Kikito para quem te quer
Gramado inicia nesta sexta sua 54ª edição, firmando-se como o festival mais popular do país e como triagem de expressões autorais que driblam a hegemonia do Rio e de SP na produção
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Numa semana chacoalhada pela ameaça de (quase) não haver Festival de Brasília, por culpa de um problema de repasse de verbas (aparentemente) já sanado, Gramado entra em campo esta noite, ao projetar "Antártida". Inicia suas funções fazendo jus a um legado de 53 anos, cada um deles dedicado a triagens de autoralidades, com especial atenção ao que se faz longe do eixo hegemônico: Rio x São Paulo. Pernambuco há tempos é terra santa e gera títulos que correm mundo, como "O Som ao Redor", que abriu sua carreira em solo nacional no evento da Serra Gaúcha, em 2012, dando a Kleber Mendonça Filho o prêmio de Melhor Direção. Em 2021, Renata Pinheiro fincou a bandeira vitoriosa com a sigla PE lá, mais uma vez, com "Carro-Rei". Minas Gerais há tempos também se faz notar em mostras estrangeiras. Não à toa, fez festa em telas gramadense, em 2022, com "Marte Um". Existe um terceiro polo sacramentado pelo olhar gringo, com um medalhão referendado pela Berlinale e por Cannes (Karim Aïnouz), que é o Ceará. Em 2019, o núcleo cearense brincou de ganhar prêmio no Sul com "Pacarrete", de Allan Deberton. Só que Gramado não se limitou a esses flancos em sua triagem recente de brasilidades. Deu seu Kikito de Melhor Filme para o Acre (para "Noites Alienígenas", em 2022), para Goiás (com "Oeste Outra Vez", em 2024) e para "Cinco Tipos de Medo", de Cuiabá (MT), coroado em 2025.
Produções com a ouriversaria carioca da imagem nunca foram esquecidas por lá, vide os louros dados a "Mussum: O Filmis", em 2023. Aliás, no ano um do festival, deu RJ na cabeça. Primeiro longa-metragem a vencer Gramado, na edição inaugural do evento, em 1973, "Toda Nudez Será Castigada" foi laureado ainda com o Urso de Prata da Berlinale e levou 1.737.151 pagantes às salas de exibição. É um rol de conquistas que voltam a ganhar holofotes em meio à nova versão de sua trama, que Daniel Filho rodou em Jacarepaguá, com Hermila Guedes e Otávio Müller, em 2025. Falou nesse clássico dirigido por Arnaldo Jabor (1940-2022), a partir do texto teatral homônimo de Nelson Rodrigues (1912-1980), falou-se no Kikito.
É esse o nome da entidade mítica de povos gaúchos da América Latina - o sorridente deus-sol dos Pampas - que emprestou suas feições ao troféu gramadense nos anos 1970. Desde então não cantou pra subir, sem arredar pé da Serra Gaúcha e do imaginário cinematográfico deste país, que viu, ao longo das últimas cinco décadas, Gramado renovar sua relevância, mantendo-se num trono: o de mais popular mostra competitiva do audiovisual neste país.
Ok, tem o já citado Festival de Brasília, seu irmão mais velho, que luta para abrir suas telas ainda em setembro. Tem(os) ainda o Cine PE, o Cine Ceará, a Première Brasil do Festival do Rio, a seção nacional da Mostra de S. Paulo, o Fest Aruanda, o Olhar de Curitiba e a seção Aurora da Mostra de Tiradentes. Todos têm importância estratégica, cada qual a seu modo, só que quando se menciona Gramado, lá no coração do Rio Grande do Sul, o Brasil todo - até os rincões sem salas de projeção - tem uma ideia do que se fala. Fala-se de tapete vermelho, sim; fala-se de chocolate bom, também; fala-se de frio, daqueles de bater o queixo; mas, conversa-se, sobretudo, de resiliência artística, o que volta a ser pauta nesta sexta-feira, com o início de uma 54ª edição recheada de vozes autorais em suas múltiplas latitudes.
Já de cara vem o diretor Bruno Safadi, com "Antártida". Esse thriller se passa nos confins gelados da Terra, mas suas locações são cariocas da gema. Foi filmado em um espaço estimado em 1.500 m², localizado no Rio de Janeiro, que conta com câmeras autotracking de alta precisão, recursos de Inteligência Artificial e Realidade Aumentada e cerca de 300 m² de telas de LED, o que permitiu imersão na paisagem congelante - mesmo no calor carioca. A produção possibilitou a união do mundo real e do virtual de forma fluida, utilizando, além da tecnologia, imagens captadas na Patagônia através de câmeras 360 e cenários físicos.
No enredo, ambientado na Estação Comandante Diniz, na Antártida, a cientista Inês (Marina Ruy Barbosa) é vítima de um crime brutal. Isolados pelo frio extremo e sem possibilidade de resgate imediato, todos os homens da base se tornam suspeitos - inclusive as patentes mais altas, Comandante Barros (Antonio Calloni) e o Capitão Vicente (Lázaro Ramos). Diante desse quadro de assombro, a subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) assume ali a difícil missão de investigar o ocorrido, enquanto as demais mulheres da estação - Inês, Marina (Leandra Leal) e Rose (Mariana Sena) - se sentem acuadas e precisam se unir para enfrentar o medo, o silêncio e a violência.
Sua escalação para abrir o festival, um mês antes de seu lançamento comercial (17 de setembro), coincide com o tributo a uma de suas estrelas: Andrea Beltrão. Ela receberá o troféu Oscarito, destinado a atrizes e atores que encantam esta nação de Norte a Sul.
Falando de grandes atrizes, duas, Ana Flávia Cavalcanti e Camila Morgado, são as curadoras de Gramado, triangulando as escolhas com o jornalista, crítico e professor Marcos Santuário. No desenho curatorial desse trio, a maratona serrana contará com atividades extras, entre elas, a exibição da série "Emergência 53" (com DNA da TV Globo), que une os cineastas e parceiros da produtora Conspiração Claudio Torres (diretor responsável pela maior bilheteria brasileira até agora, "Velhos Bandidos") e Andrucha Waddington.
Tem outros troféus honorários por lá, além do Oscarito. No domingo. o ator e dramaturgo Marcos Caruso será contemplado com o troféu Cidade de Gramado, pelo esplendor de seu jeito de atuar. Na terça, é a vez do troféu Eduardo Abelin. Ele será confiado à produtora Renata Almeida Magalhães (de "O Maior Amor Do Mundo"), no dia 18, em reverência a seus feitos pelo cinemão e a suas lutas políticas na Academia Brasileira de Cinema. Ela produziu sucessos, em especial as pérolas de seu finado companheiro, o cinemanovista Carlos Diegues (1940-2025). As homenagens a essa turma aquecem uma cidade assolada por baixas temperaturas nas ruas, mas inflamada por discussões no Palácio dos Festivais, sede de suas sessões. É lá que se concentra a competição nacional de longa de ficção.
Concorrem a partir deste sábado: "Feito Pipa" (CE), do já citado Allan Deberton; "Pele de Rinoceronte" (RJ), de Marcello Ludwig Maia; "Chorão: Só os Loucos Sabem" (SP), de Hugo Prata e Felipe Novaes; "Leite em Pó" (MG/SP/RN), de Carlos Segundo, "Justino - Nos Bastidores do Reino" (DF), de José Eduardo Belmonte; e "Nosso Segredo" (MG), de Grace Passô. Existe uma competição de longas documentais também. O primeiro será "O Projeto" (SP), de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic. Depois entram em cena "Empeleitada" (PE), de Micaele Xukuru, Chico Ludermir e Sergio Borges; "Afrontosa" (SP), de Coraci Ruiz e Julio Matos; e "Gonzaguinha, Da Maior Liberdade" (RJ), de Susanna Lira.
Pouco se sabe por aqui sobre as potências de cada um desses longas, mas "Feito Pipa" chega trazendo uma vitória de peso em seu currículo. Ganhou o Urso de Cristal da mostra Generation do Festival de Berlim, em fevereiro. Na sequência, o longa abriu o Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias (FICCI), na Colômbia, onde também recebeu o prêmio de Melhor Interpretação para o jovem ator Yuri Gomes. Logo depois, conquistou mais dois importantes reconhecimentos no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, no México: Prêmios Maguey de Melhor Filme e de Melhor Interpretação dividido entre Yuri e Teca Pereira.
Seu roteiro, de verve queer, acompanha as aventuras da educação sentimental de Gugu (Yuri), um menino apaixonado por futebol que vive ao lado da avó Dilma (Teca), responsável por criá-lo de maneira livre e afetuosa. Quando a saúde de Dilma começa a se fragilizar, Gugu tenta esconder a situação para evitar ser separado dela. Teme ser obrigado a morar com seu pai conservador e homofóbico (vivido por Lázaro Ramos). Rodado em Quixadá, no sertão do Ceará, esse estudo sobre tolerâncias fala sobre amadurecimento, pertencimento e liberdade.