Um 'bromance' sobre quatro rodas
Depois de atropelar produções carregadas de grifes autorais mais consagradas, "Petrolheads" deixa Locarno com fama de pop, angariando silenciosamente convites para outras mostras. Exibido na Semaine de la Critique de Locarno, a produção escandinava faz da amizade sua matéria poética, numa reflexão sobre companheirismo. Diretor de fotografia de vasta quilometragem profissional, o dinamarquês Emil Langballe, 43 anos, transforma a relação entre Martin Jensen (seu irmão adotivo) e Casper Størner num estudo minucioso sobre o que significa cuidar de alguém. Martin, diagnosticado desde os 9 anos com condições severas, sonha com um Honda Civic 1994 e divide com Casper sua paixão obsessiva por carros.
"Casper sempre foi, de certa forma, o cuidador de Martin", disse Emil ao Correio da Manhã, em entrevista concedida via Zoom. Há um desequilíbrio nessa relação, mas também uma franqueza rara: eles brigam, confrontam-se e resolvem os conflitos sem guardar ressentimentos. O carro, espaço íntimo onde os dois conseguem conversar sem precisar se encarar, torna-se extensão dessa cumplicidade. "Fiquei muito tocado pela importância de ter um bom amigo com quem você possa falar sobre tudo, especialmente quando as coisas dão errado", afirma o cineasta. É aí que "Petrolheads" amplia o conceito de bromance, o amor entre parças, para investigar algo mais complexo: solidariedade. A amizade de Martin e Casper não é idealizada nem confortável, mas resiste justamente por ser direta. Emil, diretor de "Q's Barbershop" (2019) e de "Theatre of Violence" (2023), leva ao longa uma experiência visual que também dialoga com seus trabalhos anteriores. O resultado é um retrato do afeto entre dois homens que se protegem enquanto tentam sobreviver às próprias limitações. (R.F)