Micropolítica da catástrofe em pétalas

Realizadora de poemas visuais em forma de filme, a brasileira Ana Vaz leva a Locarno uma mirada sobre o Japão, sem vias antropológicas, de eixo transcendental, chamada 'Hanabi'

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Brota uma nova ousadia brasileira nas telas de Locarno, agora com nome de flor… uma flor de fogo… ou melhor, "Hanabi". Esse é o nome do novo ensaio em forma de longa-metragem de Ana Vaz, artista visual e cineasta conhecida por experimentos como "É Noite na América", de 2022, e "Apiyemiyekî?", de 2019. Nasce de uma imersão em terras nipônicas.

Trata-se de um poema com imagens em movimento, definido como "uma história sobre a radioatividade". Rodado no Japão ao longo de dez anos, a produção observa um país submetido a uma ameaça mortal, sob o trauma de um terremoto e as instabilidades oriundas a uma catástrofe nuclear. A vida continua apesar das angústias. Tóquio segue expandindo seus limites; novos solos substituem as terras irradiadas; ilhas surgem no Oceano Pacífico; trabalhadores, cidadãos, engenheiros, agricultores e religiosos empenham-se, cada qual ao seu modo, em domar o pânico de suas comunidades.

Atravessando essa constelação de testemunhos e experiências, há um livro diário, "Journal of a Radioactive Brain", da escritora Yoko Hasuke. Suas páginas nasceram na esteira do tsunami e do desastre atômico que se seguiu ao terremoto de Tohoku — e do qual Ana Vaz parte para uma livre inspiração, em colaboração com a autora.

"As imagens não capturam, não extraem, não aprisionam, elas buscam 'fazer corpo', ou seja, a câmera não é nada mais do que um amplificador de presenças", explica Ana, por email, ao Correio da Manhã, ao explicar sua dinâmica de trabalho. "O encontro com Yoko Hayasuke, ainda nos primeiros anos da fabricação do filme, foi transformador. Não apenas pela dimensão literária e política de seu texto, mas também pela maneira como Yoko encara o desastre a partir do corpo que treme, vibra, sente, intui e teme. A prosa de Yoko narra a experiência micropolítica da catástrofe, ao mesmo tempo cotidiana e metafísica, íntima e coletiva.

Segundo a cineasta, sua crônica começa com o grande terremoto de Tohoku e o desastre nuclear subsequente, mas leva a plateia uma reflexão profunda sobre a composição molecular da existência, a violência patriarcal contra as mulheres, a reprodução da vida, as manifestações de insurgência — também chamadas de loucura —, a violencia psiquiátrica e as diversas formas de alienação impostas pelo capitalismo tardio.

"Hayasuke politiza o medo e a hipocondria com grande irreverência, como sintomas de corpos que resistem à normalização das diversas violências impostas pelo sistema", explica Ana. "É um texto sem imagens definidas, mas abundante em conceitos polisêmicos, que nos levam a pensar, sentir e ouvir os lugares, os seres, os corpos e os elementos".

Haverá um par de sessões de "Hanabi" em Locarno, na tarde desta quinta e na manhã de sexta.