'Todo o paraíso tem seu inferno'
Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Primeiro diretor brasileiro a vencer a competição Aurora, a menina dos olhos da Mostra de Tiradentes (MG), que encantou, 18 anos atrás, com "Meu Nome É Dindi", Bruno Safadi vive no equilíbrio fino entre os extremos mais longínquos da produção audiovisual deste país: trabalha na Globo, em novelas em séries, sem perder laços com o cinema nacional de invenção. Brilha na audiência de folhetins popularíssimos ao mesmo tempo que se arrisca em investigações de linguagem para as telonas como "Sofá" (achado do Festival de Turim de 2019) e "O Prefeito" (a mais delirante atração de Locarno, em 2015). É ainda parte essencial da trupe de Julio Bressane em sua filmografia de investigações, trabalhando como seu assistente e como seu produtor. Ao ser convidado para abrir Gramado, sobretudo com uma superprodução que pode dividir águas na relação do Plim-Plim com a indústria cinematográfica, como é o caso de "Antártida", Safadi galga novos trilhos. Nesta entrevista, ele cartografa seu caminho até a Serra Gaúcha.
Que experimento narrativo se espera de "Antártida", na linha narrativa do teu cinema, que se destaca por investigar espaços, com eixo em distâncias físicas e temporais, vide a zona mais central do Rio de Janeiro de "Meu Nome É Dindi" e a (extinta) Perimetral de "O Prefeito"?
Bruno Safadi: "Antártida" é um filme em que a paisagem está presente desde o título. Antártica é o continente mítico, sonhado há muito tempo pelo homem conquistador, pelo militar e pelo cientista. É também um lugar almejado por tantas nações, que querem um quinhão para chamar de seu. Por último, é local de curiosidade para qualquer habitante do planeta. "Antártida" narra a história de Inês, uma pesquisadora jovem que conquista a oportunidade de passar a temporada de inverno de 2012 na estação de pesquisa brasileira em território antártico. Inês chega para realizar seu sonho. Vê aquele lugar como o paraíso. Contudo, todo o paraíso tem seu inferno. Em sua primeira noite na estação, Inês sofre violência por um companheiro de trabalho. Ela não sabe quem foi o culpado. Junto ao evento, a natureza se revolta, o tempo fecha e o inverno mais frio em décadas toma conta do local. O gerador que fornece calor para a estação está com problemas. Todos ficam confinados e com um criminoso no grupo. A estação e a natureza ao redor tornam-se personagens de filme de terror. Tudo fica amedrontador, inclusive a natureza humana. Eu me utilizei de todos esses elementos para construir narrativamente esse ambiente de medo. A falta de energia trouxe lugares sombrios para a imagem do filme, o branco total da neve do lado de fora criou o desconhecido, o que assusta. Foram muitos os elementos de cinema que utilizei para contar Antártida. Um prato cheio.
De que maneira a sua conexão com a TV, na direção, amadureceu a sua relação com o plano na telona?
Estou há dez anos dirigindo nos Estúdios Globo. Lá eu pude fazer cinco séries ("Aruanas", "Verdades Secretas 2", "A Vida Pela Frente", "Reencarne" e "Jogada de Risco"), três novelas ("Liberdade, Liberdade", "Novo Mundo" e "Órfãos da Terra") e dois filmes de longa-metragem, que são o "Vítimas do Dia" e, agora, "Antártida". São dez projetos em 10 anos. Só projetos de excelência. Em todos, estive conceituando, pré-produzindo, filmando, editando, finalizando e lançando. É uma super experiência, uma universidade prática completa. Estar todos os dias em ação, em projetos tão diferentes entre si, traz musculatura, experiência, visão de gestão, e sobretudo, criação. Pude me desenvolver muito como realizador nesse período. E ainda estou bastante novo, tenho saúde e vontade de realizar muitos sonhos, tanto nos estúdios quanto nos filmes autorais.
A que "Antártida" a roteirista Claudia Jouvin te levou?
A Claudia Jouvin trouxe um projeto muito maduro, criativo, extremamente contemporâneo - tanto no tema quanto na linguagem - e relevante. O filme trata da violência de gênero nos mais diversos níveis. Do crime às micro violências do dia a dia. Ela colocou o Brasil na neve, na Antártica, e mostra que a violência está dentro do homem, não importa onde ele esteja. Claudia foi grande parceira durante todo o processo. Uma amiga leal e fundamental para a realização do filme. "Antártida" era um filme desafiante e sem nossa troca, ele seria muito mais difícil.
Como foi trabalhar com uma dramaturgia que tem argumento de Cauã Reymond em "Jogada de Risco"?
"Jogada de Risco" foi um grande presente que veio praticamente junto com o "Antártida". Eu me envolvi com a série imediatamente. Amei o projeto. Eu adoro futebol. E as pessoas envolvidas são talentos que admiro há muito tempo: Lucas Paraizo, Cauã Reymond, Thiago Dottori, Isabela Bellenzani. Vi de cara que havia potencial para fazer algo extremamente popular e que fosse sofisticado na linguagem. Um sonho. O Cauã é um cara extremamente criativo, com grandes ideias, e com muita vontade de realizar. Se mostrou uma pessoa com uma escuta maravilhosa, muito respeitoso durante todo o processo, não apenas comigo, mas com toda a equipe, e um grande viabilizador do projeto. Cauã é estrela e o público quer vê-lo na frente da tela e agora por trás, como criador.
Ano que vem, "Dindi" faz 20 anos. O que aquela Aurora representou para a sua carreira? Que filmes estão por vir?
Sim, "Meu Nome é Dindi" completará 20 anos. Que loucura! O tempo voa. Vencer a Mostra Aurora do Festival de Tiradentes, naquele período em que uma nova geração de realizadores estava despontando, foi uma abertura de portas. Naquele mesmo momento, eu estava lançando o "Dindi", filmando "Belair", escrevendo "Éden". Eu era ainda muito jovem, muito menino, muito apaixonado por cinema brasileiro, e com vontade de conhecer o mundo através do cinema. E com aquele prêmio, muitas portas se abriram. Pude fazer onze longas-metragens como diretor, passar meus filmes seguidamente nos grandes festivais de cinema europeus, produzir outros tantos filmes de realizadores como Julio Bressane, Rodrigo Lima e Ricardo Pretti. Eu só tenho a agradecer. Vou filmar agora, em três semanas, um novo longa-metragem chamado "Uma Tarde Na Serra Do Cipó". Será um presente para meu filho Inácio, de 13 anos de idade, e uma homenagem para sua mãe, Luísa Horta, falecida há três anos. O filme é uma viagem de carro do Rio de Janeiro para Minas Gerais, feito por mim e Inácio, em busca de uma carta que Luísa deixou para o jovem, na serra do cipó. Jaffar Bambirra, Camila Botelho, Inácio e eu, seremos os atores do filme, que tem uma coprodução entre a TB Produções, Quarta-feira Filmes e Canal Brasil.