Mangue vivo... e sensual

O thriller queer 'A Margem do Rio' passa pela competição de Locarno demarcando a força criativa da fotografia Luciana Baseggio, numa atmosfera de mistério que celebra o desejo

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Seja lá qual for a escolha do diretor belga Fabrice Du Welz, o presidente do júri do 79° Festival de Locarno, ao anunciar, neste sábado, quem levará o Leopardo de Ouro de 2025, o Brasil já pode celebrar a consagração internacional da diretora de fotografia Luciana Baseggio como artesã da luz, pois seu trabalho em "A Margem do Rio" é notável. De tudo o que se viu até o momento na disputa do evento suíço, marcada por invenções lúdicas (a fantasia chilena "Princesa Burro") e painéis da força feminina (o drama "Brave New Love", da Dinamarca), os enquadramentos arquitetados por Luciana, no thriller queer de Enock Carvalho e Matheus Farias, desafia convenções testadas (e aprovadas) historicamente na seara do suspense. É um elogio ao desejo, que peita interditos morais no retrato por um Nordeste cercado de elementos místicos em seu mangue, onde a mais temível assombração é o avanço de seitas religiosas neopentecostais conservadoras. A artesania de sua fotógrafa já havia impressionado a Europa em 2025, com "Ato Noturno", uma das sensações da Berlinale do ano passado, que valeu a ela um troféu Redentor no Festival do Rio. Locarno só fez referendar e espichar sua consagração.

Numa narrativa sinestésica de flerte com o mistério, "A Margem do Rio" segue os passos de Izaquiel (Caique Copque), um auxiliar de serviços gerais do Recife.

Num recorte dessa cidade com foco em rotas fluviais e manguezais, o rapaz se aventura perigosamente, noite após noite, em encontros secretos com outros homens. Numa dessas investidas em busca de goza, tromba com o pescador de ar sedutor Jeremias (Ítalo Martins, ator em fase de apogeu em sua arte). O flerte entre eles deixa o jovem zelador magnetizado pelo querer. Durante o dia, contudo, a encantaria do sexo vai embora e dá vez a uma rotina laboral capitalista opressora, no momento em que Izaquiel é escalado para trabalhar na sede de um culto evangélico cujo líder é um pastor boquirroto, que não aceita ver piercings na orelha de seu funcionário, nem tolera ver unhas pintadas nas mãos de seus serviçais. Essa figura, com ares de senhor feudal, que lembra o bispo mau de "O Feitiço de Áquila" (1985), é vivido com brilhantismo por Robério Diógenes, o delegado "imperfeito" de "O Agente Secreto" (2025).

Na montagem taquicárdica feita pelo próprio Matheus Farias, com Will Domingos, à medida que Izaquiel se vê acossado por minions fanáticos, Jeremias o convida a uma jornada rumo às profundezas do coração do manguezal. A forma como essa conexão dos dois é narrada por sua dupla de realizadores (antes conhecida pelo curta "Inabitável") lembra o cult "Um Estranho no Lago" (2013), de Alain Giraudie. O design (e a edição) de som de Daniel Turini e João Victor Coura é outro êxito do concorrente nacional ao Leopardo de Locarno.

A presença brasileira em Locarno aumenta nesta quarta, agora na mostra Cineasti del Presente, voltada para primeiros e segundos longas, onde Ana Vaz apresenta "Hanabi" ("Fire Flower"), sobre o terremoto no Japão, reafirmando sua posição entre as vozes mais experimentais do cinema contemporâneo.