", de Camila Tarifa; "Pão Doce", de Wesley Gabriel Silva Santos; "Pique-Pega", de Mia Lima Rocha; "Revelação", de Gabriela I. Gaia; "?? (Shibal)", de João Rubio Rubinato; e "Um Passeio", de Thalles Cabral e Fernanda Rocha. Esses títulos têm duração entre 9 e 21 minutos.

Atento à prata da casa, o festival promove ainda a Mostra Competitiva Sedac Iecine de Longas-metragens Gaúchos. O certame reunirá cinco produções que refletem a diversidade do audiovisual do Rio Grande do Sul, entre ficção e documentário, com foco em temas como identidade, memória e resistência. A seleção inclui "A História Mais Triste do Mundo", de Hique Montanari, que combina live action, animação e teatro de bonecos numa história de amadurecimento infantil. Entra em campo ainda "Remanente - Voltagem", de Kapel Furman, mistura drama, terror e ficção científica ao acompanhar dois paramédicos que libertam acidentalmente uma criatura dotada de poderes eletromagnéticos. Já "Darcy Fagundes meu Famoso Pai Desconhecido", de Luciane Fagundes, reconstrói afetivamente a trajetória de um dos grandes nomes da rádio gaúcha. Em "Filhas da Lua", de Tatiana Sager, acompanha quatro travestis que, após sobreviverem ao sistema prisional, enfrentam novos obstáculos em busca de uma mudança de vida. Em "Morro da Cruz - Memória Popular", Crystom Afronário filma relatos de moradores, estudantes e artistas sobre a construção da identidade cultural e a celebração da periferia de Porto Alegre.

Na véspera de fechar sua festa, no dia 21, Gramado vai matar saudades dos tempos em que realizava competições com títulos hispano-americanos ao receber, do Chile, "La Perra", de Dominga Sotomayor, que estreou na Quinzena de Cineastas de Cannes e vai para San Sebastián, em setembro. É uma produção de Rodrigo Teixeira, e sua RT Features, com Selton Mello no elenco. Sua diretora entrou de vez pro time de grandes autoras do cinema latino ao faturar o prêmio de Melhor Direção no Festival de Locarno, em 2018, com "Tarde para Morrer Jovem", longa que também disputou o Leopardo de Ouro representando o audiovisual chileno.

"La Perra" saiu de Cannes com a Palm Dog, troféu de melhor representatividade canina, por conta da cadela Yuri, filhote de rua que ocupa papel central no drama. O filme acompanha o cotidiano de Silvia (papel de Manuela Oyarzún), uma mulher solitária marcada por um passado doloroso, que vive em uma ilha isolada e castigada pelo vento. Ao acolher o animal, ela decide chamá-lo de Yuri, nome originalmente escolhido para a filha que nunca teve. Essa amizade canina sublime dores.

Em meio à consagração de "La Perra" em terras gaúchas, Selton ganhará o Kikito de Cristal em parceria com a atriz Maria Fernanda Cândido. O troféu celebra carreira que transcendem as fronteiras do país e do continente. Essa honraria passou a ser entregue em 2007, quando foi confiada ao documentarista carioca Eduardo Coutinho (1933-2014), e já foi entregue a gigantes de outras pátrias. Os argentinos Cecilia Roth e Juan José Campanella, a germânica Mariëtte Rissenbeek, o uruguaio Cesar Troncoso e o moçambicano Ruy Guerra receberam esse solzinho cristalizado, além do titã baiano Othon Bastos, coroado com esse mimo em 2013, e o divo de Petrópolis Rodrigo Santoro, agraciado por Gramado em 2025.

No dia 23, a premiação será anunciada. O júri dos seis longas ficcionais será composto pelas atrizes Cris Vianna e Helena Ranaldi; pelo cineasta Fabio Meira; pela curadora, pesquisadora e professora Kênia Freitas e pelo ator Marcelo Serrado. Os quatro longas da leva documental serão julgados pela diretora e atriz Bárbara Paz; o ator Caco Ciocler; e o produtor, compositor e fotógrafo Paulo Mendonça.